Revistas: a história das 55 mil bolsas de sangue estragado

Revista ISTOÉ explora a contradição entre as campanhas de doação de sangue do Ministério da Saúde e as 55 mil bolsas de plasma humano com validade vencida há cinco anos

ISTOÉ

Como o governo deixou estragar 55 mil bolsas de sangue
A cada ano, o Ministério da Saúde gasta milhões em campanhas de incentivo à doação de sangue. Boa parte dessas doações é industrializada fora do País e retorna como hemoderivados, medicamentos essenciais no tratamento de hemofílicos. A matéria-prima desse processo é o plasma sanguíneo, um insumo tão cobiçado que um litro chega a custar US$ 120 no mercado internacional – tanto quanto um barril de petróleo. O Ministério da Saúde esconde em um depósito no Distrito Federal um carregamento de 55 mil bolsas de plasma humano, avaliado em US$ 1,6 milhão, mas cuja validade está vencida há pelo menos cinco anos. O segredo, que pode causar estragos às pretensões políticas dos ex-ministros da Saúde Humberto Costa e José Gomes Temporão, além do atual ministro, Alexandre Padilha, está trancado a 50 graus negativos numa câmara frigorífica vigiada por seguranças armados.

Essa espécie de “túmulo do sangue”, como funcionários do ministério chamam o local, é apenas o fio de um novelo que está sendo deslindado em diferentes investigações pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas da União. Os processos, obtidos com exclusividade por ISTOÉ, atestam desvios recorrentes na produção e estocagem do plasma coletado e lançam suspeitas sobre a existência de uma nova modalidade de máfia dos vampiros, com conexões até na França. Os lotes vencidos foram coletados em 41 hemocentros e bancos de sangue de diversos Estados em 2003 e 2004, justamente o ano em que estourou o escândalo do comércio ilegal de hemoderivados, desbaratado pela Polícia Federal na Operação Vampiro. Então ministro, Costa chegou a ser indiciado por suspeita de participação no esquema. Em março de 2010, foi absolvido pela Justiça e conseguiu ser eleito senador. Agora, apenas dois anos depois, está dedicado a virar prefeito do Recife, numa estratégia para chegar ao governo de Pernambuco em 2014.

Antes de deixar o cargo em 2005, Costa criou a Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados (CGSH) e mandou fazer nova licitação, engavetada nas gestões-tampão dos peemedebistas Saraiva Felipe e Agenor Álvares e retomada apenas no final de 2007, por José Gomes Temporão. A licitação lançada por Temporão foi vencida pela francesa LFB e o contrato previa o fornecimento de hemoderivados e a transferência da tecnologia de fracionamento do plasma para a Hemobrás, estatal criada por Costa em 2004 e que até hoje não saiu do papel. “Contratamos a empresa numa licitação transparente”, afirma Temporão, que diz desconhecer o carregamento de plasma vencido.

A saga continua
Na última vez em que os Collor de Mello se enfrentaram publicamente, o Brasil tremeu. A história do País ganhou novos contornos quando, em 1992, Pedro Collor fez uma série de denúncias contra o irmão Fernando, então presidente da República, que acabou sofrendo um processo de impeachment. Pois a saga está de volta: agora a disputa se dá entre um sobrinho e um tio. Aos 28 anos, Fernando Lyra Affonso Collor de Mello (PSD), filho de Pedro e Thereza Collor, postula a vaga de vice-prefeito na pequena Atalaia, cidade alagoana de 45 mil habitantes a 50 quilômetros da capital Maceió. Sua batalha nas urnas se dará contra a chapa do candidato a prefeito Manoel da Silva Oliveira, apoiado pelo tio e senador Fernando Collor de Mello (PTB) – o mesmo que foi retirado da Presidência no embalo das denúncias de Pedro Collor, que morreu de câncer em 1994. Apesar da violenta rivalidade, o jovem Collor diz não guardar mágoas. “Aquele passado já foi. Estamos agora de lados diferentes, mas o dia de amanhã ninguém sabe.” Seu nome de batismo, Fernando, foi uma homenagem feita no período em que os irmãos poderosos mantinham boas relações.

