Aras retoma delação de Tacla Duran e lavajatistas veem perseguição a Moro

O procurador-geral da República, Augusto Aras, retomou a negociação de um acordo de delação premiada com Rodrigo Tacla Duran. Apontado como o operador da Odebrecht no exterior, o advogado  teve sua delação rejeitada pela Lava Jato em 2016. A denúncia já foi investigada pela própria PGR e arquivada em 2018, já que a prática de crimes não foi comprovada.

Duran é um conhecido desafeto do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro. Na época em que teve a colaboração negada pela Operação, acusou o advogado Carlos Zucolotto, amigo do então juiz Moro, de ter recebido US$ 5 milhões para auxiliá-lo na obtenção de vantagens no acordo de delação.

Na quarta-feira (3), o ex-ministro se manifestou por meio de nota e afirmou que os relatos de Duran sobre a suposta extorsão que teria sofrido já foram arquivados. E que, na ocasião, o relato “não verdadeiro prestado por acusado foragido do país teve o destino apropriado: o arquivamento”.

“Como sempre frisei, ninguém está acima da lei, por tal razão, disponho-me a prestar qualquer esclarecimento que se vislumbre necessário sobre os fatos acima. Contudo, causa-me perplexidade e indignação que tal investigação, baseada em relato inverídico de suposto lavador profissional de dinheiro, e que já havia sido arquivada em 2018, tenha sido retomada e a ela dado seguimento pela atual gestão da Procuradoria-Geral da República logo após a minha saída, em 22/04/2020, do Governo do Presidente Jair Bolsonaro”, aponta.

Carlos Fernando dos Santos Lima, ex-procurador da Lava Jato

Para Carlos Fernando dos Santos Lima, procurador aposentado e antigo membro da Lava Jato em Curitiba, a reabertura do processo pode dar com os “burros n´água”, pois “Tacla Duran é um criminoso foragido, mentiroso contumaz. Já se manifestou milhares de vezes na imprensa e não há nada de novo”, diz. “Eu conheço muito bem como funcionam as colaborações e mentirosos logo você percebe”, completa.

Na manhã desta quinta-feira (4), a defesa de Rodrigo Tacla Duran se proncunciou por meio de nota e afirmou que uma decisão colegiada da Interpol mostra que o advogado “não é foragido, mas, ao contrário, vítima de uma implacável e obsessiva perseguição e abusos de autoridades comandada por um juiz parcial, o senhor Sergio Moro, o qual desprezou e desrespeitou os mais elementares princípios do Direito.”

Confira a nota na íntegra

Rodrigo Tacla Duran [Reprodução/TV Senado]
A defesa sugere que tal decisão serve de alerta ao Brasil sobre “os excessos, equívocos, a má́ qualidade das investigações a parcialidade e o abuso de autoridade praticados por alguns magistrados e procuradores responsáveis pela Lava Jato, entre os quais se encontra o senhor Deltan Dallagnol, os quais romperam os limites da ética e do Direito ao transformar esta importante investigação em instrumento de poder e disputa política”.

A nota também diz que Dallagnol “agiu de má fé e enganou a imprensa e a opinião pública brasileiras ao divulgar informação falsa sobre a denúncia encaminhada à Interpol por Rodrigo Tacla Duran. Na realidade, a Interpol decidiu depois de comprovar os atos gravíssimos praticados por criminosos travestidos de paladinos da Justiça, como o senhor Dallagnol, que abusou do cargo de procurador para mentir e difamar.”

Aparelhamento na PGR

Crítico da postura de Aras, Carlos Fernando reafirma sua preocupação sobre o “aparelhamento” da PGR com os interesses do Governo Federal, além de acreditar que Aras poderia utilizar a instituição para “perseguir” o ex-ministro. “Me preocupo com o que está acontecendo na PGR. A abertura de uma negociação desse tipo, se feita já com objetivo de atacar Moro, é preocupante”, adverte.

> Veja a íntegra do abaixo-assinado que questiona nomeação de Aras

Para Lima, é possível que haja um projeto em curso para tornar Moro inelegível. “O uso de instituições públicas com objetivo de afastar candidatos é inadmissível. Quer investigar, investigue. Mas isso tem de ser feito dentro das regras, agora se o objetivo é usar isso politicamente, aí nossa democracia está em perigo”, alerta.

