A gangorra e as contradições da economia brasileira

A satisfação das pessoas e a sua percepção do quadro político resultam muito mais do desempenho da economia e do grau de bem-estar que ele provoca do que propriamente da identificação com determinada corrente ideológica ou de escolhas subjetivas. O cidadão médio é extremamente pragmático e avalia governos e partidos pelo que eles significam objetivamente na sua qualidade de vida. Economia indo bem, governo bem avaliado. Fragilidade econômica, governo mal avaliado.

A economia brasileira construiu bases sólidas a partir do Plano Real, da reforma do Estado e da consolidação do tripé metas inflacionárias, câmbio flutuante e austeridade fiscal. Com base nesses fundamentos, içamos velas para aproveitarmos o vento de um dos melhores momentos do capitalismo mundial, de 2003 até a atual crise mundial. A reforma estrutural perdeu fôlego e deu lugar à expansão baseada na ampliação do crédito e do consumo.

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Depois de surfar nessa onda, que garantiu altos índices de popularidade aos governos Lula e Dilma, o modelo de crescimento dá sinais de esgotamento.

Há dados contraditórios em estatísticas recentemente divulgadas. A renda média da população continuou crescendo e o desemprego manteve a tendência de queda, deixando o Brasil com uma das menores taxas do mundo. Mas o aquecimento do mercado de trabalho tem revelado gargalos em segmentos profissionais especializados. A taxa básica de juros teve queda substancial, mas, na ponta, empresas e famílias ainda pagam juros estratosféricos. O fluxo de investimento direto de capital estrangeiro foi recorde, correspondendo ao momento de alta liquidez internacional sem oportunidades atrativas nos países centrais. Mas a percepção sobre o Brasil, para o médio e longo prazo, piorou.

Se a renda, o emprego e o investimento direto foram bem, outros indicadores sinalizam uma inflexão na trajetória da economia.

No Brasil, o PIB cresceu apenas 1% em 2012, muito menos que na China, na Índia, no Peru e no Chile. Nos três primeiros anos do governo de Dilma, devemos ficar em último lugar na América Latina e em penúltimo entre os países emergentes. A taxa de investimento está extremamente aquém das necessidades nacionais. A balança comercial e de transações correntes acumula déficits. O intervencionismo e a falta de solidez regulatória começam a afastar investidores. Erros são cometidos no setor energético. A desindustrialização é clara, apontando para uma economia primário-exportadora, de baixa produtividade e capacidade de inovação. A inflação se situa persistentemente fora do centro da meta. A política fiscal desperta desconfiança a partir do uso abusivo de manobras contábeis tentando maquiar o desempenho efetivo.

O ano de 2013 é decisivo para o delineamento das perspectivas futuras da economia brasileira. Estamos perdendo oportunidades. Se o Brasil está relativamente bem, poderia estar muito melhor. É preciso retomar a confiança nos fundamentos de nossa economia.

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