Vídeo de autocrítica do PSDB intensifica racha na cúpula tucana

 

Após a veiculação da propaganda partidária nesta quinta-feira (17), o racha no PSDB se aprofundou. O vídeo de dez minutos, que propõe a autocrítica do partido, rendeu manifestação contrária dos ministros Aloysio Nunes (Relações Exteriores), Bruno Araújo (Cidades) e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), evidenciando ainda mais a divisão dentro do partido (leia as íntegras das notas abaixo).

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Em meio a repercussão do vídeo, uma reunião entre Temer e os ministros tucanos está prevista para ainda hoje (sexta, 18). A falta de entendimento foi exposta de vez com as manifestações, divulgadas nas redes sociais dos ministros. Aloysio Nunes foi o mais enfático, e começou sua consideração, publicada no Twitter e no Facebook, afirmando que o programa é “um monumento à inépcia publicitária, e a expressão de uma confusão política”. Bruno Araújo postou imagem de sua nota à imprensa no Twitter. Ambos concluem suas manifestações afirmando que a peça veiculada não os representa.

O vídeo já vinha causando desconforto desde que começou a ser anunciado, há pelo menos 10 dias, com trechos curtos afirmando que “o PSDB errou”, mas sem dizer como. O partido se desentende sobre a permanência na base do governo desde maio, com a revelação das delações da JBS, em que Temer e Aécio Neves (PSDB-MG), até então presidente da sigla, foram gravados em conversas pouco republicanas. O próprio Aécio passou a ser investigado no nono inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e foi afastado da presidência do partido.

O programa partiu do presidente interino da legenda, o senador Tasso Jereissati (CE), que defende o desembarque da base. Ele chegou a afirmar que não acreditava que o vídeo fosse causar problemas a ele dentro do partido.

Confira o vídeo veiculado pelo PSDB:


 

A versão completa do vídeo, afirmando que o atual governo faz um “presidencialismo de cooptação”, irritou os ministros. A explicação da expressão adotada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que traz uma espécie de desenho animado em que políticos são representados por bonecos recebendo dinheiro em troca de apoio ao governo, foi um dos pontos sensíveis. “Eu diria aos que conceberam e aprovaram essa mensagem: alto lá!”, escreveu Aloysio Nunes, e prosseguiu afirmando que, em seus 30 anos de vida parlamentar, “nunca recebi dinheiro ou pedi vantagens para apoiar as agendas em que acredito. De quem o programa está falando?”, questiona o ministro.

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Para Imbassahy, a linha adotada no vídeo ofende o próprio partido e traz colocações rasas e genéricas, sem apontar os “culpados por vícios e mazelas que o programa condenou”. “A linha adotada no programa partidário ofende fortemente o PSDB, colocando o partido numa posição extremamente ruim e desconfortável, como se fosse o culpado por todos os problemas, inclusive aqueles criados por governos do PT, dos quais foi oposição", afirmou.

Bruno Araújo avaliou que o programa não é “justo com a história do partido”. “Os parlamentares do PSDB têm votado em ideias em que acreditam. Por outro lado o partido tem ajudado a tirar o Brasil da crise criando novos programas sociais ou recuperando ações que estavam paralisadas”.

Racha

A votação do prosseguimento da denúncia indicou o quão rachado o partido se encontra: o relatório contra o prosseguimento da denúncia foi elaborado pelo tucano Paulo Abi-Ackel (MG), e entre os 46 deputados do partido, 21 votaram contra o relatório do correligionário.

A pauta econômica e reformista de Temer é defendida pelo partido no geral. O dissenso se dá em torno do próprio peemedebista. Enquanto a ala que defende a saída alega que o governo está desmoralizado e sem apoio para tocar as pautas que consideram necessárias, os que querem permanecer na base contestam que uma debandada tucana geraria ainda mais desconfiança na economia e na política, prejudicando o andamento das reformas que o partido considera necessárias.

Além de Tasso, já defenderam o abandono do barco governista o senador Ricardo Ferraço (ES), que chegou a afirmar que a situação de Temer era “insustentável”, e o deputado Daniel Coelho (PE). No dia da votação da denúncia, o deputado afirmou à reportagem do Congresso em Foco que o “correto seria o partido conseguir uma posição da Executiva Nacional para a entrega de cargos”.

Autocrítica abafada

Enquanto criticava as atitudes consideradas chocantes no Senado, o vídeo tucano mostra a confusão na Comissão de Assuntos Econômicos da Casa, durante as discussões sobre a reforma trabalhista. Lamentando a “mensagem que os políticos acabam passando para o país”, o vídeo reproduz a discussão acalorada, que quase acabou em confronto físico, protagonizada pelos senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Ataídes Oliveira (PSDB-TO). A imagem do tucano, contudo, é estrategicamente preservada no vídeo.

 

Marcos Oliveira / Agência Senado

Senador do PSDB, Ataídes Oliveira (à dir., de terno escuro) protagonizou uma das confusões que o vídeo do PSDB critica, mas imagem do parlamentar não aparece na propaganda tucana

 

O vídeo também é cuidadoso para não entrar no mérito de políticos investigados, e o mesmo se dá nas manifestações dos ministros. A questão é sensível, uma vez que o próprio o ex-presidente da legenda Aécio Neves - um dos que, nos bastidores, defendem a permanência na base - é um dos senadores com mais inquéritos no STF, atualmente alvo de nove investigações. Defensor da saída do governo, o deputado Daniel Coelho afirmou que, com as implicações contra Aécio, que o empurraram para fora da presidência oficial do partido, a sigla estava “acéfala”.

