Altos risos na Alta Casa

Piadinhas e gracejos são rotina nos sérios debates da Casa. Senadores dizem que bom humor não só alivia a tensão como também é forma de defender e enfatizar seus pontos de vista perante os parlamentares e a população


Redução da maioridade penal: Suplicy grita "pá-pá-pá" em rap dos Racionais MCs

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Fábio Góis
 
Prorrogação da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Análise de processos por quebra de decoro parlamentar movidos no Conselho de Ética contra Renan Calheiros (PMDB-AL). Audiência pública para discutir a carga tributária brasileira. Apreciação de pautas em sessões deliberativas no plenário do Senado.
 

Os assuntos listados acima, dada à sua inegável relevância, devem ser tratados com seriedade e certa formalidade pelos senadores designados para tanto, não é mesmo? Sim, certamente. O fórum em que são debatidos (o Senado Federal, “Alta Casa” legislativa), bem como a própria função de debatê-los, imprime um ar solene aos trabalhos, sem falar da característica imponência e formalidade do Legislativo, certo? Sem dúvida. E obviamente não haveria lugar, em meio aos sérios debates, para troca de piadas e gracejos zombeteiros por parte dos senadores, certo?
 
Errado.
 
Em um fenômeno cada vez mais recorrente no Parlamento, o espírito humorístico de nossos senadores tem ganhado espaço cada vez maior no dia-a-dia legislativo. Não importam quais sejam os assuntos em pauta ou o ambiente em que estes estejam sob apreciação, têm sido cada vez mais recorrentes as piadinhas, as ironias e as alfinetadas bem-humoradas entre os colegas de Senado. Suas Excelências surpreendem pelo vasto repertório de ditos espirituosos e das tiradas inteligentes, que contrastam com a sisudez de seus ternos bem costurados.
 
Oportunidades não faltam, devido à ampla gama de divergências ideológicas e pessoais entre os senadores – o combustível das “gracinhas”. Pode-se inferir que, para manifestar seus pontos de vista de uma forma, digamos, mais leve, ou mesmo para disfarçar uma eventual irritação, eles preferem recorrer ao bom humor e às simpáticas provocações. Talvez assim consigam ao menos a projeção de suas idéias.
 
A equipe de reportagem do Congresso em Foco, que acompanha o dia-a-dia do parlamento quase em tempo integral, registrou os melhores e piores momentos de descontração e galhofa do Senado, mesmo os breves e os de pouca repercussão.
 
Digamos... artística
 
Um dos filmetes mais vistos – e engraçados – do ano tem o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) como protagonista e está disponível no site de vídeos YouTube. Veiculado pela TV Senado em abril deste ano – e, claro, depois reproduzido ad infinitum em pela internet –, o filme mostra o petista declamando a música “O homem na estrada”, do grupo de rap nacional Racionais MC’s.
 
O senador criticava de forma, digamos, artística a proposta de emenda à Constituição que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, aprovada momentos antes na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Assunto sério, ambiente idem. Mas o bom humor pediu passagem e se instalou entre os membros da CCJ.
 
Não se tratou de simples declamação: à medida que a letra da música evoluía, Suplicy a enriquecia com gestos e onomatopéias que até hoje fazem rir. Aliás, no vídeo, vê-se o único parlamentar que se manteve impávido, sisudo, e não riu diante da performance de Suplicy: o contrito senador Jefferson Péres. Destaque para os momentos em que o pai do cantor Eduardo Suplicy, o Supla, simulou um tiroteio e proferiu sonoros “pá-pá-pás”, para delírio de seus colegas (assista).
 
O filme da TV Senado foi um dos indicados ao prêmio “Web Hit”, o sucesso da internet no Vídeo Music Brasil, premiação anual dos melhores do mundo da música realizada pela MTV em 27 de setembro. A categoria foi criada neste ano pela emissora. Alguns dizem que a MTV a criou em razão do espetáculo assinado por Suplicy.
 
