Por que ninguém consegue deter o Estado Islâmico

Correspondente internacional que viveu na região por três anos, jornalista brasileiro explica, em reportagem publicada na Revista Congresso em Foco, o nascimento e a disseminação deste e outros grupos extremistas e por que ninguém parece conseguir detê-los

Os ataques que mataram ao menos 34 pessoas e deixaram cerca de 200 feridos na Bélgica, nesta terça-feira (22), mostraram mais uma vez como o mundo está suscetível ao terror. As três explosões, que atingiram o aeroporto internacional de Bruxelas e a estação de metrô de Maelbeek, foram reivindicadas pelo grupo jihadista Estado Islâmico, também autor de dois atentados em Paris no ano passado.

De onde vem tanta disposição para o derramamento de sangue? Por que ninguém consegue deter o ciclo de ataques e retaliações? Correspondente internacional que viveu na região por três anos, o jornalista brasileiro Samy Adghirni, da Folha de S.Paulo, explica, em reportagem publicada na Revista Congresso em Foco, como e por que esses grupos extremistas nasceram no Oriente Médio e disseminam o terror mundo afora.

“Oriente Médio: uma guerra sem fim

Correspondente internacional que viveu na região por três anos conta por que intervenções ocidentais e revoltas árabes criam uma espiral de caos que beneficia extremistas

Samy Adghirni *

A Síria afunda numa espiral de caos e barbárie. O Iraque se desintegra. O grupo ultrarradical Estado Islâmico estende seus tentáculos até o litoral da Líbia, controlando territórios a menos de 700 km do sul da Itália. O Iêmen implode. Bombas sacodem a Turquia, tão querida por turistas ocidentais.

Duas das maiores potências regionais, os arquirrivais Irã e Arábia Saudita, romperam relações e flexionam os músculos. A escalada das tensões no Oriente Médio espanta até mesmo quem está acostumado a acompanhar o sempre conturbado noticiário da região. De tão grave, a crise atual está borrando fronteiras e redesenhando o mapa das velhas alianças. Amigos viram inimigos, adversários se tornam aliados. Esta nova realidade parece capaz de contaminar o mundo inteiro.

Paris foi ensanguentada duas vezes em menos de um ano por combatentes que diziam querer vingar os “irmãos na Síria”. Multidões de refugiados fugindo da guerra se amontoam na Europa, provocando reações que reavivam o espectro sombrio do racismo nacionalista. Nos EUA, o tema dos refugiados invadiu a campanha para a eleição presidencial deste ano. Até o Brasil acolhe famílias sírias e iraquianas.

Por que o Oriente Médio está pegando fogo? De onde vem tanta disposição para derramamento de sangue? Por que ninguém consegue deter o ciclo de ataques e retaliações?

Não há respostas defi­nitivas, mas é possível traçar uma sequência de acontecimentos que contribuíram para criar essa crise. As explicações incluem tanto razões internas ao Oriente Médio quanto externas.

As tensões remontam a milênios. A­nal, a região abriga algumas das mais antigas civilizações, viu nascer as três grandes religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islã) e foi objeto de uma disputa histórica entre potências colonizadoras, que se acirrou com a descoberta do petróleo no início do século 20. Mas muitos analistas e diplomatas acreditam que o atual cenário começou a se desenhar com a invasão do Iraque pelos EUA do então presidente George W. Bush e aliados em março de 2003, um ano e meio após os atentados de 11 de Setembro lançados pela rede terrorista Al Qaeda de Osama bin Laden contra Nova York e Washington.

O pretexto para atacar o Iraque – que se revelou falso – era que o então ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa (como arsenais químicos ou bacteriológicos) com as quais pretendia atacar o Ocidente em parceria com a Al Qaeda. Saddam foi derrubado sem difi­culdade, mas sua queda deixou um vácuo de poder para o qual os invasores não haviam se preparado. A anarquia começou com saques de lojas e prédios públicos e se ampliou na medida em que a alegria de muitos iraquianos pelo ­m do regime sanguinário se transformou em revolta contra os abusos cometidos pelas forças de ocupação.

Um fator determinante para incendiar de vez o Iraque foi a desastrada gestão norte-americana da questão sectária. O país tem quatro grandes grupos étnico-confessionais.

A maioria dos iraquianos são xiitas, mas estes viviam sob opressão da elite sunita, minoria à qual pertencia Saddam. Sunitas e xiitas são as duas correntes principais no Islã.

