Após briga em eleição, Cid Gomes acena ao PT: “Não é nosso inimigo”

Dez meses após fazer um discurso que afastou qualquer possibilidade de aliança com o PT na disputa do segundo turno presidencial, o senador Cid Gomes (PDT-CE) abre uma porta para a reconciliação. Irmão do ex-governador Ciro Gomes (PDT), Cid afirma que apenas a união das forças que fazem oposição ao governo Bolsonaro poderá evitar que, em 2022, a eleição descambe para uma nova “maluquice”.

“O PT não é nosso inimigo, queremos nos colocar como alternativa progressista que não irá cometer os mesmos equívocos e erros graves que o PT cometeu, só isso. O PT pode ser aliado? Pode, pode ser antes e pode ser depois. Quem dita a forma é quem lidera”, afirmou em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco (veja a íntegra mais abaixo). “Não temos nenhum problema em fazer uma luta comum”, acrescentou.

Para o pedetista, Jair Bolsonaro chegou ao Planalto porque fez a “política do contra” e agora paga o preço de não ter propostas para governar. Mesmo reafirmando suas críticas ao PT, o senador diz que o momento é de virar a página e construir alianças em torno de um projeto de país, e não em cima de nomes.

“Acho que um grande erro na política brasileira é você se unir contra alguma coisa. Isso dá no Bolsonaro. O Brasil tem que se reunir em torno de um projeto, não de pessoas. Se na nova [eleição], ficar de novo, ressentimento contra a velha política, contra o PT, contra os partidos tradicionais e - vai entrar o nosso amigo Luciano Huck... Luciano acho que é muito melhor que o Bolsonaro, mas as coisas não são assim, se não tiver um projeto claro, experiência, vivência, traquejo, vai dar nessas maluquices aí”, disse.

Na sexta-feira (30), Fernando Haddad e Ciro Gomes se encontraram pessoalmente pela primeira vez desde as eleições presidenciais. O petista apareceu de surpresa no festival de filmes Cine Ceará, em Fortaleza, e cumprimentou Ciro, também presente no evento.

Feridas de 2018

Em outubro do ano passado, em Fortaleza, Cid participou de um ato de apoio à candidatura de Fernando Haddad, que disputava o segundo turno contra Bolsonaro. Para surpresa da plateia petista, a aguardada declaração de apoio não veio. Pelo contrário. Em discurso inflamado, o ex-governador desafiou o PT a assumir seus erros e responsabilizou o partido pela ascensão do então candidato do PSL.

“Vão perder feio porque fizeram muita besteira. Porque aparelharam as repartições públicas. Porque acharam que eram donos de um país, e o Brasil não aceita ter dono", discursou em meio a vaias. "Lula, o quê? Lula tá preso, babaca", respondeu a militantes que entoavam o nome do ex-presidente.

Ciro viajou para a França logo após ser derrotado no primeiro turno. A saída de cena foi uma resposta às investidas do PT contra a sua candidatura no primeiro turno. Os petistas não o perdoaram e o bombardearam com críticas. Desde então, Haddad diz que nunca mais teve contato com o ex-candidato, que ficou na terceira colocação na disputa presidencial.

Nesta entrevista ao Congresso em Foco, Cid conta, em detalhes, que recebeu este ano uma mensagem pelo telefone de Haddad para que se encontrassem em Brasília, mas diz que o ex-prefeito paulistano desmarcou o encontro. A tentativa de contato foi propagandeada por Haddad em suas redes sociais como um gesto de reaproximação entre os dois grupos políticos.

Divergências

Embora demonstre abertura para conversar com lideranças petistas, o senador não indica que tomará a iniciativa e tampouco esconde suas divergências com o PT. “Queremos só demarcar, e acho que de uma forma conseguimos, que somos diferentes do PT, não apostamos no quanto pior melhor. Temos preocupações com o Brasil acima de preocupações partidárias. É isso que a gente queria demonstrar, é possível ter um governo progressista sem os vícios, sem cometer os equívocos e erros graves que o PT cometeu quando governou”, disse.