Para registro: a sessão na CCJ foi presidida pelo senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), que morreu em julho deste ano. ACM não se conteve e, mesmo na condição de presidente do colegiado, deu gargalhadas durante o “show” de seu companheiro de Senado, ex-lutador de boxe nascido em família tradicional, a Matarazzo Suplicy. Com seus mais de 1,90m e sotaque típico da Grande São Paulo, o senador Suplicy é um dos petistas mais em evidência no Parlamento atualmente.
 
Eduardo Suplicy defende o lado espirituoso dos senadores. Para ele, driblar a sisudez por meio de brincadeiras saudáveis e palavras simpáticas acaba se tornando imperativo no ambiente de trabalho. “Acho positivo. A discussão em alto nível permite que a troca de idéias seja entremeada de palavras e ações bem-humoradas. Isso torna o trabalho mais agradável”, afirmou ele ao Congresso em Foco. “É importante que a relação entre os senadores se dê de forma cortês, com uma ou outra palavra de gracejo, de bom humor.”
 
Questionado sobre qual seria a reação da opinião pública aos “gracejos” em meio a temas sérios, Suplicy foi categórico. “Nesses casos, o bom humor é acompanhado de inteligência, de argumentação”, disse, lembrando que as piadas e brincadeiras sem maldade não impedem que os debates atinjam seus objetivos. Aliás, lembra o senador, até ajudam. “É bem melhor do que ficarmos trocando insultos, agressões.”
 
Ironia fina
 
Outro grande momento de humor afiado também foi registrado na CCJ. Era dia crucial para a tramitação da CPMF na comissão, que votaria – e rejeitaria – o relatório apresentado pela senadora Kátia Abreu (DEM-TO), crítica contumaz da alta carga tributaria brasileira. Rica pecuarista de Tocantins, a sempre elegante Kátia foi um dos destaques da oposição, que conseguiu extinguir o tributo. Entre os colegas, foi apelidada de “a Ivete Sangalo do Senado”, numa menção elogiosa à bela cantora baiana.
 
Depois de ter ouvido a líder do PT no Senado e governista de carteirinha, Ideli Salvatti (SC), explanar suas razões em favor do tributo, o senador oposicionista Flexa Ribeiro (PSDB-PA), conhecido por seu agudo sotaque nortista, pediu a palavra. Ele ia começar a falar quando notou que Ideli se retirava da sala, alegando que “uma urgência surgiu” em seu gabinete.
 
“Senadora Ideli, eu esperei tanto ouvir o pronunciamento de Vossa Excelência, e, quando vou falar, a senhora vai embora?”, ironizou, interpelando a colega, que explicou a razão da saída e mandou um beijinho com as mãos para Flexa. “Eu tinha esperança de reverter o voto de Vossa Excelência”, insistiu o senador, levando todos ao riso. Conhecido por seus rompantes irreverentes, com ironias sutis que às vezes mais confundem do que esclarecem, resignou-se e ficou a fitar, por trás das lentes de seu inseparável óculos, a senadora deixar a sala.
 
Mas Flexa Ribeiro não pararia por aí. Deu continuidade à argumentação contra a aprovação da matéria, e falava do caráter “perdulário” do governo Lula quando apontou o excesso de ministérios, comparando Brasil e Suíça. “A Suíça, que é um país de primeiro mundo, só tem sete ministérios. Nós temos 37!”, exclamou o senador.
 
E completou, dirigindo-se ao petista Eduardo Suplicy (SP): “Senador Suplicy, se Vossa Excelência me disser o nome dos 37 ministros, eu mudo meu voto. Não precisa dizer nem o nome dos Ministérios, porque aí fica difícil”, brincou, em mais um momento de risadas generalizadas. Suplicy se limitou a esboçar um leve sorriso. E a nada dizer.
 
À reportagem, Flexa disse que, em relação à troca de gracejos com Ideli Salvatti, a ironia foi uma forma elegante de manifestar divergências. “Às vezes você pode até pensar que é brincadeira, mas não, é ironia. Quando você quer um debate mais aprofundado e a outra parte não aceita, então ela fala o que quer, mas na hora de ouvir se retira. Fala o que pensa, mas não fica para o contraponto”, explicou.
 