Xiitas, ao contrário do que se pensa no Brasil, não são necessariamente mais radicais. As duas correntes se dividiram a partir do século 7 em razão de disputas pela sucessão de Maomé, o profeta que revelou o Islã. O Iraque tem duas outras grandes comunidades: curdos (inimigos de Saddam) e cristãos (que eram protegidos pelo ditador). Pois bem, os ocupantes norte-americanos expurgaram do poder Saddam e seus aliados sunitas e cristãos e abriram caminho para um governo dominado por xiitas e curdos. Os sunitas não gostaram, e alguns partidários de Saddam, incluindo militares e policiais do antigo regime, se organizaram para formar células clandestinas insurgentes. Alguns xiitas também enxergaram os norte-americanos como inimigos e lançaram sua própria frente de resistência. Além de atacar os norte-americanos com bombas e emboscadas, xiitas e sunitas também se massacravam entre si.

Tudo fi­cou ainda mais explosivo quando Síria e Irã, dois vizinhos do Iraque, passaram a jogar lenha na fogueira iraquiana ao apoiar insurgentes e lançar gigantescos ataques em Bagdá e outras cidades. A estratégia dos sírios e iranianos tinha explicação: eles temiam ser os próximos na lista a ser invadidos pelos EUA e, por isso, tentavam manter os norte-americanos ocupados demais com o Iraque para pensar em outros ataques.

A contrainsurgência norte-americana matava e prendia insurgentes às centenas. Um dos detidos, um sujeito até então sem grande importância, era um universitário sunita chamado Abu Bakr Al Baghdadi que, uma década depois, se tornaria líder do Estado Islâmico, maior e mais temida organização terrorista da era moderna. Foi numa prisão militar norte-americana ao sul do Iraque que Al Baghdadi elaborou a criação do Estado Islâmico.

Em 2008, a situação no Iraque começou a se acalmar graças a uma bem-sucedida jogada dos EUA que consistia em engrossar radicalmente o volume de soldados na luta contra os rebeldes e ao mesmo tempo cooptar combatentes sunitas mediante pagamento. Atentados nunca desapareceram por completo, mas a vida no país passou a ter ares de normalidade.

A queda de Saddam Hussein teve repercussões em todo o Oriente Médio. Uma delas foi que os curdos, uma minoria étnica espalhada por vários países, praticamente conseguiram transformar em Estado próprio a região autônoma que administram no norte do Iraque. Isso deixou de cabelos em pé a vizinha Turquia, que vê com pavor as aspirações separatistas dos curdos instalados em seu território.

Outra consequência importante da queda de Saddam foi que os EUA, meio sem querer, acabaram livrando o Irã de seu pior inimigo. Nos anos 1980, Saddam invadiu o Irã e exterminou populações inteiras com armas químicas.

O ditador iraquiano tinha ojeriza dos iranianos, que não só são majoritariamente xiitas (como a maior parte dos dissidentes iraquianos) como também pertencem à etnia persa, que enfrentou os árabes muitas vezes ao longo da história. Persas são um povo totalmente diferente, com língua e cultura próprias. Além disso, o Irã também se bene­ficiou da ascensão de um governo xiita em Bagdá. Iranianos passaram a ter muita influência no Iraque, para desespero dos norte-americanos. Se sentindo mais forte, o Irã pisou no acelerador de seu programa nuclear e estendeu sua influência política, religiosa e econômica na região.

Por volta de 2009, 2010, o Oriente Médio vivia dias de relativa estabilidade, com exceção do conceito entre israelenses e palestinos, que obedece a dinâmicas diferentes dos temas aqui abordados. A região estava cheia de turistas, a economia melhorava, a Síria ensaiava uma normalização com o Ocidente e a maioria das pessoas no Oriente Médio respirava aliada com a saída de Bush e ascensão de Barack Obama em Washington.

Um fato novo e inesperado, porém, virou o Oriente Médio de ponta a cabeça no início de 2011: as revoltas árabes. Começou na Tunísia, onde a morte de um vendedor de frutas que havia ateado fogo ao próprio corpo em protesto contra a pobreza, a repressão e a corrupção deflagrou manifestações colossais que levaram o ditador Zine El Abedin Ben Ali a fugir do país.

Inspirados pela fulminante e inimaginável vitória do povo tunisiano, egípcios também foram às ruas para exigir a renúncia do ditador Hosni Mubarak. Ele resistiu, massacrou manifestantes e pediu ajuda aos aliados ocidentais, mas acabou entregando o poder.

De repente, quase todos os países árabes vivam fenômeno semelhante. O povo em fúria derrubou outros dois ditadores árabes. O iemenita Ali Abdullah Saleh se viu obrigado a renunciar. O líbio Muamar Kada­ foi caçado como rato por rebeldes apoiados por bombardeios ocidentais e foi mutilado até a morte após ser capturado num bueiro.