Leia a íntegra da nota divulgada por Aloysio Nunes:

Considerações sobre o programa partidário do PSDB

O programa partidário do PSDB é um monumento à inépcia publicitária, e a expressão de uma confusão política digna de figurar numa antologia do gênero. Inépcia porque, já desde os spots que anunciavam o que estava por vir, afirma que “o PSDB errou”, sem dizer exatamente onde está o erro.

Depois se viu: a fisiologia como sistema de governo, a troca de favores e a distribuição de vantagens espúrias como forma de obter votos nas assembleias representativas, coisa que o PSDB teria aceitado e praticado, segundo o programa.

Eu diria aos que conceberam e aprovaram essa mensagem: alto lá!

Os governos tucanos que apoiei ou dos quais participei não se reconhecem nessa caricatura. Tenho 30 anos de vida parlamentar e nunca recebi dinheiro ou pedi vantagens para apoiar as agendas em que acredito.

De quem o programa está falando?

O sujeito desses verbos que indicam práticas reprováveis são “os políticos”. É uma forma pantanosa e politicamente irresponsável de diluir as culpas pela degradação institucional que, ao lado da crise econômica e da desorganização administrativa, constitui o legado de um partido político.

E esse não é o PSDB. É o PT.

O PT, aliás, do Lula ao mais modesto dos seus aderentes, deve estar dando gargalhadas diante desse enorme tiro que a direção interina do PSDB desferiu no nosso próprio pé.

Os culpados não são apenas “os políticos”, expressão de um linguajar próprio da crítica vulgar dos que, no afã purificador muito característico da direita que rejeita “tudo o que aí está” e joga fora o bebê junto com a água do banho. Parece que quem erra, segundo o bordão repetido à exaustão nas inserções, foi o PSDB.

Como instrumento de luta política – se não for isso, para que serve? – o programa não passa de uma jeremiada que não diz de que lado está nesse cenário no qual nos inserimos, combatendo toda forma de populismo.

Dirão alguns que o programa tem como objetivo a exaltação da opção parlamentarista que consta do nosso estatuto. Ora, a defesa do parlamentarismo não se faz no ambiente asséptico das ideias puras.

O programa vai ao ar no contexto de uma árdua luta política, em que o presidente Temer se empenha, com coragem e determinação, para fazer avançar um conjunto de reformas essenciais para chegarmos a 2018 com um país um pouco mais arrumado. E também, digamos francamente, no ambiente de uma luta interna em que uma ala do partido pretende rever a decisão da comissão executiva, reiterada em reunião da executiva ampliada, de apoiar o governo Temer e dele participar.

O governo é adjetivado como fraco, impopular, com dificuldades de governar, sem recorrer ao fisiologismo. Ora, se a participação de membros de partidos aliados na administração é normal e recorrente tanto no presidencialismo como no parlamentarismo, mais ainda isso se explica no atual governo que assumiu o encargo de dirigir a Nação a partir de uma reação congressual, impulsionada pela opinião pública, à derrocada do governo Dilma.

O presidente Temer teve a visão e a habilidade política de transformar o amálgama de forças heterogêneas que resultou independente, em uma maioria positiva para apoiar uma ambiciosa agenda reformista. Para isso, compôs um governo em que estão presentes representantes de partidos da antiga situação, com os da antiga oposição, PSDB inclusive.

Pergunto aos marqueteiros: o apoio do PSDB ao governo Temer, os cargos que ocupamos, foram negociados por baixo do pano, por fisiologismo ou apego aos cifrões que aparecem nos olhos dos bonequinhos em que o programa representa “os políticos”?

Talvez, então, nós sejamos os puros entre os impuros!

Que se aponte com clareza quem são os impuros, porque eu, como ministro, não visto a carapuça.

O locutor, a certa altura, lá pelo fim da peça, diz que o Brasil está paralisado há três anos. Não está, não. No meu ministério não está, nem do da Luislinda, no do Bruno, ou do Imbassahy. No Congresso, a agenda legislativa avançou, e avançará mais, e muito mais, se o PSDB deixar de ser um fator de crise e de desorganização da base parlamentar. E também na esfera administrativa, há movimento e inovação.

Em suma, esse programa não me representa. Não participei de sua concepção, e em nenhum momento minha opinião foi demandada. Ele passa ao largo dos problemas urgentes do país e das opções que o PSDB tem o dever de apresentar para seu enfrentamento.

Leia a íntegra da nota de Bruno Araújo:

"A mudança na Executiva do PSDB ocorrida em maio deste ano tinha como objetivo levar o partido a uma transição consensual até a realização de novas convenções. O programa partidário exibido hoje não se enquadra nesse espírito. Tampouco o programa é justo com a história do partido. Após o impeachment da ex-presidente, o PSDB tomou uma série de decisões no sentido de repactuar a agenda de reformas necessárias e consertar os erros do governo anterior.

Os parlamentares do PSDB têm votado em ideias em que acreditam. Por outro lado o partido tem ajudado a tirar o Brasil da crise criando novos programas sociais ou recuperando ações que estavam paralisadas.

Seguimos um caminho de compromisso e recuperação do País. Por tudo isso, esperamos da presidência interina que se conduza dentro dos limites das decisões tomadas na legítima instância do partido, a Executiva Nacional.
O programa não me representa.

Bruno Araújo, deputado federal licenciado (PSDB-PE)"

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