Flexa concorda com Suplicy na defesa do bom humor para tratar assuntos polêmicos. “Acho que você ameniza o clima, que, aqui no Senado, tem estado muito tenso. Você faz com que a coisa possa fluir com mais tranqüilidade. Até porque, com a convivência permanente, diária entre os senadores, as divergências ideológicas, politico-partidárias, devem ser tratadas de acordo com a visão de cada parlamentar. Você tem que distender a relação”, ponderou. “É bom para evitar episódios e atritos que vão acima do necessário.”
 
Humor gigante
 
Figura facilmente identificável por onde passa, com seus 1,95m e vasta cabeleira encaracolada, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) é um dos mais espirituosos políticos da Casa. Com estilo bonachão e leve sotaque carioca, transita pelos corredores do Senado a passos (muito) largos, embora quase sempre serenamente, sem pressa. Mesmo com firmeza na defesa de suas convicções ideológicas ou partidárias, sempre encontra uma brecha para colocações bem-humoradas e irônicas.
 
Uma delas aconteceu no dia 29 de novembro, no plenário do Senado, durante a segunda sessão deliberativa para discutir, antes da votação (que se deu no início da madrugada do dia 13 de dezembro), a PEC da CPMF. Wellington discursava na tribuna, com elogios à administração “competente e sortuda” do presidente Lula. Assunto sério, situação idem. Mas, como quase tudo na vida, vulneráveis à graça.
 
“É difícil falar mal do ‘homem’, porque ele administra bem. Se vocês [oposição] entrarem lá, vai sair gás ou água”, disse Wellington, referindo-se à suposta sorte de Lula pela nova fonte de petróleo descoberta neste governo, há cerca de dois meses, na Bacia de Campos (litoral do Espírito Santos).
 
Por vezes, Wellington recebia apartes irônicos de colegas como Heráclito Fortes (DEM-PI) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA), quando disse que a discussão da CPMF o faria “perder os cabelos e ficar igual ao senador Flexa Ribeiro”, que é careca. Mencionado, Flexa citou o artigo 14 do regimento e pediu a palavra.
 
“Gostaria de saber do senador Wellington Salgado o que ele tem contra os deficientes capilares”, disse o tucano, para a descontração geral – à exceção de Wellington. “Nós não temos a sorte que ele tem de ter uma vasta cabeleira. Aliás, não sei quem copia quem, se a senadora Ideli [Salvatti, PT-SC] o copia, ou se ele copia a senadora Ideli. De costas, a gente confunde”, ironizou Flexa, referindo-se às supostas semelhanças “capilares” entre Wellington e a senadora, que tem pouco mais da metade da altura do senador peemedebista, mas se assemelha a Wellington na encaracolada cabeleira.
 
Wellington não deve ter gostado muito da comparação, mas manteve o humor inteligente. “Pensei que estivéssemos falando de coisa séria. Estamos aqui discutindo CPMF. E o ‘C’, senador Flexa Ribeiro, não é de ‘capilar’”, rebateu, dirigindo-se a Flexa Ribeiro.
 
Enfartados
 
Ao Congresso em Foco, Wellington defendeu o uso do humor na casa como forma de manter a saúde dos parlamentares. “Pelo que nós passamos nesses últimos seis meses, [sem bom humor] já teríamos aqui uns 15 enfartados. Se acabar com o bom humor dos senadores, teremos que montar um ambulatório no Senado”, exagerou, com o mesmo bom humor que tanto manifesta na Casa. “Você acha que a TV Senado teria audiência se não houvesse um Mão Santa [PMDB-PI]?”, questionou, lembrando a forma pausada e enfática como o peemedebista se refere ao seu estado, o “P-I-A-U-Í”.
 
