Barbosa toma posse em meio a incertezas do mercado financeiro

Novo ministro da Fazenda passou fim de semana preparando transição e, nesta segunda, tentou acalmar os ânimos dos investidores. Temor do mercado financeiro é de retorno à política econômica de Guido Mantega

Com a nomeação como chefe do Ministério da Fazenda já publicada no Diário Oficial nesta segunda-feira (21), o ex-ministro do Planejamento Nelson Barbosa vai tomar posse às 17h, no Palácio do Planalto, envolto por incertezas do mercado financeiro sobre sua gestão. O temor de investidores, nacionais e internacionais, é um retrocesso do país ao modelo de política econômica que, sob condução de Guido Mantega e, obviamente, da presidente Dilma Rousseff, levou o Brasil a uma das mais graves crises fiscais dos últimos tempos, com retração da atividade industrial, alta do dólar e dos juros e inflação de volta aos dois dígitos (10,48% no acumulado em 12 meses).

Para tentar acalmar os ânimos do mercado, Barbosa começou os trabalhos já neste fim de semana, quando reuniu em Brasília membros da equipe econômica para dar início ao processo de transição para a nova pasta. Hoje (segunda, 21), continuou a tarefa por meio de conferências virtuais e mais reuniões com investidores, com o objetivo de assegurar que o país vai manter a política de ajuste fiscal implementada pelo antecessor, Joaquim Levy, cujo anúncio de exoneração da Fazenda foi antecipado na sexta-feira (18).

“Acertamos com o Congresso Nacional a redução da meta de 0,7% para 0,5% do PIB, com uma margem para investimentos, mas a decisão terminou não sendo essa. Mesmo assim, vamos perseguir esse objetivo [0,5% do PIB] e fazer os ajustes”, declarou Barbosa, depois de teleconferência conduzida pelo banco norte-americano J.P. Morgan, líder mundial em serviços financeiros. Levy defendia uma meta maior que 0,7% – e, como este site mostrou em 11 de dezembro, travou uma queda de braço sobre a meta com Barbosa com reflexos à Comissão Mista do Orçamento do Congresso.

Barbosa também garantiu aos investidores que não haverá mudanças na política econômica. Além dos compromissos com o ajuste fiscal, frisou o ministro, o governo manterá o combate à alta inflacionária. O Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou a meta de inflação em 4,5% para 2016 e 2017, com limite de tolerância de 2 pontos percentuais, no próximo ano, 1,5 ponto em 2017. Mas, de acordo com o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (21), o mercado financeiro considera inflação de 6,87% para o próximo ano, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Fator PT

Mais alinhado à política econômica sem o mesmo rigor com o gasto público, Barbosa foi bem recebido por setores de partidos como PT e PCdoB, defensores do aumento de despesas com programas sociais (Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida etc) e do aumento de impostos para as classes com mais poder aquisitivo. Nos bastidores, comenta-se que o ex-presidente Lula atuou para derrubar Levy. Nesse contexto, os rumores sobre a retomada do antigo modelo econômico – com redução de impostos para fabricantes e o estímulo ao consumo e à liberação de crédito – têm provocado, desde sexta-feira, impacto nas bolsas de valores, com queda de desempenho.

Além de garantir que manterá os compromissos de Levy com o equilíbrio fiscal, Barbosa prometeu por em campo “todas as medidas necessárias” para alcançar a meta fiscal de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2016. Com o orçamento para o próximo ano já aprovado para o próximo ano, o novo ministro da Fazenda terá de lidar com um caixa reduzido para cobrir déficit fiscal – projeção de queda da atividade econômica (-1,9%) para 2016 e dívida pública em alta (71,1% do PIB, segundo o conceito de dívida bruta do governo, que abrange todos os passivos da administração pública, valor 12 pontos percentuais superior ao apurado em 2014).

Na peça orçamentária aprovada pelo Congresso na quinta-feira (17), foram operados cortes em praticamente todos os órgãos públicos, em todos os poderes, com a meta de reverter o déficit primário do texto original elaborado pelo governo (R$ 30,5 bilhões) e viabiliza o orçamento com superávit de R$ 24 bilhões previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), projeto aprovado no mesmo dia. As estimativas para o 2016, por parte de economistas e analistas de mercado, são de um ano com muitas dificuldades para a economia e para a atividade industrial, dificultando-se a missão de retomada do crescimento econômico.

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