“Ainda não há luz no final do túnel”, diz governador do PI sobre pandemia

Em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco, o governador do Piauí e presidente do Consórcio Nordeste, Wellington Dias (PT), fala sobre os desafios dos estados e municípios na pandemia, a gestão do governo federal e as expectativas para os novos passos da CPI da Covid.

Segundo o governador, a comissão deverá esclarecer os trilhos seguidos pelo governo desde o ano passado. Ele também classifica que a falta de acompanhamento da ciência no tratamento da pandemia foi um agravante para o país. "São falhas que tiveram um impacto no nível de mortalidade que chegou ao Brasil", aponta.  

Dias destaca a importância da maturidade, sem distinção de partido político ou região, para o Brasil proporcionar um plano de imunização à sociedade. 

Leia a entrevista:

Congresso em Foco: o que o senhor tem achado da CPI até agora?

Wellington Dias: A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado Federal tem um foco, que é investigar o elevado número de óbitos no Brasil e a partir daí, a responsabilidade por estes óbitos e também sobre a aplicação dos recursos liberados pelo Congresso Nacional. Da nossa parte, como governador e pelo fórum dos governadores do Brasil, pelo consórcio dos governadores do Nordeste, que sou presidente, nós queremos colocar as informações necessárias e sempre com cuidado para que a CPI não ultrapasse os limites estabelecidos pelas próprias regras do Senado Federal para que haja uma dispersão.

Há algum depoimento mais esperado pelo consórcio do Nordeste? 

 A CPI tem uma formatação com parlamentares com muita experiência. Experiência do próprio Senado, outros que passaram pela Câmara Federal, ou foram governadores, foram prefeitos, enfim, por esta razão nós temos a confiança de que todos os depoimentos têm um objetivo. Na condição de testemunho, investigado, as pessoas que são chamadas à CPI têm a obrigação de prestar informações que ajudem no esclarecimento, foco da CPI, sobre os pontos colocados lá no requerimento que deu origem à própria comissão parlamentar de inquérito. 

Na semana passada foram feitos alguns pedidos pelo senador Eduardo Girão (Pode-CE), entre eles, a prestação de contas da verba encaminhada pelo Governo Federal aos estados do Nordeste. Como o senhor recebe isso? 

 Sobre a aplicação de recursos federais pelos estados e pelos municípios, nós temos toda a obrigação e o interesse de fornecer as informações, prestar contas e entendemos que é sim um foco da CPI. O que esperamos é que a CPI não seja usada como um instrumento de disputa política em qualquer dos estados. Nós estamos falando em um instrumento extraordinário da democracia, que tem um poder de investigação judicial dado ao parlamento e que sendo bem usada, pode prestar um serviço de importante interesse público. Não pode ser focada sem razão em uma única região do Brasil. Da parte do Nordeste e, tenho certeza também dos municípios, nós já estamos providenciando as informações necessárias sobre a aplicação de cada centavo que recebemos e fazemos isso com muito cuidado. 

 Qual a expectativa do depoimento do ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello? 

 O ministro Eduardo Pazuello teve um período alongado em relação a tantas mudanças que tivemos no Ministério da Saúde. Durante a fase em que foi ministro, nós tivemos uma relação federativa. Estive com ele e com outros governadores algumas vezes e sentíamos uma dificuldade muito grande, mas não era apenas dele, era já lá do ministro Mandetta, como ele mesmo relatou. O próprio ministro Marcelo Queiroga, hoje, claramente, tem a mesma dificuldade de ter liberdade para um papel importante e esperado do Ministério da Saúde nesse desafiador momento da pandemia.

Na verdade, em alguns momentos, as decisões são tomadas sem a participação do ministério, e agora, mesmo na organização do do comitê de coordenação sobre Covid-19, deixaram de fora estados e municípios. A falta de um plano que leva em conta a ciência vem desde o início da pandemia. Eu acho que este é um foco que deve ser tratado porque é provável que se tenha a forma de encontrar a responsabilidade sobre os erros.

