“Nem que fique na cadeia muito tempo” Lula perde protagonismo no PT, diz Humberto Costa

Preso há quase um ano na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanece como a aposta do PT para retomar seu papel como principal liderança da esquerda no país.

Em entrevista ao Congresso em Foco, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), afirmou que o ex-presidente não vai perder o protagonismo dentro do partido "nem que fique na cadeia muito tempo".

"No momento que a desintegração [do governo Bolsonaro] vai se aprofundando, não tenho dúvidas que ele [Lula] já é a principal liderança política do Brasil. E num momento em que a crise aprofunda, acho que ele vai ganhar uma dimensão ainda maior".

Na conversa, Humberto disse que o partido vai procurar fazer uma oposição explicada, apontando à população os motivos de discordâncias. A proposta de emenda à Constituição (PEC) da reforma da Previdência, enviada pelo governo ao Congresso no dia 20 de fevereiro, será um dos pontos a serem atacados pelo PT.

Otimista, o senador acredita que os problemas enfrentados desde já pelo grupo político do presidente podem ajudar a oposição em seu projeto de enfrentamento. "O governo Bolsonaro tem uma característica muito peculiar: ele meio que faz oposição a si próprio. Se o PT souber trabalhar, o grande beneficiário do governo Bolsonaro tende a ser o PT".

Confira os principais trechos da entrevista:

Congresso em Foco: A eleição do Davi Alcolumbre foi bastante tensa e fora dos protocolos do Senado. Como o senhor viu isso?

Humberto Costa: Acho que foi coisa um tanto atípica. Apesar de o presidente eleito se colocar como integrante da base do governo, mas existe uma articulação nesse caso... O governo não foi determinante nesse caso para a vitória dele né. Acho que foi mais uma vez uma vitória da negação da política, foi muito mais um não a Renan, do que um sim a Davi Alcolumbre. A verdade é que isso foi ruim, porque ele não era integrante do MDB, o maior partido [maior bancada do Senado, com 13 senadores], nós quebramos uma tradição que é a do respeito à proporcionalidade, tanto para a eleição da Mesa, quanto para as comissões. O resultado é que a ocupação dos espaços aqui no Senado não obedece ao peso que cada partido teve na eleição e sim os acordos que foram feitos para viabilizar a vitória do Davi. O que esperamos é que ele torne o mandato dele uma ação de afirmação da autonomia, da independência do Legislativo, que hoje é uma coisa que nós carecemos de ter.

Congresso em Foco: Os senhores vinham fazendo oposição ao governo Michel Temer, claro, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Mas decidiram apoiar o Renan Calheiros na eleição aqui da Casa, mesmo ele sendo do MDB. Foi por conta da proporcionalidade?

Humberto Costa: Não só, também por isso. Mas porque entendemos que ele como presidente do Senado, nas vezes em que ocupou a cadeira, sempre teve uma postura muito firme de afirmar a independência do Congresso. Nós tínhamos saído agora há pouco de quatro anos de Executivo fraco, de Judiciário se arvorando a ocupar o papel de outros poderes, inclusive do Legislativo, e um Legislativo que ficou muito fragilizado por conta da própria Lava Jato. A gente entendeu que era o momento de ter à frente do Congresso uma postura, uma posição e pessoas que representassem exatamente uma afirmação do Legislativo. E o Renan representava isso. Representou inclusive contra o nosso governo também. Foi uma decisão muito mais institucional.

Congresso em Foco: Qual vai ser o papel do PT, não apenas nessa presidência do Davi Alcolumbre, mas no governo Jair Bolsonaro?

Humberto Costa: A população brasileira nos colocou no campo da oposição. Logicamente que uma oposição que vai, a cada momento, procurar explicar porque fazemos oposição, porque estamos na oposição, porque as ações que o governo tem tomado, e vai tomar, são danosas para a população brasileira. E como o perfil desse Congresso é de muita fragmentação, de uma certa coesão ideológica de alguns segmentos, mas de uma coesão política muito frágil, acho que a gente tem condição de ter muitos bons resultados aqui. Se você for olhar, a julgar pelos primeiros votos, pelas manifestações, pelos posicionamentos, acho que o Bolsonaro vai ter muito problema aqui [no Senado] e lá na Câmara. Inclusive, boa parte desse pessoal que veio, veio eleito pela rede social, estava muito em cima do senso comum. E o senso comum para quem governa nunca é uma boa ajuda.

Congresso em Foco: O PT vai usar a PEC da reforma da Previdência, que já é alvo de muitas críticas, como primeira grande bandeira para atacar o governo Bolsonaro?

Humberto Costa: O governo Bolsonaro tem uma característica muito peculiar: ele faz oposição a si próprio. A reforma da Previdência é um exemplo claro disso ai. Se a proposta de reforma é essa, é de uma truculência, de uma visão profundamente antipopular. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que ela vai produzir um agravamento da pobreza e da desigualdade. Se tudo o que tem de ruim ali é 'bode na sala', mesmo que eles tirem tudo isso, já tem uma toxicidade que não vai construir uma visão boa, ninguém vai querer essa visão. A forma como foi feita, escaramuças, os balões de ensaio... Essa coisa do governo que vai e volta... Não vejo clima muito favorável para que essa reforma seja aprovada, mesmo que eles tirem muita coisa de ruim que está ali. E se eles não tirarem, o Congresso vai tirar. Vamos mostrar isso. E vamos também mostrar onde está o X da questão. Não é no regime geral da Previdência, o problemas está principalmente na previdência do setor público, na dívida dos estados, de renúncia de receitas, de arrecadação, o governo tem feito permanentemente, os refis, a sonegação. Vamos apresentar uma proposta, não para competir com a reforma, mas com outra lógica.

