Nas revistas: para que servem nossos consulados e embaixadas?

A bilionária máquina diplomática do país proporciona mordomias a servidores públicos, mas falha na missão de dar suporte aos cidadãos brasileiros no exterior, destaca IstoÉ. Semanais também destacam a crise no Maranhão

IstoÉ

Para que servem nossos consulados e embaixadas?
A bilionária máquina diplomática do País proporciona mordomias a servidores públicos, mas falha na missão de dar suporte aos cidadãos brasileiros no Exterior

Na semana do Natal e do Réveillon, os brasileiros que foram ao consulado de Florença, na Itália, em busca de uma solução para algum embaraço burocrático, foram informados de que as atividades da casa estavam suspensas pelo recesso de fim de ano. No dia 4 de janeiro, a psicóloga amazonense Jaqueline Lopes Marques morreu em um acidente de carro em Los Angeles, nos Estados Unidos, e sua família declarou que não recebeu nenhum suporte da representação consular brasileira. Graças à morosidade das autoridades, o corpo de Jaqueline demorou quase uma semana para ser liberado para o Brasil. Na semana passada, o jornal “Folha de S. Paulo” revelou que o embaixador Guilherme de Aguiar Patriota (irmão do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota), número dois da missão do País na ONU, mora no Upper West Side, uma das regiões mais nobres de Nova York, em um imóvel alugado por US$ 23 mil mensais, o equivalente a cerca de R$ 54 mil. Detalhe importante: a conta é paga pelos cofres públicos. Em comum, todas as histórias apresentadas aqui revelam a ineficiência da bilionária máquina diplomática do Brasil.

Com um orçamento que ultrapassa os R$ 2,2 bilhões, o Ministério das Relações Exteriores gasta R$ 800 milhões apenas com servidores ativos, grande parte ganhando acima do teto constitucional, e outros R$ 400 milhões para manter a estrutura de embaixadas e consulados em 182 postos espalhados pelo mundo. Em Roma, na Itália, o Brasil mantém quatro representações diplomáticas. São duas embaixadas (uma delas no magnífico Palazzo Pamphili, na Piazza Navona, ornado com obras de arte e teto banhado a ouro, além de outra no Vaticano), um consulado-geral e um escritório junto à FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura. Para que tudo isso? Procurado por ISTOÉ, o Itamaraty nada informou sobre o alto preço pago pelos brasileiros para sustentar seus tentáculos diplomáticos. Os gastos são bancados pelo contribuinte brasileiro, é claro, mas tratados com sigilo, o que é de estranhar em um País onde a transparência se tornou lei.

O órgão tem prometido ano após ano abrir sua caixa-preta de despesas e mostrar como os representantes brasileiros do alto escalão da diplomacia gastam o dinheiro público, mas os sistemas de controle de gastos do governo federal só alcançam um terço das despesas e não incluem detalhes das compras feitas por embaixadas, que são controladas pelo escritório financeiro de Nova York.  Só em festas, jantares e recepções, serão mais de R$ 12 milhões para custear eventos no Exterior em 2014. A maioria deles ocorrerá nas residências oficiais dos embaixadores, com o argumento de que ajudam a azeitar as relações dos homens que representam o Brasil em solo estrangeiro com autoridades de outros países. Trata-se, porém, de estratégia questionável cujos resultados práticos nem mesmo diplomatas experientes conseguem listar. A divulgação de que o embaixador Guilherme de Aguiar Patriota mora em um imóvel cujo aluguel custa R$ 54 mil mensais escancarou as mordomias da cúpula diplomática que vive no Exterior. Legalmente, o auxílio-moradia varia de US$ 3,2 mil a US$ 6,6 mil por mês, mas esses valores podem ser driblados por servidores de alto escalão cuja moradia é classificada na categoria de “residência oficial.” Na prática, isso permite o pagamento de aluguel de qualquer quantia. Dois diplomatas ouvidos por ISTOÉ afirmaram que a manobra é aceita pelo ministério apenas em alguns casos, mas sempre a partir de critérios que costumam ser justificados por apadrinhamentos.

