“Errou grotescamente”: indicação ao STF irrita evangélicos e bolsonaristas

Horas depois de anunciar em uma live que indicaria o desembargador Kassio Nunes Marques para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), o nome do desembargador já foi enviado para apreciação do Senado Federal. Agora, caberá à casa legislativa definir como se dará o processo de sabatina do candidato a sucessor do ministro Celso de Mello, cuja aposentadoria foi confirmada, também no Diário Oficial, a partir do dia 13 de outubro.

No círculo de apoiadores e ex-apoiadores bolsonaristas, o nome foi visto com ressalvas e mesmo críticas. A expectativa de que o nome indicado atendesse a critérios como "conservadorismo"e "valores cristãos" não parece ter sido satisfeita com o nome de Kassio, na visão de deputados e influenciadores da direita.

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, foi às redes sociais na noite desta quinta-feira para se manifestar ao nome indicado por Bolsonaro à vaga. "Simples assim, se o PR @jairbolsonaro não indicar alguém ao STF comprometido com o combate à corrupção ou com a execução da condenação criminal em segunda instância, todos já saberão a sua verdadeira natureza (muitos já sabem)", escreveu o ministro, sem no entanto indicar sua opinião sobre Kassio Marques.

Moro, que era cotado como um dos favoritos à vaga até sua saída ruidosa do governo em abril, acabou apagando a mensagem horas depois.

Em um vídeo publicado na tarde de ontem, o pastor Silas Malafaia reagiu com veemência ao nome de Kassio Nunes Marques ao STF. "O presidente não teria necessidade de colocar um 'terrivelmente evangélico'", reconheceu o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, "mas um 'terrivelmente de direita', sim". O líder evangélico disse que a indicação atende "o Centrão, o PT, a Esquerda, corruptos, quem é contra a Lava Jato"– e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), citado nominalmente por Malafaia.

Por fim, Malafaia definiu-se como "indignado pelo grave erro" cometido pelo presidente na nomeação do juiz, que chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) por indicação da então presidente Dilma Rousseff. O pastor fluminense ressaltou a importância de Bolsonaro promover uma escolha como a norte-americana – onde, na última sexta-feira (25), Donald Trump escolheu a juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett para a vaga da ministra Ruth Bader Ginsburg, morta há duas semanas.

A indignação de Malafaia ficou clara no Twitter: após subir o vídeo com as críticas, Malafaia repetiu a mensagem 11 vezes em nove horas.

O deputado Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), que já havia criticado a escolha quando esta ainda não passava de rumor, voltou à carga novamente. Segundo o parlamentar, Bolsonaro "errou grotescamente" na direção do navio.

"Confirmada essa indicação para o STF, significa que a oportunidade histórica passou", escreveu o parlamentar paranaense, em outra mensagem. "Resta apenas o "choque de gestão'."

Outros nomes conhecidos na base de apoio Bolsonarista também apontaram desgosto com a indicação de Kassio Nunes Marques. O empresário Winston Ling, conhecido por ser um dos mais antigos apoiadores bolsonaristas, disse esperar que o presidente reveja sua indicação. "O presidente é famoso por mudar de ideia... não perco as esperanças. Precisamos fazer pressão", escreveu em seu Twitter.

O Movimento Vem pra Rua acusou Bolsonaro de ser "petista", uma vez que haveria nomes ligados ao partido no Ministério da Justiça, na Procuradoria-Geral da República e agora no STF. A entidade organizou parte das manifestações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, e manteve uma agenda pró-bolsonarismo até a saída de Sergio Moro do governo.

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