Em sua defesa, Demóstenes recorre à fé e ao samba

Em audiência de mais de quatro horas de duração no Conselho de Ética, senador negou todas as acusações, mas não convenceu à maior parte dos membros do colegiado

Colecionador de antigos discos de vinil e apreciador da música popular brasileira, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) recorreu a um samba de Ismael Silva, Nem é bom falar (escute aqui o clássico), para tentar convencer seus colegas do Conselho de Ética da sua inocência. Demóstenes socorreu-se de Ismael Silva para se classificar como um falastrão, que diria ao bicheiro Carlinhos Cachoeira ser capaz de fazer coisas que na verdade não fazia.

A frase usada por Demóstenes é o início da letra do sambista, nascido em 1905 e morto em 1978: “Nem tudo o que se diz se faz”. De fato, o samba parece mesmo ter a ver com a situação de Demóstenes, mas não apenas pelo primeiro verso lembrado por ele. “Nem tudo o que se diz se faz / eu digo e serei capaz / de não resistir / nem é bom falar / se a orgia se acabar”, diz o samba, na sequência. E completa mais adiante, num trecho que, pelas acusações contra Demóstenes, poderia ser atribuído ao próprio Cachoeira: “Por falares tanto / A polícia quer saber / Se eu dou meu dinheiro todo a você”.

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A música de Ismael Silva deu a cadência da defesa de Demóstenes. O primeiro verso foi citado três vezes pelo senador ao longo de sua fala que durou quase duas horas. Ao argumentar que falava uma coisa e fazia outra, o senador chegou mesmo a admitir que assim agia como parlamentar, na forma dura como exigia um comportamento ético dos seus colegas. “Não sei se hoje estou pagando por isso”, chegou a dizer.

Além do samba, Demóstenes procurou sensibilizar seus colegas valend0-se da religião e da sua situação pessoal. "Sou um carola", disse, em determinado momento. "Vivo o pior momento da minha vida", afirmou, em outro. O senador estava sereno e seguro e, na avaliação de alguns parlamentares, talvez tenha mesmo conseguido angariar simpatia de outros senadores, mas não entre os integrantes do Conselho de Ética. No conselho, onde o voto é aberto, é dada como certa sua cassação. No plenário, onde o voto é secreto, porém, não há tanta segurança.

Demóstenes recorreu aos inquéritos da Operação Monte Carlo para tentar comprovar que não participou de nenhum esquema de jogos ilegais. Ele, porém, admitiu ser amigo de Cachoeira e não pode negar que ganhou dele um celular/rádio Nextel sem, porém, dar uma explicação convincente para a necessidade de tal presente. Questionado pelo relator de seu caso no Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-PE), revelou um desconhecimento sobre as atividades notórias de Cachoeira que provavelmente ele não aceitaria antes em outros senadores. Disse desconhecer completamente que Cachoeira fosse um contraventor e explorasse o jogo ilegal. Afirmou ignorar mesmo que o bicheiro tinha sido indiciado depois das investigações do próprio Congresso na CPI dos Bingos. Demóstenes foi membro suplente da CPI dos Bingos.

Segundo Demóstenes, ele teria conhecido Cachoeira quando era secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, em 1995. Eis o ponto principal do depoimento, que norteou quase todas as intervenções: com o conhecimento jurídico e a experiência acumulada em um órgão de segurança pública, como poderia Demóstenes ter passado a ignorar que o amigo continuava a praticar irregularidades, sob o disfarce de empresário em Goiás? O senador disse que, como secretário de Segurança, chefiou diversas ações do governo para reprimir o jogo ilegal, mas, ao mesmo tempo, dizia desconhecer que Cachoeira era o principal chefe dessa atividade no estado.