Aos 56 anos, Cid Ferreira Gomes está em seu primeiro mandato como senador. O pedetista foi o responsável na Comissão de Constituição e Justiça pelo relatório que regulamenta a destinação das receitas excedentes dos leilões do pré-sal. O projeto deve ser votado pelo Plenário do Senado na próxima terça-feira (3).

Governador do Ceará entre 2006 e 2014, foi também prefeito de Sobral (CE) e deputado estadual. Já foi filiado ao MDB, PSDB, PPS, PSB e Pros. Foi ministro da Educação da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2015 por apenas três meses. Saiu após chamar o então presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ) e “mais uns 400 deputados” de achacadores, em discurso na tribuna da Casa.

Leia a seguir a íntegra da entrevista com Cid Gomes:

Congresso em Foco - Como o senhor avalia os oito meses de governo Bolsonaro?

Cid Gomes - É um governo dirigido por uma pessoa completamente despreparada, sem noção do que é o Brasil e o que é pior para mim, não tem humildade, é arrogante. Nessas horas ou nós outros que não somos governo começamos a nos preocupar com o Brasil ou desse governo não se pode esperar muita coisa.

Haddad tem dito que não conversou com Ciro esse ano, mas que manteve diálogo com o senhor.

A gente pretendeu, e acho que para mim isso é página virada, demarcar uma posição diferente do PT. Daqui para frente se em algum momento, algum ponto nos coloca em trincheira comum, nós com o PT, nós iremos travar luta. Queremos só demarcar e acho que de uma forma conseguimos, somos diferentes do PT, não apostamos no quanto pior melhor. Temos preocupações com o Brasil acima de preocupações partidárias. É isso que a gente queria demonstrar, é possível ter um governo progressista sem os vícios, sem cometer os equívocos e erros graves que o PT cometeu quando governou. Nosso inimigo não é o PT, temos um projeto para o Brasil e vamos seguir uma convergência com o que nós acreditamos. Não temos nenhum problema em fazer uma luta comum.

Por que esse canal de diálogo foi fechado com o Ciro e não com o senhor 100%?

A pergunta deve ser melhor respondida pelo Haddad. Eles fazem isso para querer atribuir ao Ciro uma personalidade difícil e eventualmente outra que é mais fácil. O Haddad, o que ele disse que conversou comigo é um telefonema em que ele diz assim, chegou um recado: “você está em Brasília hoje?” E eu disse: “estou”. Ele: “podemos conversar no final da tarde?” [Cid respondeu] “Claro, às suas ordens, quando você quiser” [Haddad] “18 horas está bom para você?” [Cid] “18 horas está ótimo”. Quando chegou 18h15 ele disse: “tive que viajar, a gente conversa outro dia”. Desse jeitinho que estou lhe dizendo, sem tirar nem por nada. Eu cumprimentei agora, 500 dias do Lula, eu fui sair para fumar e vinha Gleisi Hoffmann e eu pensei… Nada! Gleisi me deu um beijo, tudo bem? Ideli [Salvatti, ex-ministra de Dilma Rousseff] me abraçou, não deu nenhum problema, não. Se perguntar se tem alguma queixa do PT, eu tenho uma, o PT me colocou em uma condição de estar envergonhado de dizer que sou de esquerda. O PT passou a ideia, noção de que esquerda é corrupta. Estou falando isso, mas é página virada, me dou muito bem, afino muito bem, acho que é um cara de futuro esse menino lá o Rogério, senador de Sergipe [pelo PT]. Ponderado, comprometido com teses progressistas, de diálogo, que vem de outra escola.

O Bolsonaro pode unir a oposição?

