O bolsonarismo mata. Literalmente

A ideia em um segundo
Há uma relação estatisticamente significativa entre a quantidade de votos que Bolsonaro recebeu no primeiro turno de 2018 e o número de mortes por covid-19. Calculamos o número de mortes influenciado pelo bolsonarismo manifestado nas urnas entre 46,3 mil e 69,6 mil.  Esta relação aponta para a responsabilidade pessoal do Presidente diante da pandemia. 

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Amazonas é um dos estados mais afetados pela pandemia
Altemar Alcântara/Secom Manaus

A responsabilidade do presidente

Há momentos na vida de um país em que responsabilidades precisam ser claramente apontadas. O Brasil vive há mais de um ano um desses momentos. Há mortes, mortes em demasia, mortes que segundo a ciência poderiam ter sido evitadas. 

De um lado isolamento social, uso de máscaras e higiene adequada, de outro a prescrição de remédios sem efeito, o incentivo a aglomerações, o descaso com a vacina. O grande antagonista da ciência e da solidariedade no Brasil é seu presidente, Jair Messias Bolsonaro. Seu exemplo é o mais chamativo, suas mensagens estimulam a inconsequência, seus atos apoiam a morte. 

Bolsonaro em um dos inúmeros atos em que provocou aglomeração durante a pandemia
Alan Santos/PR
Há um caminho lógico que parte da influência, passa pela responsabilidade e atinge a culpa. Nesta edição do Farol demonstramos com fatos que Bolsonaro e seu bolsonarismo influenciam sim a dinâmica da covid-19 no Brasil. Influência negativa, que aumenta o número de casos e mortes. Dessa influência decorre a responsabilidade, pois quem detém influência responde por seus atos. A culpa, a sentença pelo sofrimento e as perdas causadas pela covid-19 moralmente já estão definidas, cabem majoritariamente a Bolsonaro. Se tal culpa adquirirá natureza e efeitos jurídicos de condenação, só o futuro dirá. Contudo, a esperança cívica e humanitária anseia por ela. 

Mais bolsonarismo, mais mortes

O gráfico 1 apresenta o número de mortes por 100 mil habitantes em função da porcentagem de votos em Bolsonaro no primeiro turno das eleições 2018. Os dados são agregados por estado e a porcentagem considera os votos totais, incluídos brancos e nulos. 

Onde Bolsonaro obteve mais apoio, mais forte é sua mensagem e seu modo de pensar. O argumento analítico é de que Bolsonaro mais influencia as populações e o governo dos estados onde obteve mais votos no primeiro turno das eleições 2018. 

Desta forma, a leitura do gráfico é clara: onde há mais bolsonarismo (direita no eixo horizontal), há mais mortes (parte superior do eixo vertical). Detalhe importante, as mortes não são em número absoluto, mas sim relativo, medidas por grupo de 100 mil habitantes. Isto é, dado um grupo de pessoas do mesmo tamanho (no caso, 100 mil indivíduos), onde o bolsonarismo foi mais vitorioso em 2018 há mais mortes. Mais bolsonarismo, mais mortes. 

O segundo ponto importante em relação ao gráfico é a apresentação dos indicadores do IDHM Longevidade. O IDHM é um índice de qualidade de vida calculado pelas Nações Unidas, dividido em três componentes: renda, educação e longevidade. Medido entre zero e um, quanto maior o número, maior a qualidade de vida.

No gráfico demonstra-se também que nos estados onde o indicador de saúde/longevidade é superior, há mais mortes. Isto é importante para demonstrar que não se morre mais onde há menos capacidade de apoio hospitalar e piores níveis gerais de saúde, mas o contrário. Em outras palavras, o indicador de longevidade da ONU apresentado no gráfico desqualifica a ideia de que o bolsonarismo não tem relação com mortes, mas sim as condições de saúde gerais. Não é o caso: o bolsonarismo é a variável explicativa. 

Sobre a estatística

Permitindo-nos um parêntese técnico, a “regressão” (Mínimos Quadrados Ordinários) apresentada no Farol é uma metodológica clássica utilizada para verificar a existência de correlação entre fenômenos distintos e medir o seu nível. Por exemplo, avaliar se consumo de gordura tem relação com colesterol alto. Neste caso, avalia-se quanta gordura diferentes indivíduos consomem num período e qual seu nível de colesterol. Afere-se se ambos os fenômenos têm relação e qual sua intensidade. Por exemplo, checar se quem ingere X gramas a mais de gordura por semana tem uma determinada modificação Y no nível de colesterol no sangue. Aqui no Farol relacionamos o percentual de votos em Bolsonaro no primeiro turno e o índice de mortes por covid em 100 mil habitantes. Procuramos avaliar se há relação entre os dois fenômenos e qual sua intensidade. 