Nextel

Também não convenceu aos senadores no Conselho de Ética as explicações de Demóstenes sobre o aparelho Nextel que ganhou de Cachoeira. O senador disse que nunca supôs que o aparelho seria à prova de grampos e que não foi essa a razão para começar a usar o rádio/celular. Segundo ele, aceitou o aparelho pelo fato de ele funcionar em praticamente qualquer lugar do mundo. Não explicou por que, então, ele mesmo não comprou o aparelho. Ou por que aceitava que a conta do celular fosse paga por Cachoeira.

O senador Randolfe Rodrigues (Psol-AP) afirmou, no depoimento, que a mera aceitação do presente e do pagamento da conta por qualquer pessoa estranha – ainda mais sendo um contraventor – já seria quebra de decoro. Demóstenes relativizou, atribuindo um valor ao decoro parlamentar. “Uma conta de R$ 40, R$ 50?”, questionou. “Mesmo que fosse R$ 1”, respondeu Randolfe.

“Hoje eu vejo que foi um erro. Eu não imaginava a dimensão que isso teria. Mas não tinha lanterna na popa e nem tinha como adivinhar que isso seria usado para outros fins. [...] Eu também não poderia imaginar jamais que 40 ou mais pessoas tinham esses rádios”, disse.

O rádio/celular não foi a única coisa que Demóstenes admitiu ter ganho de Cachoeira. Foi também o bicheiro quem pagou os fogos de artifício usados na festa de formatura da mulher do senador, Flávia. Além dos aparelhos de cozinha dados, segundo Demóstenes, como presente de casamento, houve um outro presente: um aparelho de som, avaliado em R$ 27 mil.

Demóstenes empenhou-se, no entanto, em tentar demonstrar que não teria recebido valores em dinheiro de Cachoeira. Ele entregou cópia de extrato de suas contas bancárias para provar que não teria recebido depósitos do bicheiro.

Lobby parlamentar

Ele também procurou demonstrar não ter usado o mandato para favorecer interesses de Cachoeira em atividades do Congresso. Segundo o senador, a conversa sobre o projeto de lei que legaliza a atividade dos bingos aconteceu, mas que não tinha interesse de fazer lobby para aprovação da proposição. “Eu não tomei nenhuma providência em relação a isso. O projeto continua onde sempre esteve. E eu acho que as maiores testemunhas disso são meus próprios colegas que nunca me viram conversar sobre essa questão dos jogos. Que lobista sou eu que nunca procurei nenhum outro colega senador para discutir a legalização dos jogos?”, disse.

O senador confirmou que foi à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pedir em favor da empresa farmacêutica de Cachoeira , mas garantiu que repetia essa conduta para várias empresas de Goiás, de forma “republicana”. “Nem tudo que se diz, se faz. Às vezes, para se livrar de um interlocutor, de uma conversa. Muita coisa não aconteceu porque eu não fui atrás. Eu fazia isso por gentileza, como fazia com muitos outros.” Demóstenes disse ainda que nunca usou aviões de Cachoeira, ou pagos pelo empresário, mas admitiu que utilizou aeronaves cedidas por “empresários e amigos”.

O senador falou ainda sobre as centenas de telefonemas trocados entre ele e Cachoeira. De acordo com a Polícia Federal, foram 416 telefonemas, mas Demóstenes disse que o número é “pequeno” em relação ao total de ligações feitas no período da operação, que seriam em torno de 200 mil.

Delta

Demóstenes também recorreu aos inquéritos para afirmar que não teve nenhum envolvimento com a direção da empresa Delta, cujo filial no Centro-Oeste faria parte do esquema comandado por Cachoeira. Para o senador, a ideia de que ele seria sócio oculto da empresa é um factóide,  e que o próprio presidente afastado da empresa, Fernando Cavendish, negou em entrevista conhecer o senador. “Como eu posso ser sócio de alguém que eu não conheço? O sócio oculto da Delta não sou eu. Se tem algum sócio oculto da Delta, procurem com uma lupa maior.”

Colaborou Fábio Góis

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