O distanciamento entre Fernando Lyra Affonso Collor de Mello e a família paterna fica claro na maneira como se apresenta. Ele optou por ser conhecido nas urnas como Fernando Lyra, uma forma de homenagear e, ao mesmo tempo, assumir o capital político do avô materno e padrinho: o usineiro e deputado federal João Lyra. “Ele sempre esteve perto de mim, me dá conselhos”, diz o jovem. “Escolhi usar o Lyra porque tudo aqui é Lyra. A usina (maior empregadora da cidade) é Lyra, e todo mundo conhece o João Lyra.”

Entre os políticos alagoanos, o jovem é apontado como o sucessor natural do avô, presidente do PSD de Alagoas. Foi o convite do velho Lyra que fez com que o neto regressasse de São Paulo para trabalhar nas empresas da família. “Ele queria que eu fosse vereador por Maceió em 2010, mas minha mãe (Thereza Collor) achava que eu era muito novo.” Recentemente, o patriarca lhe deu a ordem de tomar as rédeas da política de Atalaia, onde o avô se considera traído politicamente pelo atual prefeito. A missão de começar como vice-prefeito de um município pequeno foi um modo de inserir o neto de volta à política local após anos vivendo fora.

Despedida em alto estilo
No voto que o ministro Cezar Peluso não leu, ele criticaria a insistência petista na tese do crime de caixa 2 de campanha eleitoral e teria várias considerações sobre a atuação de José Dirceu. Mas seu veredito não será conhecido. A partir da segunda-feira 3, a cadeira de Peluso no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) estará vazia. Aos 70 anos, a aposentadoria compulsória chegou antes que ele concluísse uma das mais importantes decisões de sua carreira.

Dono de um conhecimento técnico que o tornou referência no STF, Peluso se preparou para julgar cada um dos 38 réus do mensalão. Mas resolveu, num estrito respeito às normas da corte, não antecipar seu voto sobre os réus que não foram citados pelo relator Joaquim Barbosa. Peluso referiu-se apenas à primeira parte do processo. Mas, ao decidir sobre os contratos de publicidade da Câmara dos Deputados e do Banco do Brasil com as empresas de Marcos Valério, o ministro deu uma amostra da linha-dura que pretendia adotar ao longo do julgamento – motivo de temor entre os defensores dos réus do mensalão.

Cezar Peluso condenou cinco pessoas em sua despedida. Além disso, antecipou a dose das penas e decidiu pela condenação em regime fechado para os acusados, entre eles o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), forçado a abandonar seu antigo projeto político de se eleger prefeito de Osasco. Peluso determinou a cassação do mandato do parlamentar, multa, e seis anos de reclusão. Além de Cunha, também já foram condenados Marcos Valério, seus sócios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, e o ex-diretor de marketing do BB Henrique Pizzolato. Para esse último, Peluso quer 12 anos de cadeia pela participação no desvio de dinheiro do banco estatal com o objetivo de abastecer o esquema.

Pagot diz por que se curvou: "O Serra está me processando"
Passava das 10h da manhã da terça-feira 28 quando Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), chegou ao Senado para depor na CPI do Cachoeira. Considerado uma testemunha-chave desde junho, quando ISTOÉ publicou declarações suas sobre o balcão de negócios instalado no órgão, nas quais expôs esquema de arrecadação das campanhas políticas, Pagot se curvou diante dos parlamentares. Durante mais de oito horas, ele decepcionou quem esperava por novas revelações e apenas confirmou o que havia dito sobre as pressões que sofreu para conseguir doações de empreiteiros para políticos.

Pagot se contradisse ao tentar explicar as declarações que deu à ISTOÉ em junho, quando afirmou que a obra do rodoanel paulista servia para abastecer a campanha do então candidato à Presidência da República, José Serra (PSDB). O ex-diretor do Dnit declarou à CPI que as acusações haviam sido feitas por um funcionário de empreiteira em um restaurante de Brasília e que não passavam de “conversa de bêbado”. Dois meses antes, ele não qualificara a fonte da informação e insistira em que o denunciante era um amigo confiável e bem informado. Em uma nova entrevista gravada, depois de depoimento na CPI, Pagot admitiu ter sido orientado por advogados a recuar na ofensiva aos tucanos porque José Serra entrou com um processo judicial contra ele. “O Serra está me processando”, disse, em conversa gravada.

