MST deixa fazenda de senador Eunício após negociar com governo

Na negociação, o governo prometeu adquirir duas áreas com 6,5 mil hectares para assentar as cerca de três mil famílias que ocuparam, pela segunda vez, o complexo agropecuário do líder do PMDB no Senado

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) estão deixando a fazenda Santa Mônica, em Goiás, do senador Eunício Oliveira (CE), líder do PMDB no Senado. A desocupação começou ontem (7) após intermediação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Na negociação, o governo federal prometeu a aquisição de uma área com 6,5 mil hectares para assentar as cerca de três mil famílias que ocuparam a propriedade do senador.

No dia 21 de junho, os sem-terras ocuparam pela segunda vez a fazenda, um complexo agropecuário com mais de 21 mil hectares. Segundo o MST, as famílias retornaram à área após o governo não ter cumprido acordos feitos durante a reintegração de posse em março deste ano.

De acordo com o movimento, o governo havia prometido assentar 1,1 mil famílias até 60 dias depois do despejo no início do ano, além de estudo sobre a legalidade da posse de Eunício, “já que há grande volume de informações na região sobre a grilagem da área”, diz nota.

O diretor da agropecuária, Ricardo Augusto,  afirmou, à época da segunda ocupação, que entraria na Justiça para solicitar, mais uma vez, a reintegração de posse, “uma vez que a área é produtiva, conforme atesta o próprio Incra”. Por meio de nota, ele acrescentou: “Confiamos na Justiça e como já há decisão do Tribunal de Justiça de Goiás, expedida em função da ocupação anterior, acreditamos que a lei será cumprida imediatamente”.

O MDA/Incra informou que o processo para a aquisição das áreas pactuadas com o MST já está em andamento. Por meio de nota, os órgãos reiteraram que possuem o papel de intermediar o diálogo entre os movimentos sociais, o governo federal e a sociedade civil, bem como os demais poderes constituídos, respeitando a autonomia e a independência de todos.

O caso

A primeira ocupação à fazenda de Eunício ocorreu em outubro do ano passado, durante campanha eleitoral, quando o peemedebista foi derrotado pelo petista Camilo Santana no segundo turno da disputa pelo governo do Ceará. Trata-se da maior ocupação de terra já feita pelo MST. As cerca de três mil famílias se prepararam por seis meses para ocupar a área da fazenda de Eunício, que, segundo o movimento, faz parte de um “latifúndio improdutivo, comprado por meio de coerção” – fato negado pelo parlamentar.

“A matriz inicial tinha três mil hectares e foi se expandindo. O senador Eunício comprou 91 propriedades próximas por meio de transações escusas, expulsões e compras forçadas”, acusa um dos coordenadores nacionais do MST, Valdir Misnerovicz.

À época, o senador afirmou que “a ação do MST, embora política e com fins eleitorais”, seria tratada “apenas nas esferas administrativa e judicial”. Para o peemedebista, a ocupação da fazenda foi “um ato surpreendente por se tratar de uma área totalmente produtiva, implantada no es­tado de Goiás há mais de 25 anos, localizada numa região sem conflitos agrários”.

Da base aliada da presidente Dilma, Eunício foi eleito senador em 2010 e é um dos mais influentes parlamentares da Casa. Também mantém boas relações com o ex-presidente Lula, de quem foi ministro das Comunicações entre 2004 e 2005. Apesar disso e de sempre ter evitado críticas públicas ao governo e ao PT em razão da invasão de sua propriedade, o senador ficou muito irritado com a omissão de ambos no episódio. Suas maiores queixas envolveram o ex-ministro da Reforma Agrária e atual secretário-geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, que é próximo ao MST.

Para o senador, Rossetto pode ter sido complacente com a ação dos sem-terra para extrair dividendos eleitorais do fato. O fato de Eunício – empresário que também possui negócios na área de serviços de limpeza e conservação – ser um grande proprietário rural foi explorado na última campanha política cearense, vencida pelo PT.

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