Grupo encena sofrimento de pacientes com covid-19 em Brasília, onde Bolsonaro teve uma de suas maiores votações
 Ricardo Stuckert
Os resultados, apresentados no Anexo Técnico (veja mais abaixo), provam que a relação entre bolsonarismo e mortes é estatisticamente forte. Mesmo se avaliamos (controlamos) os resultados considerando também o nível de saúde e longevidade da população, apresentado por variáveis como o IDHM Longevidade e a expectativa de vida ao nascer, os resultados permanecem robustos em favor da forte relação entre bolsonarismo e mortes. O voto em Bolsonaro é, nos dois cenários, claramente explicativo do número de mortes. 

Tanto o gráfico como a regressão discutidos demonstram que há correlação entre bolsonarismo e mortes. Estudos acadêmicos, contudo, são atentos em não confundir correlação com causalidade. A existência de correlação prova que dois fenômenos acontecem juntos, onde há um, há outro. Causalidade se refere a um fenômeno provocar, causar, outro. 

Se os dados comprovam que mais bolsonarismo e mais mortes ocorrem juntos, quais seriam as causas?

Por que o bolsonarismo mata?

Faixa erguida por estudantes em protesto contra o presidente na Avenida Paulista, em São Paulo
Roberto Parizotti/Fotos Públicas
Em primeiro lugar, pode-se questionar, ao reverso, se mais bolsonarismo levaria sim a menos mortes, mas alguma razão desconhecida gera o contrário visto nos gráficos. Isso faz sentido? Para o Farol, se comprovado que as condições de saúde da população medidas pelo IDHM Longevidade não têm relação com as mortes, não nos parece haver outra razão digna de consideração a descartar a relação entre mais bolsonarismo e mais mortes.

Assim, apresentamos três razões que podem ser o “caminho” pelo qual o Bolsonarismo produz uma perda de vidas maior. 

O primeiro elemento refere-se a uma questão política. Os estados em que o bolsonarismo teve mais sucesso em 2018 elegeram governadores mais alinhados ao presidente. Por consequência, mais alinhados a suas medidas anti-ciência, anti-solidariedade e anti-humanidade. 

O gráfico 2 demonstra que governadores de oposição concentram-se mais à esquerda do gráfico, em que há menor número de mortes. Governadores mais alinhados, como por exemplo os do PSL, encontram-se à direita e no alto, onde há mais mortes e mais votos em Bolsonaro. 

Uma segunda razão que relaciona bolsonarismo a mortes é a dificuldade de governadores e prefeitos implantarem medidas de isolamento social e boas práticas profiláticas onde há maior número de seguidores de Bolsonaro. Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal são bons exemplos dessa dificuldade. O gráfico 3 apresenta os estados pelo número de mortes por covid-19. 

Por fim, a terceira razão que une bolsonarismo a mortes refere-se à afinidade ideológica entre o presidente e a população que o apoiou. Prevalecem entre eles a descrença na ciência, o questionamento das autoridades e das elites, uma predileção por teorias da conspiração. Tudo isso gera um caldo cultural que incentiva o desrespeito às mensagens e aos comandos emanados da ciência e das autoridades sanitárias

Essa terceira razão dialoga com achados da Ciência Política que apontam para o fato de que a  polarização política está transbordando da esfera partidária para a esfera moral. As paixões políticas convertem-se em paixões morais. Essas, ao invés de induzirem um sentimento de honra, alimentam formas virulentas de insensatez, deixando as pessoas completamente alienadas da realidade em que estão situadas. Ou seja, tem-se uma paixão moral sem qualquer tipo de juízo moral. Essa paixão moral invoca quaisquer meios, por mais grotescos e imorais que sejam, para se justificar, alimentando o fanatismo. 

