Bolsonaro é ou não é fascista? 

Nunca antes na história deste país, como diz um metalúrgico famoso, falou-se tanto em fascismo. Desde a campanha de 2018, uma das acusações mais fortes contra Bolsonaro é a de que ele é fascista. Mas se perguntar aleatoriamente, mesmo aos seus opositores, é difícil encontrar quem estabeleça uma relação direta entre a doutrina fascista clássica e a retórica bolsonarista. Pela simples razão de que a maioria repete o mantra sem qualquer conhecimento do assunto.

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As bases da doutrina fascista foram estabelecidas por Benito Mussolini na Italia há um século. Assenta-se na prevalência dos conceitos de nação e raça sobre os valores individuais. Defende um governo autocrático centrado na figura de um ditador. Uma visita rápida à biografia do Duce (o “chefe”, em italiano), traz uma surpresa: Mussolini ingressou na atividade política como redator do jornal Avanti! , órgão do Partido Socialista Italiano(!), ao qual era filiado. Mas, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Mussolini foi se afastando do ideário socialista, entrou em choque com a direção do partido e saiu do jornal até criar o seu, Il Popolo d’Italia (O Povo da Itália). Ali, saltou do socialismo para o corporativismo e o coletivismo.

Alistou-se no Exército Italiano para  lutar contra as forças dos aliados Alemanha e Império Austro-húngaro. Com o fim do conflito, associou-se a pessoas de diversas camadas sociais para formar o Fasci Italiani de Combatimento, semente do futuro Partido Nacional Fascista. “Fasci”, em italiano, é feixe, referência ao feixe de varas em torno do machado, símbolo de poder no Império Romano (“separados somos frágeis, mas juntos somos fortes”).

Controle absoluto 

Para Mussolini, o exercício do poder político abarcaria todos os aspectos da vida dos italianos, submetidos à única e exclusiva vontade do Duce, o líder inconteste rumo ao “triunfo da Itália-nação e império”. O  controle absoluto da vida dos cidadãos pelo Estado inspirou Francisco Franco, na Espanha e Adolf Hitler, na Alemanha, além do baixinho brasileiro Getúlio Vargas na ditadura do Estado Novo.

Em 1918, as ideias fascistas conquistaram tantos adeptos pela simplicidade dos seus conceitos de exercício do poder, baseados na força bruta e imposição de ideias, sem qualquer respeito a princípios democráticos, que um grande número de pessoas participou da “Marcha sobre Roma”  para pressionar o rei Victor Emmanuel III a nomear Mussolini primeiro-ministro. No poder, os fascistas começaram a por em prática seu projeto de aparelhamento de todas as áreas do estado, a começar pelos órgãos de representação do operariado. Um dos principais passos foi a promulgação da chamada “Carta di Lavoro” Carta do Trabalho, em 1927. Por aqui, a Carta de Lavoro inspirou a redação da CLT de Vargas.

“Carta de Lavoro” era um dispositivo de controle dos sindicatos e de associações de trabalhadores, que passavam a fazer parte do Estado Corporativo. Mussolini foi o chefe supremo do estado italiano de 1922 a 1943, quando foi preso pelas forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Foi preso, depois libertado com apoio da SS nazista, tentou voltar ao poder mas foi recapturado e fuzilado, junto com a esposa.

Mussolini e Bolsonaro: as similitudes 

De volta ao começo. Por que tanto se acusa Bolsonaro de fascista? A resposta está na análise em conjunto de suas palavras e obras. A ideologia fascista é chauvinista, ou seja, é baseada num patriotismo fanático e agressivo, que descamba para o entusiasmo cego por uma causa ou por um líder. É antiliberal na essência (embora possa se disfarçar exatamente de liberal para garantir apoio). É antidemocrática, antissocialista e contra a concessão de direitos à classe operária. E para se afirmar sempre precisa de um inimigo real ou imaginário.

Vista em retrospecto, a carreira política do projeto de duce tupiniquim cumpre todos os requisitos acima. Bolsonaro exibe e incentiva um chauvinismo/patriotismo de fancaria. Na retórica alardeia a defesa do “nosso Brasil”, mas na prática tem deixado o país à própria sorte nas áreas ambiental e sanitária, e vem cumprindo o papel de vassalo privilegiado de Donald Trump.  Apoia e incentiva ações de culto à sua personalidade. Só um exemplo, bem atual: alguém conhece imagem mais ridícula e tosca do que as máscaras com a impressão de seu rosto, usada por ele e seus apoiadores?

Para o professor João Roberto Martins, da Universidade de São Carlos, “Ele é uma pessoa que passou a sua carreira política elogiando a tortura e a ditadura militar, falando que é necessário um novo golpe de Estado e que, nesse golpe, devem morrer 30 mil pessoas e que a tortura é legítima. É evidente que essas ideias são completamente contrárias à nossa Constituição. E o risco se torna maior porque as forças que esse candidato está mobilizando concordam com essas ideias. Tanto o fascismo quanto o nazismo surgiram quando havia um espantalho para quem endereçar todo o mal. No caso deles era o comunismo; no nosso, é o ódio ao PT alimentado por grande parte da população. É uma combinação explosiva e não sabemos muito bem em que isso vai dar. Por isso há temores justificáveis de que (...) possa levar a um regime autoritário e a um rompimento da ordem democrática."

O governo Bolsonaro é antiliberal na essência, embora faça pose de adepto do liberalismo econômico. Quantas vezes já ameaçou intervir na economia para atender aos setores empresariais que lhe garantem apoio? Populista, o Bolsonaro que se elegeu condenando a velha política faz dela seu trampolim político preferido, trocando apoio por cargos e cumprindo exemplarmente o velho ritual de montar em jegue, usar chapéu de nordestino e comer sanduíche na rua para parecer homem “do povo”. Tudo sem perder a pose de machão autoritário, é claro. Além de vir colocando militares em postos-chaves da administração, num aparelhamento nunca visto nem durante a ditadura militar de 1964.

Teria um monte de outros sinais de similaridade entre Bolsonaro e a doutrina fascista para mencionar. Mas fiquemos por aqui. Importante é saber que todas essas similitudes apontam para o fascínio que o projeto de duce tem pelos regimes autocráticos. E a facilidade com que esse pensamento, associado à prática clientelista forçada que o fez entregar os 600 reais/mês (originalmente propôs apenas 200!) de auxílio-emergencial que impulsionaram sua popularidade aos atuais 40%, tem conquistado mais e mais adeptos.

A hora é de por as barbas de molho, porque o incêndio já começou.

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