A mentirosa e demagoga verdade simples

Ricardo de João Braga e João Aurélio Mendes Braga de Sousa *

A política está em frangalhos e a classe política está sendo carcomida por duas doenças que ela mesma criou e alimentou: a corrupção e a incompetência. A Operação Lava Jato e a insatisfação das ruas com os políticos de plantão levam a reputação das autoridades ao subterrâneo. Neste quadro de terra arrasada, uma antiga doença da democracia assoma no horizonte: o demagogo, figura maléfica sobre a qual os clássicos do pensamento já nos alertaram há milênios. Apresentando-se a si mesmos como solução, eles são de fato um problema a mais.

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Conta-se que um secretário de Estado do presidente Kennedy recebeu dois projetos para levar o homem à Lua. Um apresentava-se em quatro ou cinco volumes e outro numa fina brochura. Ele teria dito ao assessor, sem mesmo lê-los: ­pode descartar aquele menor, verdades simples não resolvem os problemas que temos aqui.

A política brasileira hoje se defronta com mentirosas verdades simples. Na classe política um grupo deles apresenta simples soluções para os problemas complexos do nosso mundo. O Brasil possui diversidade de grupos com uma multitude de identidades, visões de mundo e demandas, há problemas de ordem econômica e social vários e interligados, nossas empresas e trabalhadores defrontam-se com uma economia global interconectada e altamente competitiva, etc. Proferidas ao eleitor, ao cidadão, esse grupo das mentirosas verdades simples promete resoluções fantásticas, e apenas isso. São irresponsáveis.

Os demagogos fazem apologia de si mesmos, de estrelas e distintivos e de sinistras figuras históricas elevadas descaradamente a heróis, e bradam um discurso que bastaria ser sério e ter algumas verdades morais como guia. Suas ferramentas são o ataque e a acusação, em que o alvo é em geral o diferente, como os imigrantes, os refugiados, as minorias, os que creem em outros deuses, etc. Nada mais falso e nada mais desonesto.

A mentira da verdade simples no mundo complexo em que vivemos é que ela faz um salto entre o problema que está aí e a solução que parte de nós desejamos. Há dois problemas graves. O primeiro dá-se pela proposital ignorância do demagogo sobre o caminho entre problema e solução. É preciso alocar meios, convencer pessoas, dar condições à máquina pública e à sociedade para atuar. Nada disso é problema para ele. O demagogo se diz pessoalmente honesto, mas é absolutamente criminoso em seu diagnóstico e proposta de solução. Quando questionados sobre “como” fazer, sua atitude primeira e em geral única resposta é desqualificar pessoalmente quem pergunta. O segundo problema da verdade simples é que ela é única. O problema é solucionado segundo um ponto de vista apenas, e deixa de lado uma série de questões e interesses de outros grupos. Não por outras razões essa demagogia hoje se apresenta contra muitas minorias, o que caracteriza retrocesso e autoritarismo.

O desrespeito da verdade simples é que ela é feita de forma conscientemente mentirosa, com o objetivo de enganar o cidadão e o eleitor, pois é óbvio que não será cumprida. Trata-se de uma ferramenta de enganar pessoas, para que se vença uma eleição e nada mais. Com esta atitude, deprecia-se ainda mais o valor da política para o cidadão, e assim contribui e é responsável pela desesperança endêmica na política. Ao contrário de educar e fortalecer a cidadania, o demagogo age paternalmente para ter o eleitor como um dependente e submisso. O demagogo também é moralmente desprezível, porque é autoritário. Quando se porta uma verdade frágil, sinônimo de mentira, a solução usual é atacar os adversários, e não dialogar sob a luz do sol com seriedade e honestidade. Por isso também essas verdades simples são desrespeitosas.

Enquanto a política no Brasil se esboroa e apodrece, alguns agem como vermes ao se locupletar com os espólios da carniça. É preciso, ao contrário, valorizar a responsabilidade democrática. Se pretendemos chegar à Lua, é preciso ser consequente, ser honesto com os problemas e com a diversidade da sociedade. Não é de aventureiros verdadeiramente sem escrúpulos e falsamente santos que precisamos, mas de gente que compreenda que na política há um diálogo de pessoas que devem ser respeitadas e questões reais que devem ser tratadas com consequência. O demagogo é um oportunista, que se aproveita da política para benefício próprio e estiola a energia cívica. Demagogos devem ser repelidos.

Ricardo de João Braga é doutor em Ciência Política e servidor público. Engenheiro civil e bacharel em Direito, João Aurélio Mendes Braga de Sousa (joao.aurelio@gmail.com) presidiu a Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (Anesp).

 

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