Não seguir a ciência é um risco muito maior, basta ver o que aconteceu com o Brasil e o que aconteceu com outros países que seguiram a ciência. Em outros lugares do mundo que tiveram problemas graves como a Itália, a Espanha, a Inglaterra, a França, os Estados Unidos tiveram um resultado diferente do Brasil. Esses outros países seguiram a ciência. Seja no plano estratégico nacional, na prioridade para vacinação, na prioridade para a rede de tratamento dos doentes, na prevenção, com medidas de isolamento, quarentena individual, apoio a garantir as condições de suportar os prejuízos da população e dos empreendedores. Isso faltou no Brasil, com toda certeza. 

Houve alguma dificuldade na negociação com o ministério sobre a pandemia no Nordeste?

 A dificuldade que eu cito é menos na relação pessoal com os ministros e é mais na efetividade. Somente em outubro nós chegamos a ter um plano estratégico nacional de imunização e ainda hoje, nós não temos um cronograma de vacinação que possa nos dar segurança sobre o mês seguinte, nem falo no médio e no longo prazo. A falta de segunda dose, tendo que paralisar a primeira, a falta de respiradores, a falta de uma política preventiva que resultou no colapso na rede hospitalar, a falta de um acompanhamento com a ciência em relação ao abastecimento… Tudo isso são falhas que tiveram um impacto no nível de mortalidade que chegou o Brasil. 

Há algum depoimento na CPI que comprometa o governo?

 A existência de uma Comissão Parlamentar de Inquérito em meio uma guerra mundial, onde o inimigo comum é o coronavírus, já mostra que há uma situação completamente diferenciada no Brasil. O que estamos vivendo não é uma guerra com canhões, com arma aumento, com bombas, mas é uma guerra que tem um nível de mortalidade das mais elevadas. Nós estamos ultrapassando 1,5 milhão de óbitos no mundo. Estamos nos aproximando de 430 mil óbitos no Brasil. Olhando para frente, ainda não há uma luz no final do túnel. 

Isso estaria ainda estar acontecendo se tivéssemos outra gestão? 

Eu cito um exemplo que o mundo já acompanhou. Nos Estados Unidos nós tínhamos o Presidente Trump e ele seguia a mesma posição do atual presidente Jair Bolsonaro. O que aconteceu com os Estados Unidos? Chegou a cerca de 4.500 óbitos por dia. Chegou a mais de meio milhão de óbitos muito rapidamente. O impacto na economia, no social, no desemprego, foi muito grande. Algo muito parecido com o que acontece no Brasil. Ali assumiu um outro presidente da república, Joe Biden, e o que aconteceu? Ele adotou medidas seguindo a ciência. Medidas para prevenir, para conter o coronavírus, medidas de isolamento em massa, apoio para isolamento aos indivíduos, garantindo menos pessoas em circulação e, principalmente, garantindo em uma condição de mais vacinas. Os Estados Unidos já caminha para a imunização em massa ser alcançada agora no mês de maio, mês de junho, deste ano. Eu cito esse exemplo para dizer a diferença na vida, na economia, no social, na postura de um Presidente da República. 

O senhor acredita que até o final do ano todos os brasileiros conseguirão ser vacinados, assim como prevê o ministro Marcelo Queiroga? 

 O Ministro da Saúde assume um compromisso de até dezembro vacinar os grupos de maior risco, pelo o que está no planejamento seria em torno de 50% da população brasileira. O Fórum dos Governadores está centrado e comprometido com o plano estratégico nacional, esse plano que seguiu a ciência, tem uma primeira, segunda, terceira e quarta fase que leva em conta os grupos de maior risco. O Brasil tem uma experiência histórica nessa área de vacinação, é um país que conta com cientistas, com laboratórios com capacidade de produção de vacina dentro do Brasil.

Se dermos as condições a FioCruz, Butantã, para a União Química e outros laboratórios, teremos condições de desenvolvimento e produção de vacina brasileira dentro do Brasil. O que garante agilidade na na vacinação brasileira e ainda o Brasil pode fornecer vacina para outros países da América Sul e do mundo. É preciso a união, a maturidade, independente das disputas políticas, para que possamos criar um ambiente que permita ao Brasil ter uma retomada organizada, gerando emprego, renda e atraindo investimentos. São grandes desafios que temos pela frente e isso vai exigir muita maturidade. 

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