A mudança climática é a nova bomba atômica

A proposta de se celebrar um tratado internacional de não proliferação da extração e uso de combustíveis fósseis, e do rápido banimento do seu uso, lançada há poucos anos e já apoiada por centenas de cientistas e acadêmicos, foi reforçada, nesta quarta-feira (21), véspera do dia da Terra e da Cúpula do Clima, por 101 ganhadores do prêmio Nobel, inclusive o Dalai Lama. Defendem, simplesmente, que os combustíveis fósseis devem ser deixados no subsolo, interrompendo sua extração o quanto antes. Afinal, as mudanças climáticas ameaçam a vida de milhões de pessoas e milhares de espécies; só a poluição do ar mata mais de oito milhões de humanos a cada ano!

No Brasil, onde a descoberta do pré-sal criou a ilusão de que tal petróleo traria riqueza aos brasileiros, a ideia soa despropositada. Mas, ao lembrarmos que os minérios de Carajás trouxeram ilusão semelhante mas não concretizada após décadas de exploração, a ideia deixa de parecer estapafúrdia.

Devemos também avaliar essa proposta imaginando qual seria nossa reação ao ver nossos filhos se apoiando em galhos cada vez mais finos de uma alta árvore, em busca de um belo e distante fruto, ou se aproximando perigosamente da borda do precipício para pegar um brinquedo; em razão dos riscos crescentes, deveríamos incentivá-los a prosseguir? Fosse garantido o alcance do prêmio em segurança, sim. Porém, há mais dúvidas que certezas sobre a obtenção do prêmio. Assim, melhor buscar outros caminhos.

A queima de carvão, petróleo e gás é responsável por 80% de todas as emissões de dióxido de carbono desde a revolução industrial. A ideia de interromper seu uso é radical? Talvez sim, significando cortar o mal pela raiz de forma a construir esperança. Possibilitar seu uso crescente, por outro lado, é opção radical pelo fim da esperança. A frequente celebração de novos recordes de extração desses fósseis, seja pela Petrobrás ou qualquer outra, é também e necessariamente a comemoração da destruição das condições de vida em nossa única casa. Para quê?

Há que mudar o rumo.

O deflagrar da pandemia desorganizou a economia. A súbita interrupção da extração daqueles fósseis traria desorganização talvez ainda maior, assim como a paralização do fornecimento de energia desestabiliza nossas rotinas. Porém, a continuidade da sua extração e queima trará, crescentemente, destruição das condições de vida, secas e enchentes extremas, migrações volumosas rumo a cidades despreparadas para receber os migrantes, alagamento de Copacabana, Manhattan, Bangladesh e outros pontos de concentração populacional. Deixar aqueles fósseis descansar no subsolo é a opção mais barata e mais rápida.

Claro, há que garantir suprimento alternativo de energia, acelerando o mais possível a geração e o uso de fontes limpas. Mas não só isto. É necessário eliminar os subsídios hoje existentes à extração e queima dos fósseis e também alterar nosso estilo de vida. A começar pelo fim do incentivo à emulação dos “ricos e famosos”. De acordo com o Relatório Anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente de 2020, o 1% mais rico do planeta emite cerca de 100 vezes mais gases de efeito estufa que a metade mais pobre da humanidade.

O desafio é gigantesco. As opções são: encará-lo e enfrentá-lo, ou .....

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