Pagot nega conivência com corrupção no Dnit e acusa Delta

Ex-diretor do Dnit diz que não conhecia Cachoeira, nem sabia de sua relação com empreiteira. Em depoimento à CPI, ele afirma que foi demitido do cargo por ter contrariado interesses da construtora

O ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) Luiz Antônio Pagot afirmou hoje (28) que não conhece o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e que não sabia que a empresa Delta Construções tinha ligações com o esquema de Cachoeira. Em depoimento à CPI do Cachoeira, Pagot disse que sempre foi "pau para toda obra" e que jamais cobrou propina ou foi conivente com atos de corrupção. Ele atribuiu sua exoneração do órgão ao fato de ter contrariado interesses econômicos da construtora, principal executora das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

 

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O depoimento de Pagot era um dos mais aguardados pelos parlamentares. Ele foi demitido do órgão depois de uma série de denúncias de corrupção no Dnit. O episódio resultou na queda do então ministro dos Transportes, o atual senador Alfredo Nascimento (PR-AM), e estabeleceu uma crise entre o governo de Dilma Rousseff e o PR, partido responsável por sua indicação ao cargo.

Pagot foi convocado depois de ter afirmado publicamente que deixou o órgão por pressão do grupo de Cachoeira. Segundo investigações da Polícia Federal, a Delta repassou dinheiro para empresas de fachada ligadas a Cachoeira, utilizadas para pagamento de propina e caixa dois em campanhas. “Fiquei estarrecido quando soube que minha demissão havia sido articulada por um contraventor”, disse. Os parlamentares cobram de Pagot explicações para o grande número de contratos do órgão com a construtora.

Ele afirmou à CPI que acredita que os diretores da Delta, principalmente Cláudio Abreu, queriam tirá-lo da presidência do órgão porque ele “não dava vida mole para ninguém”. Pagot contou que constumava chamar as empresas prestadoras de serviços para exigir a correta execução das obras, além do cumprimento dos cronogramas, entre outras demandas. “ No caso da BR 116, no Ceará, ela [a Delta] subcontratou uma empresa local sem autorização do Dnit. No caso da BR 104, em Pernambuco, havia uma reivindicação de um aditivo de preço que nós não aceitamos", declarou. "Então, houve uma grande insistência, principalmente pelo diretor Cláudio Abreu para que revíssemos a decisão”, contou.

“Em 2010, vínhamos tendo alguns problemas com a Delta em relação à execução de obras. [...] O que fizemos causou um grande dissabor nos trabalhos de Cláudio Abreu. Por isso, acredito que, junto com o contraventor, ele acabou patrocinando matérias jornalísticas que me tiraram do meu cargo”, afirmou Pagot.

Escutas telefônicas da Polícia Federal mostram articulações do grupo de Cachoeira contra o ex-diretor do Dnit. De acordo com gravações de 10 de maio de 2011, Cachoeira disse a Cláudio Abreu que “plantou” as informações contra Pagot na imprensa.

CPI e agradecimento

O ex-diretor disse ainda que tinha esperanças que fosse criada a “CPI do Dnit” para passar a limpo a autarquia, principalmente em relação à sua gestão. “O momento de minha saída, sem qualquer possibilidade de defesa, foi sob o prisma de absoluto isolamento”, alegou. Pagot afirmou que ainda espera que os parlamentares investiguem os contratos realizados pelo Dnit no período em que comandou o órgão, entre 2007 e 2011.

Na sua exposição inicial, Pagot leu um breve currículo sobre as obras que realizou em outros órgãos e quando esteve à frente do Dnit. "Os senhores estão diante de um trabalhador incansável e leal, cumpridor das minhas obrigações e sempre preocupado com o bem estar do próximo. [...] Fui pau para toda obra e foi esse histórico de realizações que me fez chegar ao Dnit, convidado pelo presidente Lula", disse. Em seguida, agradeceu ao ex-presidente. "Muito obrigado presidente Lula, que apoio nunca me faltou". Ele chegou à CPI sem advogado e garantiu que responderia a todas as perguntas dos parlamentares.

Videoteca

O dono das empresas JSM Terraplenagem e SP Terraplenagem, Adir Assad, também foi chamado para depor como testemunha à CPI nesta terça-feira. Ele é apontado como um dos “laranjas” usados por Cachoeira no esquema com a Delta. Assad conseguiu junto ao Supremo Tribunal Federal um habeas corpus para permanecer em silêncio.

No início da reunião, Vital do Rêgo leu informe encaminhado pelo Prodasen, órgão técnico do Senado, informando que o material recebido na última sexta-feira (24) - 280 mídias digitais com vídeos feitos pelo grupo de Carlinhos Cachoeira - estará disponível para os parlamentares a partir de quinta-feira (30). O presidente informou ainda que são 1,4 terabytes (o equivalente a 1,4 mil gigabytes) de material, que será repassado aos parlamentares na íntegra, sem qualquer alteração. O material pode revelar a participação de outros investigados, bem como reforçar as evidências de envolvimento daqueles flagrados em interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.

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