Barbárie brasileira
Cenas chocantes de violência no Maranhão são resultado de dois fenômenos devastadores: a expansão do crime organizado para todo o País e a inépcia da família que governa o Estado há 45 anos

As cenas pavorosas de violência no Maranhão provocaram revolta e perplexidade, mas elas são acima de tudo o retrato de um velho fenômeno brasileiro: o crime organizado detentor de poderes sem limites. Mais do que isso: a criminalidade brutal ilustra a inépcia das autoridades. Elas falharam em conter, na década de 70, o aparecimento das primeiras facções em presídios do Rio, organizações que mais tarde se alastraram para as carceragens paulistas e depois, como uma epidemia, chegaram a inúmeros Estados. Tudo isso às vistas de governos de diversas colorações partidárias. Diversos fatores podem ser atribuídos à escalada da violência, mas o poder público, que deveria ser o escudo contra a criminalidade, teve um papel decisivo na disseminação do fenômeno. A estratégia de espalhar líderes do crime organizado para cárceres no Brasil inteiro não enfraqueceu as facções, como imaginaram os gestores da segurança, mas possibilitou a elas criar ramificações. O resultado está aí, nas imagens grotescas vindas do Maranhão.

O Maranhão revelou-se campo fértil para criminosos graças ao estilo peculiar de seus governantes. Em 2002, a candidatura presidencial de Roseana Sarney foi implodida pela descoberta de R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo no cofre de uma empresa de São Luis, a  Lunus, propriedade de sua família e de um empresário local, Luiz Carlos Cantanhede Nunes. Uma décadas depois, Cantanhede encontra-se no centro do colapso do sistema de segurança pública. Sempre amigo da família, é dono da Atlântica Segurança Técnica, empresa que já embolsou R$ 22,4 milhões do governo Roseana para prestar serviços terceirizados ao sistema carcerário. A abastada Atlântica não impediu a rebelião que produziu 59 mortos na penitenciária de Pedrinhas.

A família do ex-presidente José Sarney governa o Maranhão há 45 anos. Num Estado onde o culto à dinastia está em toda parte, vive-se sob um regime senhorial de poder sem paralelo no Brasil. O patriarca José Sarney chegou pela primeira vez ao governo de seu Estado nomeado pelos militares, em 1966. Desde então, a família asfixia a crítica e o debate a partir de um monopólio nas comunicações, com seis emissoras de tevê, dez de rádio e o jornal de maior circulação. Hoje, como ontem, o Estado continua nos últimos lugares nas estatísticas que medem o bem-estar da população brasileira.

MPL para exportação
Inspirador das manifestações de junho do ano passado no Brasil, o Movimento Passe Livre é investigado pelo governo mexicano por participar da organização de protestos no país

Ao liderar as manifestações de junho do ano passado, o Movimento Passe Livre (MPL) ganhou projeção dentro e fora do Brasil. Desde então, vieram muitos convites de grupos estrangeiros interessados em trocar experiência com os jovens responsáveis por levar milhões de pessoas às ruas e forçar governantes a desistir de aumentar tarifas do transporte público. Alguns desses convites foram aceitos. Segundo reportagem publicada há alguns dias pelo jornal mexicano “El Universal”, o MPL está participando, de forma ativa, de protestos no país. Com base em documentos obtidos junto ao governo, o jornal afirma que sete integrantes do MPL estão em solo mexicano fornecendo consultoria ao grupo PosMe Salto, cujo nome é uma referência à sua principal estratégia de manifestação: incentivar os usuários a saltar as catracas do metrô para não pagar a passagem. Os protestos do PosMe Salto, iniciados em dezembro na capital mexicana, se insurgem contra o aumento de 60% nas tarifas do metrô. De acordo com o “El Universal”, a ação do MPL representa uma violação à soberania do México.

O MPL nega participação nos protestos. “O alardeio da imprensa mexicana corresponde certamente ao incômodo que causam as crescentes mobilizações”, disse o grupo brasileiro em nota. “Atacar integrantes do MPL, que nada têm a ver com tal movimento, não reduzirá a sua força.” Apesar de declarar que não se envolveu, do ponto de vista institucional, com as manifestações, o MPL admite que alguns de seus integrantes possam ter ligações com os protestos. É o caso, segundo o “El Universal”, de Caio Martins Ferreira, estudante da Universidade de São Paulo (USP), e de Maria Aguilera. Há, inclusive, registros fotográficos deles nas manifestações. À ISTOÉ, Lucas Monteiro, um dos líderes do MPL, diz que os sete colegas estão no México “em caráter pessoal” para eventos relacionados à comemoração do 20º aniversário do levante do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).  “O movimento faz intercâmbios e já participou de encontros em vários países, como Argentina e Uruguai”, diz Lucas Monteiro. Nessas ocasiões, o tema em pauta é invariavelmente o mesmo: o processo das manifestações no Brasil. “A troca de experiência é uma coisa normal”, afirma Monteiro. “O próprio MPL espelhou-se nos movimentos antiglobalização.” 

