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O dever da felicidade na sociedade da irritação e do suplício, na fábula moderna da internet

Na rede mundial de computadores, todo mundo tem que ser feliz! Mas, por quê? Beth Veloso comenta o tema no Papo de Futuro desta semana

O comentário de Beth Veloso veiculado originalmente no Papo de Futuro, da Rádio Câmara, com Paulo Triollo:

Uma das minhas inúmeras atividades é a de professora! Bem, tudo é muito novo, mas eu adoro a ideia de aprender, ensinando. Porque é isso que acontece, principalmente quando a gente ensina a ser criativo, ou melhor, a escrever de maneira criativa, como é o meu desafio! Não tem receita, a não ser a de usar muitas metáforas, mas, na verdade, ser criativo faz parte de uma inteligência emocional que a gente não aprende nos livros. É preciso:

1) sair das caixinhas, ou seja, embaralhar tudo!
2) fazer conexões (ou sinapses, no nome técnico) e a internet é ótima para inventar moda
3) e, pelo amor de Deus, senso de humor! Até a taxa de imunoglobulina aumenta com o humor, que dirá a criatividade! E ser criativo é também fugir dos padrões e modismos, exatamente esses perpetuados em figurinhas digitais na internet. Quanta preguiça!

Um livro me dá arrepios quando a gente tenta remediar a doença de sermos felizes, bonitinhos, caridosos, zen budistas o tempo todo, encarnando uma pseudo natureza humana inexequível, essa tal felicidade, que é rasgada numa preocupação de que, apenas o esforço para não sofrer, já nos causa sofrimento.

Andrew Fysh/Creative Commons/EBC

“Na internet, é proibido ser infeliz!”, ironiza Beth Veloso

Em A Euforia Perpétua, livro que vale centenas de comentários, Pascal Bruckner fala de uma estranha fábula: a de uma sociedade inteiramente voltada para o hedonismo e para a qual tudo se torna irritação, suplício. Tradução: infelicidade não é mais somente infelicidade, é o fracasso da felicidade.

Em resumo, na internet, é proibido ser infeliz! No real, ninguém tem controle sobre a própria felicidade, mas a ordem burguesa nos diz: mediocridade, platitude, vulgaridade. Tão atual nos parecem tais valores no espaço virtual, não?

Queremos alinhar nossos prazeres, triunfar na vida profana e moldar a felicidade numa generalidade oca que faz de nossos frágeis sentimentos um verdadeiro entorpecente coletivo ao qual todos devem se entregar. Bem, A Euforia Perpétua poderia ser a anti-Bíblia da era moderna, se não fosse simplesmente genial como antítese ao dever da felicidade selado na gangorra de “like” hoje e amigos bloqueados amanhã.

Nesse culto à felicidade banalizada, o funil da alegria se torna o buraco negro do universo falso moralista: “eu amo demais a vida para querer ser apenas feliz!”, já dizia o filósofo francês Mirabeau. Bruckner diz que o que nos leva a maldizer a banalidade, como nos microblogs e videoblogs, é o mesmo que nos leva a aceitá-la: a felicidade acaba quando a infelicidade começa. E não há Facebook, Instagram, Snapchat que resolva esta contradição.

Mande suas dúvidas, críticas e sugestões para papodefuturo@camara.leg.br.

Coluna produzida originalmente para o programa Papo de Futuro, da Rádio Câmara. Pode haver diferença entre o áudio e o texto.

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Sobre o autor

Beth Veloso

Beth Veloso

* Jornalista e consultora legislativa da Câmara dos Deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia. Apresenta a coluna "Papo de Futuro" todas as terças-feiras, às 9h, no programa Com a Palavra, da Rádio Câmara FM.

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