Acho que um grande erro na política brasileira é você se unir contra alguma coisa. Isso dá no Bolsonaro. Se unir contra e não em favor de alguma coisa, acho que o Brasil tem que se reunir em torno de um projeto, não de pessoas. Projeto claro, discutir em torno de uma posição e se reunir em torno de um projeto. Se na nova [eleição], ficar de novo, ressentimento contra a velha política, contra o PT, contra os partidos tradicionais e vai entrar o nosso amigo Luciano Huck. Luciano acho que é muito melhor que o Bolsonaro, mas as coisa não são assim, se não tiver um projeto claro, experiência, vivência, traquejo, vai dar nessas maluquices aí. Estamos falando de um país complicado, cheio de conflitos, contrastes, tem que ter alguém com uma visão mais ampla, disposto ao diálogo, que procure fazer tudo diferente do que o Bolsonaro está fazendo. Qualquer pessoa que chegue ao governo, o razoável é ter que serenar, a campanha já passou, vamos ver aqui o que o Brasil precisa, vamos prestar um pacto em torno de alguma coisa, pelo menos alguma coisa não é possível que a gente não consiga reunir e conclamar as pessoas a isso. Não ficar enxotando, brigando, agredindo e fazendo das bandeiras de negação que foram as bandeiras que o elegeu, um projeto de governo. Bandeira de negação, tudo bem, sou contra que aquele artista pegue dinheiro para se locupletar e no lugar disso o que coloco? Vou fazer com que a Ancine, estou falando de uma coisa mais periférica, embora a cultura seja absurdamente importante e cinema seja expressão cultural, absurdamente importante, que é mercado, emprego, fazer disso um item de importação, de geração de renda. Vou botar para a Casa Civil, o que estou sinalizando com isso? Um político medíocre, mesquinho, Onyx, até de nome mudou, era Ônyx, virou Onyx, para cuidar de cinema? O que tem a ver? Ele faz da negação e não coloca nada no lugar ou o que faz de mudança é mesquinharia, não tem projeto. Por que não faz um puta conselho para tratar disso? Um conselho livre, que não vai ser só os odientos, os bolsominions, só o serviçal babaca dele, esse Onyx. Eu sinceramente não consigo enxergar perspectiva de nada que se preste desse governo. Isso tem um lado bom, quem está fora do governo vai começar a se preocupar com o Brasil. Vamos fazer as coisas, o Senado, a Câmara, o Poder Judiciário, Ministério Público, os governos de estado, prefeituras. Vamos ver se a gente se vira, esquece, reduz a expectativas de governo federal e vamos tocar o Brasil sem essa maluquice.

Acha que é melhor um protagonismo do Legislativo?

É o jeito. O Brasil tem uma tradição centralizadora. Vamos fazer uma reforma tributária que destine mais recursos para estados e municípios. Vamos procurar fazer com que o Parlamento tenha mais participação em uma série de decisões no respeito a vida nacional. Escapar desse governo, escapar dessa maluquice.

Como está essa articulação com os senadores? Houve uma reunião em abril bem ampla na residência do senador Rogério Carvalho, do PT, com Tasso, do PSDB, o senhor e outros participantes.

Esse sentimento é um sentimento comum. Não estou falando só do que eu penso, acho que é um sentimento comum de que a gente precisa tocar as coisas de interesse nacional a revelia ou independente do governo federal. Graças a Deus a gente tem meios. Tudo bem, lei ele pode vetar, mas a palavra final ainda será do Parlamento, do Congresso que pode derrubar veto. Tem outras coisas, tem Emenda à Constituição que nem passa, nem entra, o Executivo nem é parte. Vamos tocando.

Essa é umas legislaturas do Senado das mais renovadas, incluindo o presidente do Senado.

Sobre renovação, é relativa, não estou nem criticando, nem elogiando. Estou só dizendo que deve ser relativizado quando se fala em renovação. Eu fiz essa conta, não sei se vou ter de cabeça. Das 54 vagas que foram disputadas, 48 são novos se não me engano, não eram senadores. Mas se for ver, desses 48, 40 ou mais já tinham exercido outro mandato, portanto tinham experiência da vida pública. Tem ex-governadores, ex-deputados federais, ex-senadores. Renovação de oito está em um razoável e é significativa. É bom haja essa renovação porque areja.

Isso está se refletindo no Senado?

Acho que sim. Leila [Barros, do PSB-DF], Contarato [da Rede-ES] e Girão [do Podemos-CE] têm sido atuantes. A princípio, com certeza cometendo alguma injustiça, mas destacaria três atuantes senadores que estão em primeiro mandato e coincidentemente, fiz de propósito a escolha, nenhum dos três tinha exercido nenhum cargo público antes. Eletivo, Leila já tinha sido secretária de Esportes [do ex-governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB)].