Operação dupla
Testemunha reafirma participação de secretários de Alckmin no propinoduto dos trens e STF resolve dividir a investigação

As investigações do escândalo de corrupção na área de transporte sobre trilhos ganharam na semana passada novos desdobramentos. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), sinalizou que desmembrará o inquérito que apura o pagamento de propina a funcionários públicos e políticos. Segundo a denúncia, o dinheiro era pago por empresas interessadas em firmar contratos com o Metrô de São Paulo e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Na prática, a decisão, que só aguarda parecer da Procuradoria-Geral da República, divide a investigação.Procuradores e promotores paulistas vão investigar criminalmente apenas integrantes sem foro privilegiado do esquema perpetuado em sucessivas gestões do PSDB à frente do Estado. A outra parte da investigação permanecerá em Brasília. Nela aparecem os nomes do deputado federal Arnaldo Jardim (PPS) e dos secretários do governo Geraldo Alckmin, Edson Aparecido (PSDB); da Casa Civil, Rodrigo Garcia (DEM); do Desenvolvimento Econômico, e José Anibal (PSDB), da Energia. Os quatro foram acusados pelo ex-dirigente da Siemens, Everton Rheinheimer, de receber suborno. Em depoimento à Polícia Federal, o executivo relata ter acertado pessoalmente o pagamento de propina com Rodrigo Garcia. Na época, o secretário de Alckmin comandava a Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa de São Paulo. Everton também afirma ter negociado suborno com um intermediário do secretário de Energia, o tucano José Anibal. Todos negam qualquer envolvimento com o escândalo de corrupção.

Com o desmembramento, as investigações sobre essas e outras acusações do propinoduto devem avançar. A decisão do STF foi elogiada por promotores e procuradores paulistas. Com ela, a força-tarefa que apurou o caso desde o início e chegou aos indiciados será retomada. “Se o inquérito inteiro ficasse em Brasília, o ritmo das investigações seria outro. Corria-se o risco até da prescrição de crimes, como o de cartel”, explica um dos responsáveis pela apuração. “Enfim, podemos voltar a realizar oitivas, diligências. Há muito ainda a se investigar e novos envolvidos devem aparecer.” A decisão de repartir o caso, no entanto, levanta polêmica. No mensalão, o próprio Supremo decidiu justamente o contrário. Negou aos acusados sem foro privilegiado, como os petistas José Dirceu e Delúbio Soares, o direito de serem julgados por instâncias de primeiro e segundo grau.

Perigo nas piscinas
Morte de três crianças vítimas da sucção de bombas de água em seis dias é um alerta para a falta de segurança sob as águas. Dos 1,7 milhão de piscinas existentes no Brasil, 90% estão irregulares

Tida como fonte de diversão e alívio para o calor escaldante do verão, a piscina ganhou contornos de armadilha neste começo de ano. Em menos de uma semana, três crianças morreram em acidentes distintos depois de se verem presas pela sucção de ralos de filtragem e recirculação de água enquanto se banhavam. Mesmo com a intervenção de adultos, Kauã Santos, 7 anos, Mariana Oliveira, 8, e Naisla Cestari, 11, não conseguiram se desvencilhar da força de aspiração das máquinas e se afogaram. “A sucção é causa de cerca de 35% das mortes por afogamento em piscinas de crianças com idade entre 1 e 9 anos”, estima David Szpilman, diretor-médico da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), para quem essas tragédias ainda ocorrem porque as pessoas continuam acreditando que esses acidentes só acontecem com os outros. Com isso, a piscina acaba sendo construída e mantida com desleixo e sem respeito aos parâmetros que garantem a segurança de seus usuários.

Segundo estimativa da Sobrasa, do 1,7 milhão de piscinas existentes no Brasil, cerca de 90% estão, de alguma maneira, irregulares. O fato de o País não ter uma lei federal que regule a construção e manutenção desses espaços favorece o improviso. “O que temos são normas técnicas e algumas poucas leis municipais”, diz Eugênio Tolstoy de Simone, diretor-técnico da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). E como a fiscalização das leis, nos poucos municípios onde elas existem, é falha e as normas técnicas não têm força regulatória, há verdadeiras arapucas sob as águas.