Durante toda a operação Lava Jato e, posteriormente, com as revelações do site The Intercept Brasil na série Vaza Jato, a Força Tarefa também enfrentou críticas de  uso político das investigações.

Carlos Fernando diz não acreditar que Moro tenha pretensão de disputar eleições em curto prazo. “Hoje ele é uma figura política e deve atuar principalmente alertando a população do que está acontecendo de errado, seja na esquerda, seja na direita. E tem que participar de um grande movimento de centro para que o centro tenha candidatos viáveis e pode ser um deles Sergio Moro, mas não é o momento ainda de discutir candidaturas, mas sim, num grande movimento de centro democrático”, opina.

Subida no tom

Segundo fontes ouvidas pelo Congresso em Foco, ataques de bolsonaristas ao ex-ministro vêm crescendo desde seu desembarque do governo, em abril. As críticas, apontam, estariam extrapolando Moro e abarcando também o trabalho desenvolvido pela Lava Jato em Curitiba.

De acordo com Lima, o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril "demonstra claramente, não só a motivação na interferência na PF, mas que o lugar de Sérgio Moro não era lá, efetivamente". Para ele, o nível do debate é algo com o qual não estão acostumados. "É uma coisa que nem reunião de condomínio chega  ter um nível daqueles tão baixo", aponta. "Creio que a população percebeu o que estava acontecendo e a rejeição aos termos da reunião foi geral. Os únicos a quem agradou e  que ficaram deliciados com aquilo foram os próprios bolsonaristas, tão acostumados com este tipo de linguagem baixa e este tipo de pensamento extravagante do Bolsonaro", diz.

No sentido contrário aos ataques à Operação, surge um movimento que pretende proteger a força-tarefa e que defende que os ataques seriam parte de um acordo com parlamentares do centrão, alvos da Lava Jato.

Para Lima, no entanto, o centrão sempre teve uma postura crítica em relação à Lava Jato por serem alvos da Operação. “Nem ficaria muito preocupado com esse tipo de articulação”.

O que vê, diz, é uma movimentação “dessa tropa de choque deste Gabinete do Ódio, ligado aos bolsonaristas em relação ao Sérgio Moro. Existe uma série de fake news e opiniões bastante deturpadas na internet a respeito do que fizemos [força-tarefa], do que devíamos ter feito, do que não fizemos, de relacionamentos, repercussões e notícias antigas já tinham sido veiculados pelos petistas durante a operação. É mais do mês típico das redes sociais”, aponta.

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De acordo com o veterano da operação, após a saída de Moro do ministério, ele recebeu uma ligação, do que acredita ser de uma assessora parlamentar de um deputado do PSL alertando que manifestantes queimariam camisetas de Moro e de apoio à Operação em frente à sede da Justiça Federal em Curitiba.

“Sinceramente, eu dou risada deste tipo de atuação. Acho mais que se querem queimar a camiseta da República de Curitiba, eles podem, assim como é livre queimar até mesmo a bandeira do Brasil. Nós não tivemos nada a ver com a própria criação dessa ideia de República de Curitiba, também não tenho nada a ver com queima de camisetas. Eu a demovi da ideia de tentar confrontar esse tipo de situação porque não creio que confronto leve a lugar algum. A ideia é tão ridícula em si mesma que ela vai acabar não subsistindo e teria o efeito contrário. [...] Temos de parar com essas organizações de fãs clubes de políticos ou de procuradores, ou de quem quer que seja”, defende.

Nesta quarta-feira (3), a força-tarefa soltou uma nota sobre a reabertura da delação onde rechaçam a decisão de Aras e afirmam que não têm “conhecimento de que a Procuradoria-Geral tenha informações sobre as linhas de investigação e outros potenciais envolvidos nos crimes”.

Na nota, os membros da força-tarefa reiteram o compromisso de “atuação imparcial e independente e expressam renovada confiança de que questões políticas não conduzirão o trabalho ministerial em nenhuma instância nem minarão o apoio institucional aos trabalhos de combate à corrupção executados pelo Ministério Público Federal no caso Lava Jato, em favor da sociedade.”

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