E o presidente Davi Alcolumbre?

Davi para mim tem sido uma grata surpresa. Não tenho porque não dizer isso hoje. Quando eu cheguei aqui a minha preocupação é que por ligações que me falavam entre ele e o ministro da Casa Civil, tinha medo que transformasse isso aqui em puxadinho da Casa Civil. Mas ele só tem surpreendido, é um cara novo, está no primeiro mandato, experiência dele anterior é de um mandato de vereador. Ele tem tido a humildade, que é coisa que falta a Bolsonaro, de compartilhar, ouvir, de reconhecer a importância de ouvir outras vozes.

A legislatura começou com muita confusão na eleição entre ele e Renan Calheiros. Mas depois parece que o clima serenou.

Teve até um voto a mais. O grosso daqui é gente com experiência, o regimento da casa ajuda, a tradição da casa de não haver disputas orais ajuda. Quando cheguei aqui pegava esse horário antes da deliberação quando fica um cara falando e pedia a parte. Depois falavam: “Cid não é tradição pedir a parte aqui não”. É um monólogo, então fica mais fácil.

Voltando na questão do Bolsonaro, o senhor falou sobre a questão de se unir contra.

Se você é contra alguma coisa, tem que colocar algo no lugar. É importante que a gente saiba antes o que vai para o lugar. Se unir pelo contra não quer dizer nada, você pode botar algo pior no lugar.

Mas como enfrentar isso?

A democracia é o único caminho e está aí para isso e é um processo de amadurecimento. Infelizmente gente sofre, perde o emprego, continua desempregado, perde oportunidades, o país perde oportunidades, mas não tem outro método. Não dá para você ficar esperando uma luz superior que vai colocar uma solução para os nossos problemas. É o processo democrático, a pessoa que apanhou e se decepcionou com o Bolsonaro deve refletir na próxima vez sobre isso. "Eu votei no Bolsonaro porque ele é contra aquilo e aquilo outro". É importante que as pessoas percebam mais do que votar contra é votar com projeto. Isso é exercício,participar mais, acreditar mais, não achar que política é uma coisa feia, nojenta, cheia de gente imunda, suja e vou me afastar disso, não é o melhor método.

As pesquisas apontam um país muito dividido e quase um terço do eleitorado fiel ao Bolsonaro.

Isso é um retrato, pesquisa é retrato desse momento. Essa situação pelo que me consta nunca nenhum presidente teve, com oito meses incompletos de mandato já ter um terço da população, que está crescente, um terço que vai encaminhando para 40%. Com oito meses, um ano incompleto de governo, no que vai dar isso?

O senhor acredita que o governo não termina?

Eu torço para que termine porque democracia pressupõe mandato, voto, ele teve os votos e tem o mandato. Mas o que acho que nós outros temos que fazer e na medida naturalmente que essa insatisfação popular vá aumentando, é cuidar de reduzir danos, fazer um trabalho de redução de danos. Ele faz as doidices e a gente procura corrigir, fazer uma reforma tributária que vá dar mais competências, recursos para municípios e estados, onde as pessoas podem atuar mais próxima. E por aí vai, conferir mais competências ao Parlamento, ao Judiciário para que a gente vá contendo danos das porralouquices que ele faz. É uma atrás da outra, todo dia é uma. Sei que é uma tarefa difícil porque o processo legislativo demanda um pouquinho de tempo e ele tem todo dia uma.

Acha que a crise na Amazônia pode ter efeitos na economia?

