Infecção de Trump não deve mudar abordagem à covid-19, dizem especialistas

A campanha à presidência dos Estados Unidos, já considerada por analistas como uma das mais conturbadas da história, pouco deve mudar com o candidato à reeleição Donald Trump testando positivo para a covid-19.

A visão de especialistas ouvidos pelo Congresso em Foco dão conta de que a necessidade de isolamento pela qual o presidente poderá se submeter não deve fazer suas ideias sobre o coronavírus mudarem nesta altura da pandemia nem alterar sua forte estratégia digital, mas podem humanizar sua campanha. Sem que Trump mude sua maneira de ver a doença, é improvável que outros países como o Brasil também revejam suas estratégias.

O presidente norte-americano anunciou que testou positivo para o coronavírus na noite desta quinta-feira (1), horas após a sua secretária de imprensa também ter testado positivo para a covid. A primeira-dama, Melania Trump, também está contaminada, mas o vice-presidente Mike Pence, sua esposa e o candidato democrata Joe Biden testaram negativo nesta sexta-feira (2).

A confirmação ocorreu dois dias após o primeiro debate presidencial entre os candidatos, e 14 dias antes do segundo encontro, marcado para 14 de outubro em Miami, na Flórida.

O professor doutor de relações internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Carlos Gustavo Poggio, diz que a postura histórica de Trump indica que ele não deverá mudar seu comportamento depois de curado.

"Levando em consideração o que a gente conhece do Trump, isso não deve mudá-lo em nada. Dificilmente ele sairá dele e dirá 'mudei de ideia, é grave, e usem máscara'", explicou o professor, para quem uma mudança tão brusca poderia estar atrelada a uma proposta de campanha.

"Mas afeta, perante o eleitorado republicano, a narrativa sobre a doença e o uso de máscara. Deverá pegar mal ele ir a comícios agora", exemplificou o professor. "É um impacto mais na forma como a campanha é conduzida."

Na terça-feira, Trump disse ao se referir ao candidato democrata, Joe Biden que não usava máscaras "como ele". Agora, com o democrata livre da doença e o republicano não apenas infectado como atrás nas pesquisas, outros campos de batalha entre os dois poderão se desenvolver.

O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Ricardo Wahrendorff Caldas, aponta que a estratégia digital do candidato Donald Trump, essencial para sua vitória em 2016, pode se revelar um trunfo neste momento. "A maior parte da estratégia do Trump é digital, de mobilização via redes sociais", disse o professor. "O Trump tem mais know-how na guerra digital – porque o partido democrata, à exceção do Obama, é mais fraco digitalmente".

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Ricardo lembra que este não deve ser um dos fatores determinantes na eleição deste ano. Com a pandemia ainda castigando os EUA, os votos pelos Correios – que devem bater recorde em 2020 – devem se tornar o principal foco de tensão na disputa. Donald Trump já alegou, infundadamente, que a votação por correio poderia representar uma fraude e já disse que poderia não aceitar uma derrota caso considere que houve tais violações.

Gustavo Poggio vê a quarentena de Trump como negativa à sua campanha eleitoral. "Ele não é um bom debatedor, ele não é um bom entrevistado. Mas sim fazer stand-up, que é seu habitat natural. Essa é uma estratégia que ele aposta e o teste positivo para covid-19, de alguma forma pode gerar problemas a ele".

Um fato tão relevante a pouco menos de um mês da campanha trouxe paralelos com a eleição brasileira de 2018 quando o então candidato do PSL, Jair Bolsonaro sofreu um atentado à faca em Juiz de Fora (MG) a cerca de um mês do 1º turno das eleições. Gustavo Poggio não acredita que seja possível imaginar que as situações se equivalham. "Bolsonaro estava à frente nas pesquisas – e no caso dele não fazer campanha, se poupar, era a melhor coisa para quem estava à frente", explicou."Mas o Trump, hoje, precisa de alguma virada. O Trump deve pensar como transformar essa notícia em algo positivo."

O professor da UnB também concorda com Gustavo sobre não poder comparar o caso de Trump com a facada de Bolsonaro. "Sofrer um atentado, onde se coloca uma vida em risco, gera um movimento de solidariedade mesmo entre pessoas que não concordam com as visões daquela pessoa", diz, "mas no caso do coronavírus, existe uma empatia – mas que não chega a ser um movimento de solidariedade". Trump, reconhece o professor, teria condições mais favoráveis se estivesse na dianteira da corrida.

Ricardo argumenta que há efeitos secundários que precisam ser levados em consideração. "Há um efeito secundário que é a humanização da campanha. O presidente poderá dizer que nunca minimizou os riscos da pandemia, mas que não queria criar pânico na população", teorizou o professor. "Igual ocorreu no Brasil, após o Bolsonaro ser infectado."

Os pesquisadores acreditam que o governo de Jair Bolsonaro, alinhado ideologicamente à atual administração norte-americana, também não deve promover mudanças profundas na maneira como leva em consideração a pandemia. "No máximo Bolsonaro vai dizer que passou pela mesma coisa", pondera Gustavo Poggio.

Já Ricardo entende que o timing da notícia, no oitavo mês de pandemia, deve manter a filosofia de minimizar os efeitos da doença ."Se o caso de covid-19 do presidente norte-americano tivesse acontecido em março ou abril, o impacto teria sido significativo", afirmou. "Como já se teve oito meses para lidar com a doença e, tanto lá como aqui, estados e municípios estiveram na linha de frente no combate à doença, qualquer mudança no protocolo federal teria impacto muito pequeno."

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