O recuo de Pagot pode mesmo ter relação com as complicações jurídicas, mas era esperado pelos parlamentares, antes mesmo do início da audiência na CPI. A tranquilidade de integrantes da base aliada e da oposição não combinava com o poder de fogo que o depoente tinha em mãos e com as ameaças que ele vinha fazendo aos políticos. Nos primeiros minutos da sessão, já era possível perceber o clima de acordo que esfriaria sua participação na audiência. Em tom conciliador e com palavras previamente ensaiadas, Pagot deixou claro que nenhuma nova denúncia seria feita e que a disposição de falar o que viu nos cinco anos em que esteve à frente do Dnit já não era a mesma. A tática da defensiva foi usada também pelo ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, que voltou a negar que parte do dinheiro do rodoanel tenha ido para os tucanos. De acordo com Souza, não houve pressões da estatal paulista para que o Dnit liberasse um aditivo à obra do rodoanel e o custo adicional da obra teria sido determinada pelo próprio governo do Estado.

Segundo o ex-diretor da Dersa, Pagot teria se confundido ao mencionar a suposta pressão. “Acho que ele se confundiu porque tinha muita coisa na cabeça.” Experiente, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) resumiu o que aconteceu. “A ausência de líderes de grandes partidos como PT e PSDB mostra que houve uma negociação em torno do silêncio”, afirmou Simon. “O que é uma pena, pois em diversas ocasiões ele prometeu contar tudo sobre o esquema de superfaturamento de obras. Ele perdeu a chance de ajudar o País.”

Escravos do nazismo no Brasil
Aos 10 anos de idade, no distante 1933, os dias do menino Aloysio Silva eram divididos entre a escola e as brincadeiras no Educandário Romão de Mattos Duarte, um orfanato do Rio de Janeiro. Até que dois homens apareceram por lá, jogando balas para o alto. Enquanto as crianças corriam para pegá-las, um dizia para o outro: “Bota esse menino para cá, bota aquele para lá.” Silva ficou no grupo dos mais ágeis, o que selou sua transferência para a Fazenda Santa Albertina, no interior de São Paulo, hoje município de Campina do Monte Alegre.

Os dois homens eram Osvaldo Rocha Miranda, membro de uma das famílias mais poderosas do País, e seu motorista, André. Eles selecionaram 50 crianças órfãs, sendo 48 delas negras ou pardas, para mantê-las em regime de escravidão, sob a égide do ideário nazista. Os Rocha Miranda eram donos de bancos, empresas de transporte, hotéis de luxo e propriedades rurais. Alem de ricos, faziam parte do ultraconservador movimento integralista brasileiro e mantinham relações estreitas com os nazistas, como o ministro da Economia de Guerra de Hitler, Alfried Krupp, que chegou a comprar uma fazenda do clã na década de 1940.

A fazenda onde foi criado o centro de trabalhos forçados para os 50 órfãos no interior paulista era de propriedade dos Rocha Miranda. “Quando chegamos, um paraibano ruim já estava esperando a gente”, diz Silva, hoje um senhor de 89 anos. “Nossa vontade era só fugir, mas esse paraibano tinha dois cachorros ensinados. Era só ele apontar que eles vinham nos cercar.” O desejo de fuga era mais do que justificável. As crianças trabalhavam por cerca de dez horas diárias. Quando desagradavam aos tutores, eram submetidas a agressão física, prisão e jejum. “Hora de folga, que a gente poderia brincar, a gente ficava tudo sentadinho ali, sem sair porque senão o tutor já vinha com o cachorro”, lembra Silva, testemunha de uma história que só veio à tona há 14 anos, quando uma das sedes das fazendas dos Rocha Miranda ia ser reformada e foram encontrados tijolos com a suástica – símbolo nazista.