Claro que ele faz para mexer com o sentimento nacionalista que nós temos e temos que ter mesmo.Realmente não é para ninguém de fora publicamente querendo dar lição para gente de forma nenhuma. Há uma parte que tem razoabilidade, mas você tem formas de registrar de forma diplomática. Estou falando estanque a questão Macron. O que ele dá a perceber e o que ele acena ao longo da vida  para o descuido e falta de responsabilidade com o meio ambiente é o fator motivador para o que está acontecendo. Está ficando cada vez mais claro que houve uma articulação com publicações na internet conclamando ao Dia do Fogo. Essas pessoas sempre existiram, pessoas que querem atear fogo, incorporar terras já desmatadas ao seu patrimônio, etc, etc, mas as pessoas se sentem incentivados, estimuladas pelo comportamento maluco e tresloucado dele. Muita gente já começa a perceber que esse comportamento tresloucado dele além de incentivar gente inconsequente e irresponsável como boa parte agiu, conclamando a um Dia do Fogo, começam os setores produtivos a perceber que isso é um arranhão forte e terá consequências comerciais. Muita gente de fora usa até como desculpa. Pode ter certeza que nos Estados Unidos tem plantador de laranja brigando para os Estados Unidos não comprar laranja do Brasil, comprar deles e tudo isso vira argumento. A forma moderna entre aspas hoje de fazer bloqueio comercial, fora a maluquice do Trump, que ele se inspira, é você botar uma coisa charmosa, vou deixar de comprar nesse país porque ele não está cuidando do meio ambiente. É um argumento pura e simplesmente charmoso para proteger seus mercados. Os grupos dos produtores razoáveis daqui já perceberam isso e estão preocupados.

Surgiu um grupo chamado Muda Senado que é contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. O que acha dessa movimentação?

Com todo respeito aos meus colegas, eu acho que a gente tem coisa mais séria e importante para se preocupar ou de outra forma agir mais eficientemente. Hoje tem aí um projeto que acho muito razoável, medida provisória de um presidente da República tem validade, uma liminar de um ministro do Supremo não tem validade. Isso trás lucros e prejuízos e pode ser prejuízo do que tem o melhor Direito. Estabelecer um prazo para isso, liminar, prazo para que seja levado ao colegiado. A gente tem que agir com inteligência, isso é jogo para a plateia. CPI [da Lava Toga] acho até uma coisa razoável, assinei e assinaria, acho que nenhum Poder está isento de fiscalização, o que faz a democracia é isso, um fiscalizar o outro. Independente da boa vontade e de um preconceito para o bem e para o mal. Ali só tem gente boa e ninguém erra ou ali só tem gente má e todo mundo erra, as duas visões estão equivocadas e o que dá equilíbrio é um fiscalizar o outro. O Parlamento tem essa prerrogativa. Ninguém pode fiscalizar o Judiciário? Por que não? Qual o problema? O Judiciário pode cometer abuso de autoridade? O Ministério Público pode cometer abuso de autoridade? A Polícia pode cometer abuso de autoridade? É razoável isso? Acho que não, tem que ter uma lei para conter isso.

Como está sentindo as conversas no Senado sobre a aprovação de Eduardo Bolsonaro? Seu clima é para aprovação ou rejeição?

O parecer da comissão não é nem indicativo de voto, já fui parlamentar no Ceará, na Assembleia, se a comissão dá um parecer favorável, você passa a votar o parecer e não o fato em si. Aqui não, parecer da comissão é contra, portanto não, na Assembleia você ia votar sim ao não, aqui não vale nada. Tanto faz o parecer ser favorável a indicação dele, o voto no Plenário é sim ou não segundo a indicação dele. O parecer da comissão é uma mera antecipação e com grandes possibilidades de ser viciada. É natural que vão trabalhar lá porque pode ter um efeito psicológico no Plenário.

Mas o senhor é contrário se chegar ao Plenário?

Eu sou não pelo fato dele ser filho, não pelo fato de ele não ser do Itamaraty, eu sou contrário pelo fato de ele não ter os requisitos mínimos de competência, vivência, experiência no trato com essas coisas. Se fosse, com todo respeito, para começar, o menino quer, o menino gosta, quer fazer uma experiência? Põe aí , não vou dizer nenhum país, não, mas põe aí em um país de menor população. O menino gosta, tem vocação? Mas os Estados Unidos, o atributo que ele tem é falar inglês e a gente vê que não é lá essas coisas e ter fritado hambúrguer, ainda errou o lugar, no lugar onde ele trabalhou não tem hambúrguer [Popeye's, especializada em frango empanado]. A experiência que ele tem é fritar hambúrguer em um lugar que não vende hambúrguer, estava fazendo comida para ele mesmo, imagino que seja verdade, sempre no esforço de acreditar que seja verdade.