Congresso em Foco: Então o senhor a acha que a reforma não deveria ser a prioridade, mas outras questões?

Humberto Costa: Sim. Acho que nesse momento, o Brasil tem que discutir principalmente como retomar de forma consistente o crescimento econômico. Com isso você vai gerar empregos, vai gerar movimentação econômica na sociedade, vai gerar formalização do emprego, aumento das contribuições sociais e consequentemente redução do déficit da previdência. Precisamos fazer uma reforma tributária. A pauta que o governo está colocando, não é que não precise mexer. Precisa. Mas isoladamente, da forma como eles querem fazer passar, que a reforma da Previdência é a panaceia para resolver tudo. Somos contra isso.

Congresso em Foco: O PT saiu muito abalado da eleição. Como vocês estão tentando mudar essa visão que a população ficou do PT, especialmente após a prisão do ex-presidente Lula?

Humberto Costa: Não acho que o PT tenha saído tão abalado. Primeiro o PT conseguiu chegar ao segundo turno. Conseguiu 47 milhões de votos. Elegeu a maior bancada da Câmara [54]. Elegeu um número de governadores que é pequeno [4], mas foi o maior, equiparou-se ao PSDB. Teve uma perda expressiva aqui no Senado [6], realmente. Não foi tão ruim. Por outro lado, acho que se o PT souber trabalhar, o grande beneficiário do governo Bolsonaro tende a ser o PT. Nós temos uma vantagem, que nós produzimos ao longo da campanha um programa de governo consistente. Inclusive nós vamos trabalhar em torno desse programa de governo. Não é a gente usar a reforma da previdência para fazer oposição e apresentar uma proposta. É trabalhar a nossa proposta. Acho que se o PT souber fazer oposição, fazer uma oposição que busca dialogar com uma parcela do eleitorado que já esteve com o PT por mais de uma vez, que votou com Bolsonaro por razão X, Y, Z, se souber multiplicar cada passo que a gente der e cada um dos passos que eles derem, acho que o PT tem muita condição, junto com outro partidos, de representarem uma oposição importante, para impedir a implementação desse projeto de Bolsonaro na política, na economia, na sociedade.

Congresso em Foco: Como trazer esses antigos eleitores petistas que deixaram de votar no partido para votar em Bolsonaro?

Humberto Costa: Se o PT souber fazer da forma correta esse diálogo com a sociedade, se fizer inclusive um comparativo dos resultados de duas visões diferentes de governar, a que a gente teve, mesmo com Dilma, e com Lula, e a que está enfrentando agora, a gente tem condições de reconquistar esses espaços, ou pelo menos das pessoas nos ouvirem. Hoje no Brasil você tem uma polarização... Está diminuindo, porque o governo é tão ruim... Mas as pessoas não querem ouvir umas às outras. Tem uma perspectiva boa para o PT.

Congresso em Foco: O PT começou a trabalhar um novo formato de falar com esse eleitor?

Humberto Costa: Estamos ainda distante de como a direita está atuando, não só no Brasil, mas internacionalmente, mas estamos fazendo um esforço para adequar a forma ao conteúdo da nossa política. Estamos querendo investir nas redes sociais também. Estamos tentando fazer mobilização na militância. Vamos organizar Brasil a fora importantes debates sobre essas reformas do governo e apresentar nosso programa alternativo.

Congresso em Foco: E Lula? Ainda será a cara do partido? Ou o partido vai apostar em novas lideranças?

Humberto Costa: Se o PT pode ser um grande contraponto a esse governo, um depositário da população a esse governo, com Lula eu não digo que pode, é que ele será sem dúvidas. O processo todo que Lula está vivendo, a injustiça que ele está passando, a prisão e a condenação sem provas, o impedimento de ele ser candidato, tudo isso só traz ele de volta para o cenário. Pode não ser agora. Mas no momento que a desintegração vai se aprofundando, não tenho dúvidas que ele já é, não deixou de ser a principal liderança política do Brasil. E não foi por acaso que os caras impediram ele de ser candidato. Então Lula, acho que ele continua a desemprenhar um papel central. Mas, num momento em que a crise aprofunda, acho que ele vai ganhar uma dimensão ainda maior.

Congresso em Foco: Então o ex-presidente continua como uma figura central não apenas no PT, mas na política?

Humberto Costa: E diria que não apenas do ponto de vista nacional, mas do ponto de vista internacional. Todos os contatos que tenho tido oportunidade de fazer hoje com o pessoal da centro esquerda, social-democracia, outros segmentos, ele continua a ser uma importante referência para o Brasil. As pessoas não conseguem entender porque, num espaço de tempo tão curto, o Brasil saiu de uma posição de ser um protagonista tão importante, para não representar nada, como é hoje.

Congresso em Foco: O PT, então, segue apostando em Lula?

Humberto Costa: Sim. Não sei se isso significa discutir a próxima eleição com Lula. Isso é outra discussão. Mas ele como a principal liderança, como um grande puxador no enfrentamento a esse governo, sem dúvidas. E não vai perder esse protagonismo tão cedo, nem que fique na cadeia muito tempo.

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