Lucrativa, máfia de Cachoeira ainda atua, diz procuradora

Lea Batista de Oliveira afirma que quadrilha continua atuando mesmo com prisão de seu líder. Para ela, grupo do contraventor não reconhece autoridade do Estado e adota estratégias semelhantes às utilizadas pelas máfias

Em depoimento à CPI do Cachoeira nesta terça-feira (21), a procuradora da República Lea Batista de Oliveira afirmou que a organização criminosa comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira era "mafiosa" e ainda não foi desarticulada, mesmo com a prisão do contraventor, considerado o mentor do esquema. Responsável pela operação Monte Carlo, a procuradora explicou aos parlamentares como as investigações foram conduzidas e quais descobertas foram feitas.

Em depoimento conjunto com Lea, o procurador da República responsável pela Operação Vegas, Daniel Rezende fez coro às declarações da colega. Ele disse que o Ministério Público Federal enfrentou diversas dificuldades para conduzir as investigações, desde a falta de estrutura do MPF e da Polícia Federal até a complexidade do esquema criminosa montado. “Nossa investigação precisou ser focada em um grupo criminoso ousado que cartelizou o mercado do jogo”, disse.

Tudo sobre o caso Cachoeira

Segundo Lea, as estratégias de atuação do grupo, como o código de silêncio nos depoimentos tanto à CPI como em audiências na Justiça Federal e as constantes ameaças a autoridades, assemelham-se às adotadas pelas máfias. “Quando Cachoeira pediu a mulher em casamento ou debochou em depoimentos, fica claro que ele não reconhece a autoridade do Estado”, disse Lea, que completou: "O silêncio é um direito de todos, mas o código de silêncio adotado nos depoimentos à CPI e à Justiça Federal é típico de organizações mafiosas, quando um membro de grupo, com seu silêncio, quer defender o grupo e ser leal ao chefe".

A procuradora informou que as investigações começaram no município de Valparaíso (GO), no Entorno do Distrito Federal, a partir de denúncias anônimas. Com base nas buscas preliminares, a polícia confirmou a existência de casas de jogos ilegais no local e concluiu que o esquema só funcionava porque havia a conivência de agentes policiais. Essa parte da investigação foi realizada antes do monitoramento telefônico que flagrou, por exemplo, o ex-senador Demóstenes Torres conversando por diversas vezes com Carlinhos Cachoeira.

Ameaças

Lea relatou ainda que recebeu dois emails com ameaças a ela e sua família. As mensagens foram mandadas de Anápolis (GO), “reduto da família de Cachoeira” e local de exploração de jogos pelo seu grupo. “O certo é que a operação desvelou uma máfia, uma sociedade bem estruturada mais lucrativa que uma grande empresa. Um grupo profissionalizado, estável, permanente e habitual, montado para o cometimento de crimes de natureza grave. A sua existência por mais de uma década foi suficiente para montar uma estrutura estável e entranhada no seio do estado, inclusive com a participação e distribuição centralizada dos meios de comunicação para o desenvolvimento das atividades com o objetivo de inviabilizar a interferência das agências de persecução penal”, afirmou a procuradora.

Ela relatou ainda que uma mulher não identificada tentou invadir seu apartamento, sem sucesso, e seu carro, mesmo protegido por seguranças, foi abordado por PMs que o marcaram. Lea reforçou que ela e Daniel, além dos juízes do caso, tiveram de reforçar sua segurança pessoal, já que há indícios de que a quadrilha continua atuando.

Balanço da investigação

A representante do Ministério Público Federal apresentou, ainda, os resultados da operação que gerou oito decretos de prisão preventiva, oito decretos de prisões temporárias, 82 mandados de busca e apreensão e 45 mandados de condução coercitiva. Além disso, 45 agentes públicos foram afastados de suas funções. O Ministério Público Federal apresentou ainda, denúncia contra 80 pessoas, dentre elas dois delegados da Polícia Federal, um servidor administrativo da PF, um policial rodoviário federal, seis delegados e um agente da Policia Civil, dentre eles o então corregedor da entidade e 27 policiais militares de Goiás.

A procuradora informou que o processo está, atualmente, no prazo para que a defesa apresente as alegações finais. Na avaliação da procuradora, no entanto, a organização continua operando devido ao silêncio orquestrado por seus membros. “Enquanto não conseguirmos sufocar a organização ela continuará atuando, independente da prisão do chefe dela ou não”, afirmou.

Ela disse ainda, que as investigações esclareceram a estrutura “piramidal” do grupo criminoso que pretendia cartelizar o funcionamento dos jogos de azar em Goiás, com o apoio de agentes públicos das esferas estadual, municipal e federal. “Ficou clara a existência de uma estrutura central e hierarquizada com a distribuição da renda para os membros. E, para se perpetuar por anos a fio em locais conhecidos e modo mais ou menos explícito, a atividade criminosa conectou-se a agentes do Estado. [...] Agentes públicos responsáveis pela persecução foram ainda utilizados para eliminar concorrentes e pessoas que não estavam cumprindo com as determinações do grupo, viabilizando o exercício do grupo de um claro controle territorial”, disse.

A procuradora classificou a organização como “criminosa, armada, complexa, altamente organizada e ousada”.

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