ÉPOCA

Por que Romero Jucá defende a exploração de ouro em áreas indígenas
Na tarde do dia 17 de maio, uma quinta-feira de trabalho no Congresso, o senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, subiu à tribuna para, como de hábito, defender os mais caros interesses do país. Desta vez, exortaria os parlamentares a legalizar a mineração em terras indígenas, prevista num projeto de lei patrocinado por ele. Jucá se ajeitou na tribuna, empertigando-se diante do microfone, e se pôs a falar: “Quero aqui registrar a importância deste debate. Para o Brasil, é muito importante (a aprovação da lei)”. Passou, então, a explicar os benefícios da proposta: “Haverá pagamento de royalties ao Poder Público e também à população indígena. Ganhará o direito à mineração aquele que pagar mais à comunidade indígena. Haverá uma licitação. Haverá todo o cuidado ambiental, todo o cuidado antropológico da Funai”. Jucá – talvez convencido de que comovera os colegas por ter, pela primeira vez na carreira, empregado no mesmo discurso os termos “licitação”, “cuidado ambiental” e “cuidado antropológico” – encerrou com um apelo para que o projeto seja aprovado logo, ainda neste ano. Por que Jucá tem pressa?

Em 2 de abril – portanto, um mês antes do discurso de Jucá –, a empresa Boa Vista Mineração pedira autorização ao governo para explorar ouro em nove terras que contêm áreas indígenas. O pedido fora feito ao Departamento Nacional de Produção Mineral, o DNPM, instância burocrática que cuida do assunto. A quem pertence a Boa Vista Mineração, uma empresa com capital de R$ 2 milhões? A sócia majoritária chama-se Marina Jucá, de 29 anos, filha do senador Romero Jucá. Outros dois sócios dela no negócio também são ligados ao senador. O tino empresarial de Marina Jucá é recente. Não faz muito tempo, era empregada no gabinete do pai e fazia faculdade em Brasília.

O clã Jucá quer explorar ouro em reservas dos índios macuxi e uapixana, em terras que somam 90.400 hectares (algo como a extensão da cidade do Rio de Janeiro). O garimpo ficará próximo à fronteira com a Venezuela, em Roraima. Em Brasília, está tudo preparado para a criação do eldorado de Jucá. O relator na Câmara do projeto de Jucá é o deputado Édio Lopes, também do PMDB de Roraima, e amigo do senador. Sérgio Dâmaso, que dirige o DNPM e pode conceder as autorizações à empresa de Jucá, é bancado no cargo pelo PMDB. Se a proposta for aprovada, é provável que a empresa de Jucá consiga as autorizações de imediato, sem licitação, porque as havia pedido antes de a nova lei passar a valer.

Procurado por ÉPOCA, Jucá limitou-se a dizer, por e-mail, que não tem nada a ver com a empresa da filha. Disse ainda que a defesa que faz no Congresso Nacional da aprovação do projeto de lei não representa conflito de interesses com a atividade empresarial de Marina Jucá. “É de interesse do país que esse assunto seja regulamentado.”

A boa-vida de Natan Donadon, um político condenado no Supremo
Toda terça-feira, ou quando dá, Natan Donadon veste seu melhor terno, ajusta o broche dourado na lapela, ajeita o topetinho e pega um avião até Brasília. Lá, encaminha-se – pelas beiradas, olhando para os lados – ao gabinete 239 da Câmara dos Deputados. Quando se encerra essa delicada operação, tranca-se em sua sala. Volta e meia orienta as secretárias a informar que não está. Sai apenas quando precisa votar no plenário, sempre com passinhos apressados, sempre pelos caminhos de uso exclusivo dos deputados. Vai e volta na mesma toada, tão veloz que é mais fácil encontrar um burocrata brasiliense dando expediente num domingo do que Natan dando mole no plenário da Câmara numa terça ou quarta-feira. Assim que cumpre suas obrigações em Brasília, no mais tardar na quinta-feira, Natan abandona o terno, esconde o broche – e volta rapidinho a Rondônia, Estado pelo qual foi eleito e onde mora. Natan não é paranoico nem tem preguiça de trabalhar. Natan tem medo de ser preso.