Use kit cloroquina, invada hospitais para mostrar que não existem doentes, faça buzinaço na frente de hospitais, aglomere, mantenha os templos abertos – todas atitudes que são apresentadas pelos seus protagonistas como juízos e tomadas de posição morais, quando, na verdade, escondem apenas sentimentos e subjetividades. São pessoas que precisam da estrutura de seu sistema de crenças para se estabilizarem. Nesse sistema de crenças elas encontram sua segurança e saúde mental e se confortam por finalmente serem capazes de compreender o mundo: as ilusões duram porque as ilusões são necessárias. São pessoas que conhecem a sua verdade e é essa verdade que as liberta

Quantas vidas o bolsonarismo custa

Até aqui demonstramos que o bolsonarismo, medido pela votação do presidente no primeiro turno de 2018, está inequivocamente relacionado a mais mortes por covid-19. Também apontamos possíveis razões relacionadas à ação das autoridades e das populações estaduais. 

Agora apresentamos, por meio de exercícios numéricos, o tamanho do bolsonarismo em número de mortes. 

Os exercícios de regressão citados anteriormente demonstram que 1% de votos a mais em Bolsonaro em 2018 leva a um aumento de 1,97 a 1,31 mortes por 100 mil habitantes (Cenários 1 e 2). O primeiro cenário apenas relaciona mortes e votos em Bolsonaro, enquanto o segundo também considera o IDHM Longevidade a expectativa de vida ao nascer. Da mesma forma, 1% a menos de votos levaria a uma redução de óbitos, também na ordem de 1,31 a 1,97 por 100 mil habitantes. 

Bahia, onde Bolsonaro teve apenas 21% dos votos em 2018, tem obtido números inferiores de casos e mortes por covid-19
Fernando Vivas/Gov. da Bahia
Como exemplos, a Bahia apresentou uma votação em Bolsonaro de 21% em 2018. Se houvesse votado em Bolsonaro como o Distrito Federal, com 55%, seu número de mortes por 100 mil habitantes seria bem superior ao que tem hoje. Isto é, a taxa de mortalidade de sua população seria aumentada. No caso de ter votado 55% em Bolsonaro como fez o DF, hoje a Bahia teria aumentado suas mortes totais em 10.016. Em relação ao total de mortes computadas em 6 de abril (dia da coleta dos dados), 15.918, haveria um aumento de 62,9%. 

Se São Paulo, com 48% de votos em Bolsonaro, houvesse votado como o DF, com 55%, haveria 6.393 mortes a mais, um aumento de 8,1% (São Paulo apresentou 78.554 mortes em 6 de abril). Pelo contrário, se SP houvesse votado em Bolsonaro nos mesmos níveis da Bahia, haveria 24.659 mortes a menos, uma diminuição de 31%. 

Se todos os estados brasileiros tivessem votado em Bolsonaro no nível de votação dos 10 estados que menos votaram no presidente – uma média de 25% - o número de mortes em 6 de abril último seria entre 46.312 e 69.645 menor, uma diminuição entre 14% e 21% do total nacional. Numericamente, este é um custo, em mortes, do bolsonarismo. 

A tabela 1 apresenta as variações em mortes nos dois cenários numéricos considerando que a UF tivesse apresentado 25% de votos em Bolsonaro no primeiro turno de 2018. No cenário “1” utiliza-se a taxa de 1,97 na variação de mortes por 100 mil habitantes, no “2”, 1,31. Como se vê, cinco estados teriam aumento de mortes, já os outros 22 apresentariam diminuição nos óbitos. 

Populismo e negacionismo: aqui como lá

Sem máscara, Trump resistiu a admitir a gravidade da pandemia nos EUA, país que lidera ranking de mortes por covid-19
Tia Dufour/Casa Branca
Muito se falou sobre as tentativas de Jair Bolsonaro de copiar o ex-presidente Donald Trump. Pelo menos na dimensão do covid-19, o mimetismo parece ter funcionado bem.  Reportagens publicadas na Time e na Associated Press mostram que aconteceu lá o mesmo fenômeno: locais onde Trump foi bem votado foram locais com piores resultados em termos dos efeitos da pandemia. 

A material da Time fala em um paradoxo: poder-se-ia esperar que, nos locais mais afetados, a população culpasse o dirigente máximo da nação por sua condução do combate à pandemia e, portanto, sua votação fosse menor. Mas, como já argumentamos e vamos concluir, é justamente o efeito positivo da liderança que gera os efeitos sanitários negativos.