Os escândalos envolvendo o senador Renan Calheiros e a discussão da CPMF causaram muita tensão, na visão do senador. “Passamos por coisas muito tensas. Se não tivermos um jeito de tratá-las com bom humor fica ainda mais difícil”, disse. Entretanto, Wellington criticou piadinhas mais ácidas. “O problema é um Heráclito Fortes [DEM-PI], com ironias que parecem punhaladas. Às vezes, ele fala em tom de brincadeira, mas de uma forma muito firme. Mas isso é válido”, comentou o “gigante”. “Às vezes há certos excessos, mas tem que ter uma pitada de vez em quando, para manter o equilíbrio. Em assunto sério não pode haver brincadeira, como saúde, CPMF etc.”
 
Gari e balde
 
Heráclito, parlamentar de voz tonitruante que por vezes estremece as paredes do plenário, é costumeiro nas declarações hilárias. No dia da posse do novo presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), em 12 de dezembro, ele comentou novas características que qualificariam seu colega para comandar a Casa.
 
Diante dos momentos delicados por que passou a Alta Casa em 2007 – em razão das denúncias contra o senador Renan Calheiros, absolvido por seus pares –, Heráclito concluiu metaforicamente o que a opinião pública manifestava: a “sujeira” tinha se instalado no Senado. Ora, se a Casa está suja, pensou Heráclito, que seja feita uma limpeza. “E o senador Garibaldi é o nome ideal para limpar o Senado: é ‘gari’ e ‘baldi’”, declarou o parlamentar do DEM, numa higiênica assimilação do nome de Garibaldi ao instrumento de limpeza (balde) e ao profissional do ramo (gari) que o utiliza.         
 
Matusalém
 
Era mais uma tarde de discussões no Senado, dias antes da queda da CPMF no início da madrugada daquela fatídica quinta-feira (13). No meio de debates, apartes e leitura de pautas – o célere Tião Viana (PT-AC), então presidente interino da Casa, fazia isso com destreza inconteste –, um dinâmico Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, costurava acordos e articulava os interesses do Planalto com as Excelências da Casa.
 
Calado, mas atento, Tasso Jereissati (PSDB-CE) percebia a desenvoltura de Jucá, que honrava a incumbência a que fora submetido. Líder por líder, Tasso também já fora presidente nacional de seu partido, e então se sentiu na condição de proferir a seguinte pérola, já que Jucá fora líder do governo também na era do tucano Fernando Henrique Cardoso:
 
“O senador Romero Jucá é notável. Já está há 120 anos na liderança do governo, tendo passado por todos os partidos”, ironizou o tucano, levando às gargalhadas seus nobres pares e quebrando de vez a monotonia do ambiente. A TV Senado, que registrava a sessão e filmava o aparte de Jereissati, cortou a cena para Jucá, que se fartava de rir no meio do plenário.
 
Voz de veludo
 
A Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) também foi palco da graça que grassa na “Câmara Alta” da República. Em reunião com os membros da CCT no dia 12 de dezembro, o presidente do colegiado, Wellington Salgado, saudou o senador Flávio Arns (PT-PR), que voltava à Casa após se submeter a uma cirurgia.
 
Doce, Wellington Salgado (PMDB-MG) elogiou a voz do colega paranaense, que, por sua vez, agradeceu aos médicos que o atenderam por não ter tido comprometimento nas cordas vocais após a intervenção cirúrgica. “O senador Marcelo Crivella [PRB-RJ] disse que essa cirurgia deveria ser indicada ao Roberto Carlos, pois a sua voz ficou ainda melhor”, brincou Salgado.
 
Sempre espirituoso, Heráclito Fortes provocou o senador mineiro. “Gostaria que ficasse registrada nos anais do Senado a fixação de Vossa Excelência pela voz do senador Flávio Arns”, disse o piauiense, que não perdeu a oportunidade de desferir suas “ironias-punhalada”, como classifica Wellington. Dessa vez, convenhamos, punhal foi trocado por alfinete.
 
Rindo, Salgado entrou na brincadeira: “A essa altura do campeonato, com a idade e o histórico que tenho nesse sentido, eu posso elogiar sem preocupação a voz do senador Flávio Arns”. Ninguém duvidou. Afinal, são quase dois metros de encrenca...
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