Mas há formas, simples até, de se evitar esse tipo de acidente (leia quadro). Para quem usa piscinas coletivas, por exemplo, vale contar o número de ralos antes de mergulhar – quanto mais ralos, mais diluída a força de sucção –, além de buscar informações com o guarda-vidas sobre botões para desligamento de emergência da bomba. Questionar se os ralos são do tipo antiaprisionamento, ou seja, curvos e com grade fina o suficiente para impedir o encaixe de dedos e cabelos, também é importante. “Mas fundamental mesmo é ter sempre um responsável de olho”, diz Szpilman, da Sobrasa. Em condomínios sem guarda-vidas, os pais podem se alternar nessa função. Tudo para garantir que a diversão preferida do verão não acabe em tragédia.

O golpe de Kennedy
Gravações revelam que o presidente dos Estados Unidos cogitou uma intervenção militar no Brasil para derrubar o governo João Goulart

Meses antes do golpe militar de 1964, o Brasil esteve na mira de uma intervenção armada dos Estados Unidos. É isso o que mostram registros de conversas entre o ex-presidente americano John Kennedy, o seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e assessores. Num dos diálogos, em outubro de 1943 (46 dias antes de ser assassinado a tiros no Estado do Texas), Kennedy interrompe uma análise da conjuntura política brasileira feita pelo diplomata e o questiona sobre a possibilidade de Washington usar seu aparato militar para derrubar o governo democrático de João Goulart. “Você vê a situação indo para onde deveria? Acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?”, questiona o presidente. A resposta de Lincoln Gordon é esclarecedora: “Essa é uma outra categoria, que eu chamo de ‘contingência perigosa possivelmente requerendo uma ação rápida’. Esse é o principal problema.”

As gravações disponibilizadas ao público pelo jornalista Elio Gaspari no site recém-lançado “Arquivos da Ditadura” fazem parte do acervo da Biblioteca Kennedy e foram guardadas graças a uma decisão do ex-mandatário da Casa Branca de manter registros de diálogos para que fossem alvos de pesquisas futuras. Em outras conversas gravadas, o presidente John Kennedy e o embaixador Gordon revelam o que pensam sobre João Goulart. Para eles, Jango era um ditador populista com fortes inclinações esquerdistas. Nesse contexto, os Estados Unidos temiam que o Brasil se tornasse “uma nova Cuba” (palavras usadas pelo embaixador), colocando em risco os interesses da Casa Branca durante o ápice da Guerra Fria travada com a União Soviética. Como se sabe, a intervenção armada americana nunca saiu do papel. Em 1º de abril de 1964, forças militares nacionais depuseram o governo de João Goulart.

O movimento golpista contou com amplo apoio do sucessor de John Kennedy, Lyndon Johnson. Em uma operação conhecida como Brother Sam, uma frota com 11 navios americanos (confira quadro) foi enviada ao Brasil às vésperas do golpe militar. Antes de se aproximarem da costa brasileira, porém, as embarcações retornaram. João Goulart já havia sido deposto da presidência da República e o golpe militar estava consolidado. O regime de exceção se perpetuou por 21 anos e serviu de inspiração para uma sucessão de golpes em outras nações da América do Sul.

Um personagem contra o preconceito
Em uma interpretação primorosa na pele do vilão regenerado Félix, o ator Mateus Solano leva o tema da homossexualidade para a casa das famílias brasileiras. Especialistas explicam o que isso significa

CENA 1
- Eu gostei da Edith. Tínhamos uma relação conjugal.
- Jura? Vocês iam para a cama mesmo?
- Pra você ver que talvez eu não seja um cara assim tão definido, apesar de ter minhas preferências.
- Ué, Félix, você pode ser bissexual.
- Eu bissexual? Bichexual, né?

CENA 2
- Niko, sinceramente, não faço o seu tipo. E nem você o meu.
- Félix, você não tem tipo. Você tem pressa. Eu chamei você para dormir no quarto de hóspedes.
- Você me chamou com segundas intenções.
- Não sou esse tipo de pessoa que quer se aproveitar de alguém que chega aqui completamente por baixo.
- Por baixo? Frase de duplo sentido, hein? Quem gosta de ficar por baixo?
- Que? Eu não gosto nem de ficar por baixo.