Natan é o primeiro parlamentar condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à prisão por desvio de dinheiro público. Outros quatro deputados foram condenados nos últimos anos por crimes como sonegação fiscal ou de responsabilidade. Mas não foram ameaçados de prisão, porque seus crimes prescreveram ou as penas podiam ser cumpridas em regime semiaberto. Natan é – pelo menos até a proclamação da sentença do caso do mensalão – o único que pode ir para a cadeia. Em 28 de outubro de 2010, o STF decidiu que ele deve cumprir 13 anos e quatro meses de prisão por ter cometido os crimes de peculato e formação de quadrilha. Os ministros do STF entenderam que Natan ajudou a desviar R$ 8,4 milhões dos cofres da Assembleia Legislativa de Rondônia, entre 1995 e 1998. Apesar de o Supremo ser a última instância da Justiça, suas sentenças não são cumpridas imediatamente. Graças a um último recurso, capaz de atrasar a execução da pena, Natan pode exercer seu mandato, ainda que intranquilo, enquanto aguarda o julgamento derradeiro no STF. Entre dezembro de 2011 e 29 de junho deste ano, o julgamento desse recurso foi adiado dez vezes. Natan torce pelo 11º adiamento.

Sua liberdade, ainda que provisória, tem seu preço. Especialmente para os contribuintes. Desde que assumiu seu primeiro mandato pelo PMDB, há nove anos, com 35 de idade, Natan nunca se destacou pela argúcia política ou pela exuberância de suas ideias. No atual mandato, já condenado, proferiu apenas 400 palavras na tribuna. Não apresentou ou relatou nenhum projeto relevante. Sua especialidade, assim como de muitos colegas, é outra: gastar dinheiro público. As 400 palavras de Natan na tribuna já custaram, entre salários e despesas de gabinete, cerca de R$ 1 milhão aos cofres públicos. Sem contar os salários de seus assessores – entre eles, dois parentes. No gabinete de Natan, porém, encontra-se somente um motorista.

Para encontrá-lo no Congresso, ÉPOCA teve de correr. Flagrou-o num dos trotes na saída do plenário. Ele ficou nervoso. Não se acalmou nem após descobrir que não fora pilhado por um policial carregando uma ordem de prisão. Natan não gosta de falar sobre sua condenação. Para relaxar, sorri como se estivesse se divertindo e dá tapinhas pesados no peito e no braço do interlocutor durante a conversa. No encontro, repetiu uma dúzia de vezes uma pergunta feita a ele, como procurasse ganhar tempo para responder. “Se fico ansioso quando o Supremo vai julgar meu caso?”, diz, dando uma risadinha. Natan dá um tapinha no ombro, empertiga-se, leva a mão ao queixo: “É uma boa pergunta... Se fico ansioso? Você quer saber se fico ansioso? Confio na Justiça e na justiça divina (ele é evangélico). O Supremo está analisando meu caso com muito cuidado, porque é uma coisa importante, é a vida da pessoa”

É agora que a jurupoca vai piar
Contempladíssimo!”, afirmou o advogado Alberto Zacharias Toron no intervalo da sessão da quinta-feira do Supremo Tribunal Federal (STF). Era a 13a do julgamento da Ação Penal 470, mais conhecida como mensalão. O ministro revisor Ricardo Lewandowski acabara de pedir a absolvição, no crime de corrupção passiva, do deputado federal e candidato a prefeito de Osasco João Paulo Cunha, cliente de Toron. Era só um voto a favor – havia outro, condenatório, do ministro relator Joaquim Barbosa, e mais nove ministros para ainda votar –, mas Toron não cabia em si: – A amplitude, a consistência do voto do revisor é muito maior. Ele analisa as provas, as alegações das partes, ele invoca o pensamento da doutrina nacional, da doutrina estrangeira, fala como a coisa era tratada em tempos diferentes no próprio Brasil. E ele examina muito a prova dos autos, coisas que o relator, com todo o respeito, não faz. Se a pergunta for repetida – “O que o senhor achou do voto do revisor?” –, Toron terá outra resposta:

