Bolsonaro quer mesmo é ser o rei do Bananão 

Há um detalhe precioso no episódio do homem que forçou a interrupção do voo Salvador-Brasília por se recusar a usar máscara e foi retirado do avião debaixo de gritos e apupos, depois de o avião ter de voltar à capital da Bahia.  O episódio poderia ser apenas mais um entre os milhares que envolvem negacionistas variados, desde os que não acreditam nas vacinas aos que não respeitam o distanciamento social e se aglomeram em eventos ilegais, até aos que simplesmente não acreditam – ainda! – na existência de uma pandemia. (Parêntese: me contaram que numa reunião de condomínio, outro dia, o síndico propôs que certa obra aguardasse até a pandemia arrefecer um pouco, ao que um dos presentes observou, diante da incredulidade da assembleia: - Pandemia? Mas que pandemia? Vocês estão mesmo acreditando nessa baboseira que todo mundo anda falando aí? Fecha parêntese).

Uma passageira do avião, a estudante de medicina Victoria Silva Pinto, revelou a preciosidade contida no episódio. Disse ter ouvido o homem argumentar que não usava máscara porque possuía um vídeo no qual o presidente Jair Bolsonaro afirma que seu uso é... dispensável!

A fala do homem comprova com clareza a influência nefasta de Bolsonaro para que o Brasil tenha atingido o número dramático de mais de 230 mil vidas perdidas para a covid-19. Mesmo assim, ele nega. Mas é claro, é evidente, é visível, é cristalino, é óbvio, é explícito, é indubitável, é inequívoco - tá na cara! - que um percentual elevado dessas mortes deveu-se ao péssimo exemplo dele.

Todo chefe de governo é uma bússola da nação 

Presidente, imperador, primeiro-ministro, rei, príncipe, faraó, aiatolá, sheick, manda-chuva  bambambam ou seja lá como se chame, o ocupante do cargo mais poderoso de um país serve de bússola moral para a população. O povo segue seu exemplo, guia-se pela forma como age, copia seus procedimentos, pauta-se pelos seus princípios e comporta-se de acordo com sua conduta. A declaração do homem sem máscara no avião é a melhor e mais fresca prova disso. A letra de Haroldo Lobo para uma marchinha da campanha eleitoral de Getúlio Vargas em 1950 ilustra bem a função do líder. “Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar/O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”. Da mesma forma como a marchinha dizia que o sorriso de Getúlio fazia o povo trabalhar, o negacionismo de Bolsonaro faz o povo relaxar nas medidas de segurança à saúde e... morrer! Morrer às dezenas, às centenas, aos milhares, às carradas. De nada adianta Bolsonaro repetir a mentira para convertê-la em verdade de que não pode ser acusado de responsável pelas mortes e nada tem a ver com elas. Pois é responsável, sim. Tem a ver, sim. E vai responder por esse crime perante a história, sim. E serásum dia condenado por genocídio, sim. Mesmo que não derrame uma lágrima nem sinta dor ou remorso, até porque não sabe o que é isso.

Sobre isso, um grupo de ilustres psiquiatras que não podem se identificar para não ferir o código de ética, pois teriam de fazer um exame direto para assinar um laudo, concluiu com base apenas na análise dos atos e declarações de Bolsonaro que ele “apresenta comportamentos compatíveis com critérios de transtornos de personalidade descritos tanto no CID-11 como no DSM-5”, como anotou o jornalista Hélio Schwartsman num artigo recente. Eles identificaram no capitão “traços de personalidade narcísica e paranoide, evidenciados por falta de empatia, agressividade, desconfianças e alguma desconexão com a realidade”.