Os diálogos acima foram travados na terça-feira 7 em um programa que, tradicionalmente, prima pelo conservadorismo, a novela das nove. Foi visto por cerca de oito milhões de famílias brasileiras, se considerada a média de audiência nacional da trama no dia, de 40 pontos. A conversa seria mais um roteiro banal de novela caso os personagens envolvidos não fossem dois homens gays que se tornaram o principal par romântico da história – Niko, papel de Thiago Fragoso, e Félix, em interpretação magistral de Mateus Solano. A despeito do formato pouco liberal, “Amor à Vida”, da Rede Globo, tem hoje o primeiro casal gay protagonista de uma novela, justamente a do horário mais nobre da grade. Segundo a Globo, telespectadores chegam a ligar para a Central de Atendimento ao Telespectador (CAT) da emissora para se manifestar a favor da dupla. Em grande parte, os louros pelo sucesso do romance são de Solano. Com uma interpretação minuciosa, pendendo ora para o humor, ora para o drama, o ator de 32 anos fez o espectador torcer para o mau-caráter que, nessa reta final, tem expurgado seus pecados de forma convincente. “Félix conquistou o telespectador como vilão por ser engraçado, emotivo, impulsivo, contraditório, como, em última análise, todos nós somos”, diz o autor Walcyr Carrasco. “A performance de Mateus Solano tem tudo a ver com o êxito da história”, afirma Maria Immacolata Lopes, coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da Universidade de São Paulo (USP).

Época

As novas confissões de adolescente
Vinte anos depois da série de TV, um filme mostra que tudo mudou. Quem é, o que pensa e como age a geração mais livre e informada da história

Maria Mariana tinha 19 anos quando decidiu abrir seus diários e mostrar o mundo dos adolescentes como ele nunca fora visto. Era 1992, e o universo juvenil – pelo menos, o pedaço feminino – estava trancafiado em agendas escondidas no criado-mudo. Decoradas com figurinhas que vinham no chiclete, imagens de galãs recortadas de revistas e versos da banda Legião Urbana, as agendas guardavam relatos inconfessáveis. Revelavam a angústia de ser preterida pela melhor amiga e o sentimento – revoltante! – de ser incompreendida pelos pais. Eram verdadeiras confissões de adolescente, que Mariana ousou revelar numa peça com o mesmo nome, em montagem acanhada na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Seu depoimento ressoou entre meninas e meninos, que se reconheceram naqueles dilemas e inquietações. “Os adolescentes se identificaram com um sentimento que eu achava que era só meu, de inadequação, e perceberam que poderiam ser eles mesmos”, diz Mariana, mais de duas décadas depois.

Aos 40 anos, Mariana hoje  é mãe de quatro filhos, preocupa-se com aquilo a que a filha de 6 anos assiste na televisão e se orgulha da maturidade da mais velha, de 13, que já tem namorado. Enquanto ela e os antigos adolescentes de sua geração descobrem como trilhar a vida adulta, novos dramas juvenis continuam a se desenrolar. Agora, em bate-papos do programa de celular WhatsApp, perfis do Facebook e contas do Twitter. Se esses dramas não são idênticos aos vividos pelo pessoal que hoje passou dos 30 anos, guardam estreita semelhança com a intensidade das emoções que só a adolescência é capaz de evocar. É para falar dessa nova geração, nascida num mundo conectado pela internet, que a versão cinematográfica de Confissões de adolescente chegou a 400 salas no fim de semana.

Marina Silva e Eduardo Campos enfrentam as primeiras dificuldades

Belo Monte, a maior obra em andamento no Brasil

Douglas Martins: "É repugnante"
O juiz do Conselho Nacional de Justiça analisa a situação no Maranhão – e diz que os governantes permitem a barbárie nos presídios porque respeitar os direitos dos presos não dá voto