– É o reconhecimento de um trabalho, também. Eu tenho me dedicado. Minha mulher viajou com as crianças em julho, eu não viajei, fiquei estudando. A gente preparou um trabalho que são os nossos memoriais. Teve a concentração para fazer a sustentação oral, no prazo de uma hora, e isso obriga a ter uma objetividade, uma concisão, uma lógica. Você não pode errar, porque você não tem chance de erro. O tempo me faltou no final, não sei se vocês se lembram. Então isso exige muito do profissional. Acho que a absolvição é o reconhecimento de que seu trabalho estava certo. É claro que outros profissionais que foram muito bem, que fizeram um trabalho maravilhoso, até melhor que o meu, podem não ter a absolvição, o que não invalida seus trabalhos, porque o caso é diferente, porque o caso não é tão favorável. Quero deixar claro que a ocorrência da absolvição é motivo de alegria.

Quando a ficha finalmente caiu, Toron disse: – Está 1 a 1, e estou bem lembrado disso. Mas, enfim, é o primeiro voto favorável e me deixa muito feliz. Vamos aguardar com serenidade e respeito a continuação do julgamento.

Toron já elogiara o voto de Lewandowski na tarde da quarta-feira – quando ele pedira a condenação dos réus Henrique Pizzolato, Marcos Valério, Cristiano Paz e Ramon Rollerbach. “Foi um voto de juiz, e não de acusador”, disse. Não estava só. “Não deu sono”, disse José Carlos Dias (advogado de Kátia Rabello). “Belo voto”, afirmou Pierpaolo Bottini (Professor Luizinho). “Agora é outro nível”, afirmou Marcelo Leonardo (Marcos Valério, condenado naquele dia). Marthius Sávio Lobato (Pizzolato, também condenado naquele dia), mesmo contestando o mérito, disse: “Mudou a qualidade do julgamento”.

Lewandowski usou muito – para condenar ou absolver, sem entrar no mérito – aquilo que o relator Joaquim Barbosa usou pouco: as defesas dos réus, expostas nas alegações finais, por escrito, e nas sustentações orais, e as provas produzidas na instrução sob o crivo do contraditório. Na primeira parte de seu voto – disponível no site do Supremo Tribunal Federal –, Barbosa só se referiu aos argumentos da defesa, aos documentos e aos laudos periciais, quando eles podiam reforçar seus argumentos. E usou, fartamente, depoimentos obtidos sem o contraditório.Lewandowski, ao contrário, não teve receio de enfrentar o mérito das defesas, clara e didaticamente, seja para divergir, como fez no dia em que condenou, seja para concordar, como na quinta-feira em que absolveu, com o requinte de mandar entregar a cada ministro, antes de começar, uma pasta com cópia de todos os documentos que citaria (e de referir-se a eles cada vez que os citou). Resumiu tudo numa frase dita na quarta-feira, olhando para a bancada dos advogados: “Esta é a verdade processual. Pode ser que a verdade real seja distinta – mas esta é a verdade processual”.

Um fuzil é apreendido por dia no Rio de Janeiro
O fuzil automático Kalashnikov modelo 1947 é considerado a arma mais letal do mundo. Estima-se que 250 mil pessoas sejam mortas por ano, nos mais diversos conflitos ao redor do planeta, por um AK-47, sigla pela qual o fuzil de fabricação russa é internacionalmente conhecido. Pesa menos de 4 quilos, tem alcance de 400 metros e, nas mãos de um atirador hábil, pode disparar até 600 tiros por minuto. No Rio de Janeiro, em 2012, quatro anos após o início da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, o AK-47, uma arma de guerra, ainda é o preferido dos traficantes.

Eles não são mais exibidos sem cerimônia por criminosos nos labirintos das favelas, como imagens de TV costumavam registrar até bem pouco tempo atrás. Mas um levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio, obtido com exclusividade por ÉPOCA, revela como o poder de fogo nas mãos dos bandidos permanece altíssimo. Trata-se de uma ameaça latente à sensação de segurança com que os cariocas começaram a se acostumar. De janeiro ao dia 19 de julho deste ano, foram apreendidos 162 fuzis pela polícia do Rio. Quase um fuzil por dia. Se a esse número forem somadas metralhadoras e submetralhadoras, a média ultrapassa um por dia, alcançando 240 armas. As apreensões mais recorrentes são de AK-47.