Como é portador de uma demência que o impede de ter compaixão, Bolsonaro é um ser extremamente perigoso, até porque persegue uma ideia fixa – sua reeleição. E alimenta abertamente o projeto de implantação de um estado autoritário sob seu comando. Repita-se até que alguém escute: desde o primeiro dia de seu governo, Bolsonaro pavimenta o terreno para ser um líder autocrático. Para chegar a isso vem estendendo seus tentáculos diariamente pelos três poderes. No Executivo, entulhou ministérios, autarquias e outros órgãos com militares das mais diversas patentes, num processo de cooptação do estamento militar, sem qualquer aptidão ou formação para os cargos, como é o caso do General Pazuello no Ministério da Saúde, que não sabia nem o que era SUS. Cálculos indicam que 6 mil e 500 militares ocupam cargos no governo, por nomeação direta de Bolsonaro. Um número estratosfericamente maior do que ocorria nos tempos do regime militar.

Tá dominado! Tá tudo dominado! 

Já alcançou o Judiciário, nomeando um dos onze ministros da mais alta corte. Na primeira brecha o nomeado, Kássio Marques, começou a pagar a conta alinhando-se sem ressalvas ao Palácio do Planalto. Votou até a favor de Lula, só pra derrotar a Lava Jato. Sozinho votou pelo direito de Alcolumbre - que apoia Bolsonaro – se recandidatar e está cotado até para assumir um ministério. Mas votou contra Rodrigo Maia – adversário de Bolsonaro, que já cogita em alargar sua influência no STF, com a nomeação do próprio Pazuello, um de seus “servidores” mais fiéis, aquele do “um manda e o outro obedece”.

Os tentáculos do capitão-presidente já abarcaram as duas casas do Legislativo. Bolsonaro “comprou” ou comprou (escolha se vai com ou sem aspas) a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Não teve dúvidas em lotear cargos e distribuir aos eleitores – os deputados e senadores - emendas parlamentares a mancheias, para garantir a vitória de seus candidatos. E o Parlamento, na sua maioria, miseravelmente ocupado por parlamentares fisiológicos, entregou direitinho a mercadoria, elegendo Artur Lira e Rodrigo Pacheco. Para as comissões das duas casas estão sendo escolhidos nomes de sua mais absoluta confiança. Com isso, Bolsonaro enterrou o sucesso de qualquer sonho de impeachment neste momento, pois qualquer proposta depende do aceite do presidente da Câmara para tramitar. Se com Maia estava difícil e não andou, com Lira na presidência aí mesmo é que o impeachment não vai andar mas é de jeito nenhum.

Bolsonaro vem comendo o mingau pelas beiradas.  E de colherada em colherada vai assumindo, antes de forma sorrateira, agora de forma escancarada, o controle dos três poderes da República com a colocação em postos-chaves de pessoas de sua absoluta confiança. O pior é que todo esse descalabro parece natural, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Ninguém liga. Ninguém reclama. A oposição parece cansada e desiludida.

560 aviões caíram no Brasil, de março pra cá 

Pela média móvel de mortes, é como se caíssem diariamente no Brasil três boeings lotados. Três! Ou seja: é como se já tivessem caído desde o início da pandemia 560 aviões e todos os seus ocupantes tivessem morrido. Mas Bolsonaro não tem nada com isso. Mesmo que aquele homem sem máscara lá do avião tenha dito com todas as letras que aprendeu com seu presidente e líder a desrespeitar as normas sanitárias impostas pela pandemia e posto em risco a própria vida e a dos demais passageiros.

Será que Bolsonaro se preocupa ao menos um pouquinho com a imagem terrível de mais de duzentas mil sepulturas, boa parte delas ocupadas com os restos de quem acreditou nele e seguiu seu exemplo? Pelo que se tem visto, não. Porque, para ele, importante é passar a boiada enquanto todo mundo está de olho na pandemia. Tem ficado cada vez mais claro que o capitão está tocando um projeto de dominar todos os espaços dos três poderes para barrar o impeachment e garantir a reeleição em 2022. Mas, tudo isso, em busca de um objetivo ainda maior. Ou há alguma dúvida de que, se conseguir apoio – ou comprá-lo, como vem fazendo – ele colocará a coroa na cabeça e subirá ao trono para se tornar “Sua Majestade Imperial Jair Bolsonaro, o Messias, o Salvador, o Redentor, o Altíssimo, o Todo-Poderoso Rei do Bananão?”

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