Nascido há 45 anos em Presidente Dutra, cidade da região central do Maranhão, Douglas Martins, pai de sete filhos, ingressou na magistratura em 1997. Passou 13 anos em comarcas do interior do Maranhão antes de ser apresentado, em 2009, à selvageria das prisões em São Luís, quando se tornou titular da Vara de Execução Penal da capital. Nesse cargo, teve acesso privilegiado a um dos mais desumanos sistemas prisionais do Brasil. Em março do ano passado, o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, Joaquim Barbosa, o convidou para assumir a chefia das fiscalizações do CNJ nas prisões do país. Martins aceitou o desafio. No final de dezembro, produziu um relatório minucioso sobre a situação calamitosa em que vivem os presos do Complexo Presidiário de Pedrinhas, o maior do Maranhão. O presídio se tornou conhecido dos brasileiros nos últimos dias, em virtude da divulgação de imagens em que corpos de presos aparecem decapitados – vítimas, segundo as autoridades policiais, de brigas entre facções. Desde o começo de 2013, 62 presos foram assassinados nas dependências de Pedrinhas. O governo do Maranhão diz que partiram de Pedrinhas as ordens para atear fogo em cinco ônibus e numa delegacia de São Luís. Uma menina de 6 anos, que estava num dos ônibus, morreu queimada. As razões para os ataques ainda não estão claras. A crise é de tal ordem que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estuda seriamente pedir ao STF intervenção federal no Estado. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi a São Luís na semana passada oferecer ajuda para pôr fim à violência. Em meio à crise, a governadora Roseana Sarney, do PMDB, atacou nominalmente Martins, dizendo que o relatório do juiz tem como “único objetivo agravar ainda mais a situação nas unidades prisionais do Estado”. Apesar das críticas a seu trabalho, Martins disse a ÉPOCA que o relatório serviu para acordar o governo maranhense para um assunto de extrema gravidade. “A governadora saiu do  silêncio”, afirmou.

Carta Capital

Editorial: Este é o país
Das atrocidades do Maranhão até a impávida presença de Daniel Dantas e dos serviços a ele prestados por Gilmar Mendes, provas diversas do nosso atraso

Este é o país do futebol e da oligarquia ainda viva em muitos de seus recantos. Este é o país do batuque no morro e das atrocidades ocorridas nestes dias no Maranhão, feudo dos Sarney.

Este é o país do príncipe dos sociólogos, e também aquele que, conforme o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa, entre 65 países pesquisados fica em 58º lugar em matemática, 55º em leitura e 59º em ciência, superado pela maioria dos países latino-americanos. Mas o ministro da Educação fala em “grande avanço”, embora tenhamos regredido em matemática e leitura e mantido a mesma classificação em ciência no confronto com a pesquisa de três anos atrás.

Este é o país onde até jornais que apoiaram o golpe de 1964 agora descobrem, tomados de espanto, que os Estados Unidos pretenderam e participaram ativamente da derrubada de Jango Goulart, e mais participariam se preciso fosse. Da mesma forma é o país onde nomes de ditadores e dos seus apaniguados e torturadores, e de quem os apoiou, adornam pontes, viadutos, galerias, avenidas.

Este é o país que anualmente registra mais de 50 mil homicídios, baixa esta próxima do número de mortos americanos ao longo de toda a Guerra do Vietnã. Este é o país que abriga na prisão um certo grupo criminoso chamado PCC, capaz de paralisar a quarta cidade mais populosa do mundo, capital do estado de São Paulo, a ostentar a sua condição de terceira economia latino-americana.

Daniel Dantas e seu protetor
Já nas livrarias, Operação Banqueiro revela esta parceria

"Sem Gilmar Mendes, Daniel Dantas não conseguiria reverter o jogo"
Autor de "Operação Banqueiro" conta como o ministro do STF livrou o dono do Opportunity das acusações da Operação Satiagraha

Com 24 anos de carreira, Rubens Valente é um dos repórteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apuração dos fatos, fiel na interpretação dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou à investigação que resultou no livro “Operação Banqueiro” (462 páginas, R$ 44,90, Geração Editorial), um mergulho nos documentos e bastidores da Satiagraha. O subtítulo da obra resume o conteúdo escrito com habilidade e independência: “Uma trama brasileira sobre poder, chantagem, crime e corrupção. A incrível história de como o banqueiro Daniel Dantas escapou da prisão com apoio do Supremo Tribunal Federal e virou o jogo, passando de acusado a acusador”. A análise do livro pode ser lida na edição impressa de CartaCapital que chega às bancas nesta sexta-feira 10. Na entrevista a seguir, Valente fala do papel do então presidente do STF, Gilmar Mendes, na campanha contra a operação policial e a favor de Dantas e desmonta algumas versões mentirosas alimentadas com o único intuito de anular a condenação do banqueiro a 10 anos de prisão por suborno. “Operação Banqueiro” é uma ode à verdade factual e presta um grande serviço à democracia e ao jornalismo.

Maranhão etc.
As atrocidades no feudo dos Sarney, enquanto o PCC se alastra por todas as prisões do Brasil

Veja

A vitória da barbárie no Maranhão

Uma reforma ministerial para agradar aos aliados

João Paulo Cunha vai para a cadeia

Eduardo Campos descobre a dureza de ser ex-aliado do PT

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