Guardadas as devidas proporções, mas o senhor nomeou o seu irmão Ciro Gomes para ser seu secretário de Saúde no governo do Ceará.

O Ivo [Gomes, prefeito de Sobral e irmão de Cid e Ciro] foi meu chefe de gabinete e eu ganhei uma ação no Supremo.O que é nepotismo? Pelo menos o que se quer combater, tenho certeza que o se quer combater não é alguém ter o mesmo sangue, você quer combater abusos, fazer do serviço público um cabide de empregos para seus familiares e sim, quando faz isso exageradamente e pior, com gente sem competência. O menino, se esse é bom vai ser médico, aquele ali é talentoso vai ser advogado, esse aqui não dá para nada, vai para o serviço público. Eu sempre fui contra essa tese e é isso que deve ser combatida. Qualquer função de chefe de gabinete, função de intimidade, zero problema ser um parente, é coisa de intimidade, de afinamento que a convivência familiar dá. Uma embaixada nos Estados Unidos é uma coisa muito sofisticada.

O presidente também está ouvindo Flávio Bolsonaro para escolher o comando da PGR.

Não vou falar sobre hipótese, será que está mesmo? A rigor estou falando do filho [Eduardo] porque ele já falou que vai encaminhar, assuntou os Estados Unidos, por isso que estou falando. Eu acho o menino aqui [Flávio], deles na minha impressão o mais ponderado. É um cara discreto, não é arrogante. Essa função é delicada. Eu por exemplo, não gosto, não é da minha índole ser agressivo demais, mas tem horas que esse governo você perde a paciência de procurar um adjetivo menos agudo, mas eu fico envergonhado, envergonhado não, incomodado de fazer na frente dele.

A oposição está conseguindo passar sua mensagem para sociedade?

Para quem acompanha o cotidiano, está vendo que o Senado e a Câmara tem tido uma postura de independência. Até mais o Senado tem tido uma postura de independência.

Ciro é candidato de novo a presidente?

Uma candidatura acontece a sete, seis meses da eleição e pressupõe uma série de condições, a primeira delas é ter um partido e uma série de outras coisas. O Ciro está disposto a continuar na vida pública e o partido deseja que ele vá atuando para se colocar como alternativa do partido, sim, há uma deliberação formal do partido nesse sentido. Anda como um camelo, fico impressionado com a disposição física do Ciro. Não dá muita notícia, mas quinta-feira (22) ele estava de manhã em Esteio, no Rio Grande do Sul, à noite em Gramado, dia seguinte em São Paulo em uma entrevista, na tarde no Rio em uma inauguração cultural do PDT, no dia seguinte em Belo Horizonte, no outro dia em outra cidade do interior de Minas. Ele tem andado muito e no meio universitário fazem fila, os meninos batem foto.

O PT não está muito refém do Lula Livre?

É compreensível, o Lula é muito maior do que o PT. Você quer sempre se ancorar no que é maior. O PT não é nosso inimigo, queremos nos colocar como alternativa progressista que não irá cometer os mesmos equívocos e erros graves que o PT cometeu, só isso. O PT pode ser aliado? Pode, pode ser antes e pode ser depois. Quem dita a forma é quem lidera . Sob a liderança hegemônica nossa, nossa eu digo do Ciro, procurou à época [eleição presidencial de 2018] o DEM e esteve na época a um minuto de aliança com Ciro.

Dentro do DEM, Rodrigo Maia era mais a favor de aliança com Ciro?

Lembro bem disso, uma quarta-feira, 5h30, recebi recado de um presidente de partido, não vou citar nomes para não comprometer ninguém, dizendo que estava certo. O partido dele, um outro partido, um terceiro partido, um quarto partido e ia atrás do quinto partido. Quando foi 15h, acertaram [DEM, PP, Republicanos, Solidariedade e PL] com o Alckmin. Em Brasília literalmente o que se diz de manhã não serve para de tarde, foi um choque de realidade que eu tive.

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