Na Síria, porém, a história foi diferente. O regime de Bashar Al Assad, por mais brutal que seja, contou desde o início da revolta com o apoio interno e externo que faltou a outros ditadores. O apoio interno vinha das garantias que Al Assad tradicionalmente provia a seus cidadãos: estabilidade, segurança e liberdade religiosa-cultural.

Sob o regime sírio, cristãos vivem em paz, ninguém é obrigado a usar véu e o consumo de álcool é liberado. Mas quem abrir a boca contra o governo pode ser torturado e morto.

Já o apoio externo vem de Rússia e Irã, duas potências dispostas a tudo para apoiar seu aliado mais ­fiel no Oriente Médio.

Diferentemente do ocorrido em outros países sacudidos por revoltas, a Síria se transformou rapidamente num campo de batalha entre forças externas. O país é pobre, pequeno e árido, mas conseguiu se impor como um dos mais importantes estrategicamente. Enquanto Rússia e Irã enviavam armas e dinheiro ao Exército sírio, uma aliança formada por países ocidentais, Qatar, Turquia e Arábia Saudita fez a mesma coisa com os insurgentes. Devido aos enormes interesses estratégicos em disputa, a guerra síria atingiu níveis inéditos de crueldade em larga escala. Neste jogo sujo, russos e iranianos apoiam milícias pró-Assad que massacram até bebês, enquanto qatarianos, turcos e norte-americanos ­financiam grupos que gravitam na órbita do extremismo islâmico.

Isso mesmo, os ocidentais se alinharam a rebeldes ultrarradicais em nome da luta para derrubar Al-Assad – líder secular, diga-se de passagem. Nesse embate sem vencedor, quem mais sofre são os cidadãos sírios, que viram seu país se transformar no lugar mais perigoso do mundo e emigraram em massa em busca de uma vida segura.

Quem acompanhou desde cedo os desdobramentos da guerra síria foi Al Baghdadi, o já mencionado prisioneiro iraquiano dos EUA que, a esta altura, já havia sido libertado e comandava um grupo combatente então chamado de Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS, na sigla em inglês). Em 2014, o ISIS lançou uma ofensiva arrasadora que, em meses, conquistou vastos territórios nos dois países, incluindo Mossul, a segunda maior cidade do Iraque. Desde então, a facção passou a se chamar apenas Estado Islâmico (EI). Nas áreas sob seu controle, vigora uma sórdida interpretação do Corão que justifi­ca estupros, escravidão e decapitações em praça pública. Apesar do terror ambiente, muitos sunitas preferem o EI à repressão que sofriam nas mãos dos governos iraquiano e sírio.

Ao contrário da Al Qaeda, o EI almeja estabelecer um território com governo e legislação próprios. Para se fi­nanciar, o governo de Al Baghdadi sequestra, organiza tráfi­co de antiguidades e exporta petróleo que extrai de territórios sob seu controle.

Depois de tomar áreas na Síria e no Iraque, o EI se lançou à conquista de novos horizontes. Os homens de Al Baghdadi chegaram até a Líbia, um país sem governo central e entregue a milícias desde a queda de Kada­. Hoje, o EI controla uma parte importante do litoral líbio.

Não é só na Líbia e na Síria que as revoltas árabes deixaram gosto amargo. O Iêmen está tomado por uma guerra civil na qual potências regionais se enfrentam por procuração – Irã e Arábia Saudita, cada um apoiando um lado do conflito. No Egito, o atual governo é ainda mais brutal que o de Mubarak. A situação parece um pouco melhor na Tunísia, mas o ambiente continua volátil.

A Turquia não é árabe, mas está pagando caro por seu envolvimento ativo na guerra síria, onde bombardeia o EI e ao mesmo tempo apoio esforços para derrubar Al Assad. Atentados em território turco vêm crescendo. Nesse emaranhado de problemas, a única boa notícia foi o recente acordo que pôs ­fim a mais de uma década de embate sobre o programa nuclear iraniano. O Irã, que sempre negou querer a bomba atômica, aceitou diminuir drasticamente sua capacidade nuclear. Em troca, conseguiu do Ocidente um alívio parcial das sanções econômicas. Só dois países continuam se opondo a qualquer normalização com o Irã: Israel e Arábia Saudita. Israelenses e sauditas são, em tese, inimigos. Mas o pavor do Irã os une. Há quem diga que se algum dia Israel cumprir a ameaça de atacar os iranianos, os sauditas farão de tudo para ajudar.

* Samy Adghirni é correspondente internacional da Folha de S.Paulo em Caracas. Filho de pai marroquino e mãe brasileira, o jornalista é fluente em árabe e produz reportagens sobre o Oriente Médio desde 2004. Viveu na região entre 2011 e 2014.”

Leia esta e outras reportagens na Revista Congresso em Foco

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