Influência, responsabilidade e culpa

Os números apresentados são claros em provar que o bolsonarismo influencia o número de mortes por covid-19 para maior. Se há influência dessa forma de pensar e agir política e socialmente, então o presidente é responsável. Em quaisquer circunstâncias, um presidente da República é responsável pelo que acontece com o povo de seu país, tanto mais numa pandemia. 

Quando o presidente age para enfraquecer o isolamento social e diminuir a adesão a máscaras e métodos de higiene, ele consegue sim influenciar parte dos cidadãos e o resultado são mais mortes. Seu impacto mortífero é maior entre aqueles que o apoiam e pensam como ele. 

Se há influência e responsabilidade do presidente pelo maior número de mortes ocorridos no Brasil, a próxima pergunta lógica refere-se à sua culpa. Para muitos, não há dúvida de que o presidente é o grande responsável moral pelo número excessivo de mortes no país. Se tal culpa será admitida e reconhecida pelo Judiciário um dia, isso adentra no território da esperança e da justiça ideal. 

Termômetro

Geladeira

O presidente Jair Bolsonaro tem até o dia 22 para decidir o que fazer com o orçamento de 2021. Considerado peça de ficção por ter retirado cerca de R$ 30 bilhões destinados a gastos obrigatórios com a Previdência e outros auxílios a trabalhadores para contemplar emendas parlamentares, o projeto aprovado pelo Congresso emparedou Bolsonaro. O Ministério da Economia tem alertado o presidente de que ele poderá ser acusado de crime de responsabilidade, conduta passível de impeachment, se sancionar o texto na íntegra. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), aliado mais poderoso de Bolsonaro, já avisou ao Planalto que eventuais vetos poderão implicar a perda de apoio do Centrão na Casa.

Chapa quente

A CPI da Covid tem tirado o sono de Bolsonaro. Depois de ter uma vitória parcial, com a inclusão da possibilidade de investigação sobre o uso de repasses federais a estados e municípios, o presidente luta para impedir que a oposição domine a comissão. Dos 11 indicados para o colegiado, apenas quatro são governistas. Na política de contenção de danos, o Planalto flerta com algum nome de perfil independente para impedir que as investigações sejam conduzidas pela oposição. Na quarta-feira (14), enquanto o STF confirmava a instalação da CPI, a oposição ganhava um roteiro de investigação do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal, em denúncias contra o ex-ministro Eduardo Pazuello.

APÊNDICE TÉCNICO

Regressões: 
Cenário 1: 
Call: lm(formula = MORTALIDADE_100MIL ~ VOTOS_BOLSO, data = Covid_Bolson)
Residuals:
   Min     1Q Median     3Q    Max 
-47.92 -23.04  -0.41  23.68  50.24 
Coefficients:
                     Estimate Std. Error t value Pr(>|t|)    
(Intercept)             79.30      17.75   4.468 0.000161 ***
VOTOS_BOLSO   197.26      40.21   4.906 5.27e-05 ***
---
Signif. codes:  0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1
Residual standard error: 29.38 on 24 degrees of freedom
Multiple R-squared:  0.5007, Adjusted R-squared:  0.4799 
F-statistic: 24.07 on 1 and 24 DF,  p-value: 5.272e-05
Cenário 2: 
Call: lm(formula = MORTALIDADE_100MIL ~ VOTOS_BOLSO + IDHM_LONGEVIDADE + 
    EXPECTATIVA_VIDA, data = Covid_Bolson)
Residuals:
    Min      1Q  Median      3Q     Max 
-44.302 -18.927  -0.792  20.662  36.482 
Coefficients:
                                           Estimate Std. Error t value Pr(>|t|)  
(Intercept)                         46.449    183.230   0.253   0.8022  
VOTOS_BOLSO               131.181     52.628   2.493   0.0207 *
IDHM_LONGEVIDADE 1039.855    412.413  2.521   0.0194 *
EXPECTATIVA_VIDA       -10.434        4.147  -2.516   0.0197 *
---
Signif. codes:  0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1
Residual standard error: 26.74 on 22 degrees of freedom
Multiple R-squared:  0.621, Adjusted R-squared:  0.5693 
F-statistic: 12.01 on 3 and 22 DF,  p-value: 7.247e-05
Os dados do estado do Amazonas foram retirados dos cálculos de regressão por serem claramente outliers.
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O Farol Político é produzido pelos cientistas políticos e economistas André Sathler e Ricardo de João Braga e pelo jornalista Sylvio Costa. Edição: Edson Sardinha. Design: Vinícius Souza.
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