Colunistas

Valdemar Costa Neto e eu

“Perguntei com a falsa inocência que jovens repórteres sabem fingir como ninguém: por que é tão importante ter a diretoria? Por quê?, espantou-se Valdemar. São R$ 2 bi por ano, minha filha”

No breve período em que vivi em Brasília como repórter do finado JB, cobrindo Congresso Nacional – fim do último ano do governo Itamar e primeiro de FHC –, tive como fonte o então líder do PL, Valdemar Costa Neto. Fonte de informação – que fique claro! Na época, ele exercia seu segundo mandato como deputado federal.

Quem o apresentou a mim foi a minha melhor amiga à época, a queridíssima Carmen Kozak, que já não está mais entre nós e muita falta faz a este mundo. Uma noite, Carmem, minha colega de JB, pediu para eu acompanhá-la a um jantar com uma fonte. Ela não queria ir sozinha.e implorou por companhia. Nem precisava tanto. Recém-chegada à cidade, eu não tinha mesmo nada melhor para fazer. Fui.

Minha primeira surpresa foi dar de cara com Valdemar Costa Neto, de quem ouvira falar pela primeira vez alguns meses antes, quando o então presidente Itamar Franco pagou o mico histórico de posar ao lado de uma modelo sem calcinha em pleno sambródromo, no Carnaval do Rio. Como eu estava cobrindo esse Carnaval pelo jornal, vi – literalmente – tudo. E foi Valdemar o responsável por levar Lílian Ramos, que desfilara como destaque em escola de samba, para dentro do camarote em que estava o presidente.

A segunda surpresa da noite foi ver o apetite que o personagem em questão demonstrava por cargos no governo que se iniciava. A criatura não tinha papas na língua. Deu ótimos bastidores, abriu o jogo sobre a relação dos tucanos com o Congresso em geral e com o baixo clero em particular. Falava tudo com uma naturalidade espantosa. Eu, que ainda não estava habituada com Brasília, achei aquele jantar uma experiência quase antropológica.

Depois disso, Valdemar tornou-se também fonte minha. Conversávamos com alguma frequência. Fernando Henrique fazia jogo duro para ceder espaços de poder ao PL, o que acabaria levando o partido para a oposição. Waldemar queixava-se abertamente comigo. Decifrava as nomeações publicadas no Diário Oficial. “Este foi a bancada ruralista quem indicou. Este outro foram os evangélicos”. Eu, claro, checava as informações e as que ele me passavam eram na mosca. Não me lembro de nenhuma dica errada do Boy, como o deputado era conhecido em Mogi das Cruzes, seu reduto eleitoral em São Paulo. Como em toda relação fonte-repórter, é óbvio que ele me usava – e vice-versa. É do jogo. Do mesmo jeito que não existe almoço de graça, não há informação sem interesse.

Foi numa conversa dessas que se travou um dos diálogos mais curiosos da minha carreira profissional. Lembro-me como se fosse hoje, era uma sexta-feira ensolarada, almoçávamos eu, o deputado e um assessor dele, o carioca Porfírio, em algum restaurante de clube em Brasília. Valdemar contava que o partido estava a um fio de romper com o governo. A bancada que ele liderava havia pedido a nomeação do novo diretor financeiro da Telesp. Boy dizia que se o pedido não fosse atendido, seria o fim.

Na época, a telefonia ainda era estatal, obter uma linha fixa era tão caro e difícil que as pessoas as declaravam no Imposto de Renda. Os celulares ainda eram tijolões acessíveis a poucos. Eu mesma, salvo engano, ainda usava o Bip dado pelo jornal na época!

Valdemar parecia realmente transtornado com a possibilidade de não ganhar a tal diretoria da Telesp. Foi quando perguntei, com a falsa inocência que jovens repórteres sabem fingir como ninguém:

– Mas, líder, por que é tão importante ter a diretoria financeira da Telesp?

– Por quê?! – espantou-se Valdemar. Você por acaso sabe qual o orçamento da Telesp? São R$ 2 bi por ano, minha filha. Dois bilhões por ano – frisou, pontuando os cifrões.

– Entendi – respondei, bem loura. Mas o que o partido quer fazer com esses R$ 2 bilhões?

Foi quando a ficha do deputado finalmente caiu. Não, ele não estava falando com um dos seus. Refeito do transe temporário em que entrara, saiu-se bem:

– Telefones públicos, ora! Orelhões! Muitos orelhões para as comunidades carentes! Você sabe quantos votos isso representa?

Essa história aconteceu em 1995. Dezesseis anos se passaram. De lá pra cá, Valdemar se reelegeu quatro vezes, envolveu-se no escândalo do mensalão, renunciou, separou-se escandalosamente da socialite Maria Cristina Mendes Caldeira e voltou ao poder.

Até outro dia, mandava e desmandava no Ministério dos Transportes – dono de um orçamento bem mais generoso que a velha Telesp que ele tanto queria no governo FH.

O que Valdemar ambicionava com tantas nomeações no Ministério dos Transportes? Ora, mas que pergunta! Ele queria fazer estradas, contribuir para o desenvolvimento do país, encurtar as distâncias entre o povo!

Você sabe quantos votos isso representa?!

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Sobre o autor

Daniella Sholl

Daniella Sholl

* Jornalista formada na PUC-RJ (1990), é master em Jornalismo Internacional pela Universidade de Cardiff (1996) e tem MBA em Marketing pela Copeead-UFRJ (2007). Começou a trabalhar em redações em 1988, tendo passado pelo jornal O Dia, Jornal do Brasil (Rio e Brasília) e TV Bandeirantes. Trabalhou em diversas campanhas eleitorais e atua desde 2002 na área de assessoria de comunicação e imagem.

Outros textos de Daniella Sholl.

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