De 2008 para cá, foram inauguradas 27 UPPs, em áreas que concentram 307 mil moradores. A cada ocupação de favela que precede a instalação de uma Unidade Pacificadora, dezenas, senão centenas, de armas são apreendidas, como ocorreu no Complexo do Alemão, em 2010, e na Rocinha, no fim do ano passado. Mas o arsenal parece não ter fim – ou continua a ser renovado. De 2007 a 2011, foram apreendidos em média 18,7 fuzis por mês no Rio. Neste ano, a estatística aumentou para 24,9 fuzis, mesmo sem nenhuma ocupação de grande porte de favelas.

CARTACAPITAL

O retrato do País - trecho de editorial sobre o mensalão
Não fosse enredo da vida real, o processo do chamado “mensalão” seria espetáculo ímpar na capacidade de trafegar entre tragédia e comédia com toques exemplares de drama e de farsa. Não cabe desmerecê-lo, contudo, nesta versão próxima do terceiro ato, o do epílogo, ao menos teoricamente, e que me arrisco a encarar como crítico teatral disposto a registrar de saída seu mérito inegável: o mensalão, em todos os seus aspectos, retrata à perfeição os males do Brasil. A inesgotável mazela, a hipocrisia inata dos senhores, o patrimonialismo do sistema. Um conjunto excepcional de prepotência e parvoíce.

Padecemos um longo prólogo, longo demais, a partir da denúncia do inconfiável Roberto Jefferson, e ainda assim rico em eventos que se fundem no entrecho central mesmo quando parecem desligados do contexto. Por exemplo, a presença do banqueiro Daniel Dantas. Vibra claramente na própria origem do mensalão como vibrou nos pregressos de marca tucana. E desaguou na Operação Satiagraha, enfim adernada miseravelmente porque DD está por trás de tudo, e muito além do que se imagine.

Marcos Valério serviu a Dantas e dele José Dirceu é bom amigo. Bela figura a ­ocupar a ribalta sete anos atrás, começo do prólogo, foi o ministro Luiz Gushiken, o samurai, como então o batizei, um inocente que pagou caro por sua inocência. Cavaleiro sem mancha, cometeu o pecado de enxergar em Dantas o grande vilão de todas as situações. Pecado imperdoável, tudo indica. A respeito, recomendo nesta edição o texto assinado pelo redator-­chefe Sergio Lirio, a retratar uma personagem de insólita dignidade, sacrificada injustamente ao ser forçada a deixar o governo.

[...]

O primeiro ato do espetáculo presta-se a demonstrar a inadequação do título “mensalão”. Como sempre sustentou Carta­Capital. Provas certamente haverá de outros delitos, igualmente condenáveis, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro. Quanto ao uso de caixa 2, a lei brasileira prontifica-se a uma lamentável leniência na punição do crime eleitoral. O segundo ato inaugura-se em proveito de outra constatação, caso não tivesse já dado o ar da sua desgraça: um grupo de petistas, que não seria o caso de chamar de aloprados, decidiu imitar a estratégia tucana desenhada e comandada por Serjão Motta a partir de 1994 com o propósito de manter no poder ad aeternitatem o pássaro incapaz de voar.

Não deu, José Serra lá estava para atrapalhar desde 2002, a despeito do maciço apoio midiático. A diferença entre uns e outros está no fato de que o Partido dos Trabalhadores nasceu em odor de subversão e de nada lhe adiantou abjurar pelo caminho a fé primeva. Além disso, no caso do ex-metalúrgico Lula pesa, em primeiro lugar, o ódio de classe, sentimento tão natural na casa-grande. Em contrapartida, a trajetória da esquerda nativa, oportuno é sublinhar, é tão deplorável quanto tudo o mais, e cabe neste enredo de traições aos ideais propalados em vão, de promessas bombásticas e falsos propósitos inexoravelmente descumpridos em nome do oportunismo aconselhado pelo momento fugidio.

Estamos na iminência do terceiro ato, mas o que se viu até agora estimula depressões monumentais. E aonde quer que o espectador se volte não encontrará razões de alívio.

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