Acaba a minha vida

Thomaz Wood Jr, em seu artigo “Como se fosse 1986” (Carta Capital, nº 768 de 2 de outubro de 2013), conta que um “casal de canadenses abandonou gadgets para fortalecer laços familiares”.

“Blair e Morgan McMillan formam um casal canadense típico, exceto pelo fato de terem eliminado de suas vidas todas as tecnologias introduzidas após 1986. Por que 1986? Porque foi o ano em que ambos nasceram. A dupla decidiu experimentar uma vida livre de internet, iPhone, Xbox, iPad, GPS, Facebook, Instagram, Twitter e qualquer outra ‘maravilha’ moderna.”

“Tudo começou quando o casal percebeu que tais maravilhas roubavam a infância de seus filhos, dois pimpolhos de 5 e 2 anos de idade. O mais velho já se recusava a abandonar seu iPad para brincar fora de casa.”

No dia que li este artigo fui almoçar com a minha filha, seu marido e seu pimpolho e sua pimpolha. Ele de cinco e ela de oito anos de idade. Durante o almoço, comento a decisão do casal canadense e pergunto à minha neta o que ela pensaria se o pai e a mãe dela tomassem a mesma decisão. Sem pensar, o que geralmente é próprio de criança, ela responde:

— Acaba a minha vida.

Não podia ser diferente: de imediato rimos e fizemos os devidos comentários. Comentamos como foram as nossas infâncias. Eu, agora sexagenário, mas que tive a minha infância morando na zona rural do interior do Paraná (Rolândia). Minha filha e o genro já nascidos no início da década de 1970, e que passaram a infância na cidade, mas sem essa tecnologia toda a disposição e, por fim ela (a neta) com acesso a toda essa parafernália.

Ainda ao redor da mesa do almoço, pensei, porém não perguntei aos demais: qual é a ideia que ela tem da vida e do que é vida? Se com o acesso limitado pelos pais acaba a vida, imagino para aquelas crianças que têm permissão dos pais, até por comodidade, para ficar o tempo que quiserem na frente dessas máquinas.

Todo ano, quando se aproxima o Dia das Crianças, muitos estudiosos, pesquisadores, críticos, educadores e curiosos escrevem sobre a infância e “os novos” tempos. Entre aspas porque o tempo (de hoje) sempre é novo quando comparado com qualquer tempo do passado, inclusive ontem. Mas no tempo atual, o grande tema é a infância e o uso das tecnologias digitais.

A decisão radical do casal Blair e Morgan McMillan é necessária? Cada um dos leitores e leitoras (se é que tenho) tem uma opinião. A minha é que não é necessário tamanho radicalismo.

A cada tempo, por isso que ele é sempre novo, a forma de viver a infância é diferente. No meu caso e no meu tempo, o território da infância era a vastidão de um sítio (sem fim para minhas pernas curtas e imaginação), sem tecnologia, com muitos animais, muitas frutas, trabalho muito jovem e repressão, para uns mais para outros menos, por parte dos adultos. Se apanhava por pouca coisa e, por ser de origem italiana, tive sempre a impressão que todos os parentes (tios, tias, avô e avó) podiam bater. A maioria dos brinquedos era por nós inventada e muito deles saíam da pura imaginação: um pedaço de tijolo podia ser um caminhão.

O “novo tempo” é o do século XXI, com mais pessoas idosas e menos crianças. Será uma infância distinta, não só pelo tempo das outras infâncias, mas estimulada pelas mídias que trarão informações muitas vezes desconhecidas pelos mais velhos que estão ao redor da criança.

Se no meu tempo o tempo livre era o de brincar (correr) ao ar livre, geralmente sem a presença do adulto e em contato com outras crianças, agora esse tempo livre diminuiu, pois a criança fica ligada em algum gadget (geralmente são chamados de gadgets dispositivos eletrônicos portáteis), sem exercício físico e com pouco contato com outras crianças.

Se no meu tempo o tempo de brincar não tinha ao fundo nenhum ou pouco conteúdo ideológico-econômico, hoje a realidade é outra. Parte dos conteúdos, histórias e personagens acessados tem forte viés ideológico e econômico. Os jogos são criados por adultos com o objetivo de “fazer” a cabeça e obter lucro.

O casal Blair e Morgan McMillan reagiu ao seu modo. Entendo que cada um deve reagir para que a infância do século XXI não crie pessoas egoístas e individualistas, pois a vida é muito mais que os gadgets.

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