Quinta, 23 de Maio de 2013

Colunistas

Crise no Minc: cultura & irrelevância

“Aqui, a história não só não se transforma em farsa porque a “chanchada” preenche mais adequadamente o conceito de como se dá o processo cultural no país”

Até que enfim alguém resolve botar o dedo na ferida e constatar o óbvio: que “há uma crise no Ministério da Cultura”. Em artigo para a Carta Maior, Saul Leblon toca em alguns pontos chave, advertindo que há o perigo de simplificar a natureza de um impasse pouco discutido e ainda menos entendido fora do círculo de iniciados, interessados e quejandos. Em qualquer crise, o rebaixamento das causas pulveriza as consequências, gerando uma compreensão superficial do assunto.

O fato é que arte e cultura perderam a relevância social e política, sobretudo a partir dos anos 90, devido precisamente à mercantilização de bens, produtos e produtores de arte e cultura não só no Brasil, mas em todo mundo. Mas aqui, em razão das nossas fragilidades culturais históricas, a coisa se agudiza e a história não só não se transforma em farsa porque a “chanchada” preenche mais adequadamente o conceito de como se dá o processo cultural no país.

Um dos nomes da crise atual no MinC é Ana de Hollanda, titular da pasta criada em 1985, no governo Sarney. Segundo seus críticos, faltaria ao ministério ousadia e convicção para reposicionar o país em sintonia com as novas possibilidades, agendas e desafios da produção cultural, notadamente em relação à política de direitos autorais, além da revisão da “lei do patrocínio”, algo que engessa e atrela a política cultural brasileira aos interesses privados.

O jornalismo afivelado à ditadura dos anos 80 costumava seguir uma receita ilustrativa do papel desdenhoso tradicionalmente reservado à cultura na sociedade brasileira: compunha-se de conservadorismo extremo na área da economia; liberalismo bocó na cobertura política e um vale-tudo na cultura. O menosprezo pelo papel da cultura na vida e no desenvolvimento de um povo não é recente, tampouco exclusividade brasileira e muito menos específico dos períodos ditatoriais. De forma que, como seria inevitável, o descaso persiste na política atual, seja ela qual for.

Degradar tevês educativas é outro traço do nosso, digamos, perfil. Não obstante, aconteceu com a BBC na Inglaterra de Cameron, está acontecendo na Espanha de Rajoy, e na São Paulo tucana, cuja tevê pública vive mais um capítulo dum agônico e prolongado crepúsculo financeiro e conceitual. Pior ainda, no Brasil, no auge do ciclo neoliberal, a relação antagônica entre cultura e conservadorismo foi agravada pela assimilação do MinC ao espírito da época. E o engessamento herdado desse período dificilmente será rompido.

No governo FHC, o ministério da Cultura tucano adotou o lema “cultura é um bom negócio” (bom negócio para quem, cara pálida?). Adaptou o regime local de mecenato para a terceirização da política cultural, sustentada pela renúncia fiscal dos fundos públicos. Se as telecomunicações, as estradas e os minérios estavam sendo privatizados, fatalmente a cultura idem. Mas a questão se problematiza porque se privatizam bens simbólicos, impalpáveis, donde que a instância de julgamento crítico se extingue, dando passagem ao arbítrio autista, perverso, medíocre e burro.

O regime de patrocínio cultural – que combina renúncia pública e dívida privada – foi instituído no governo Collor. E a exemplo de outras práticas ‘desregulatórias’ (que o titular da “República das Alagoas” foi “impedido” de implantar), teve seu auge no governo dos “banqueiros intelectuais” e professores tucanos, que aplicaram à Cultura um persistente arrocho orçamentário. Em média, nos anos 90, coube ao MinC minguados R$ 230 milhões ao ano. O torniquete revelou-se funcional ao jogar compulsoriamente a sobrevivência das artes ao arbítrio das fundações de prestígio e fachada, que passaram a deter a prerrogativa de selecionar o que deve ou não chegar aos olhos, ouvidos, corações e mentes do imaginário nacional.

No governo Lula, o orçamento do Ministério da Cultura foi multiplicado por dez, girando hoje em torno de R$ 2 bi. O salto relativo é indiscutível. Mas o valor absoluto está longe de ser suficiente para abolir a senzala da terceirização que determina a cultura do país. Há nessa assimetria uma demolidora e silenciosa crise da cultura que as erupções atuais pouco abordam. Os oito anos de governo Lula, de qualquer forma, acumularam avanços na área que a fraqueza atual do MinC colocam em risco.

Sob a gestão de Ana de Holanda, as linhas de passagem erguidas entre o mecenato neoliberal e a construção de uma política verdadeiramente democrática de financiamento cultural foram perdendo sustentação progressiva, incluindo-se a mobilização para modificar a Lei Rouanet, que seria alvo de uma restauração conservadora dentro e fora do próprio ministério. Segundo Leblon, a crise é tão profunda que a simples troca do titular da pasta não será suficiente para revertê-la.

Sem dúvida, diante do atual estado da cultura, a meu ver, é totalmente indiferente quem ou o quê ocupe o Ministério. É deixar como está, deixar quieto: a cultura definitivamente relegada à irrelevância.

Sobre o autor

Márcia Denser

Márcia Denser

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos de Márcia Denser.

5 Comentários

  1. marcelo mirisola disse:

    Oi, Márcia. Acabei de linkar sua crônica na minha página do facebook.
    Um beijo,
    MM

    Responder
  2. tavinho paes disse:

    MÁRCIA,
    estou indicando uma amiga carioca muito inteligente, ligada e concientemente crítica (poeta das mais sofisticadas – escreve em ingl~es e traduz poemas para este idioma com uma delicaza mister) para receber suas newsletters semanais: PHYLLIS HUBER
    Phyllis, vc que gosta de gente que pensa, esta é uma amiga paulista (jornalista, poeta e escritora) que preenche os requisitos (rsrsrsrs).
    Seus textos são sempre polêmicos, ainda mais vindos de uma Mulher com M maiúsculo!
    como este úlçtimo >> http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/jogos-de-guerra/
    Márcia: inclua minha amiga

    tavinho paes

    Responder
  3. jeferson barbosa da silva disse:

    Caríssima Márcia,
    Ainda que concorde com tua avaliação crítica, na paulada de hoje, no “Congresso em Foco”, veja você que é bem pior, ainda, muito mais canalha e abominável, aquele ambiente que você, hoje, nos enfiou na cara…
    Qualquer Jornalista que ousar, em qualquer veículo, órgão ou instância desafiar a Grande Quadrilha do Poder, tentando dar alguma informação verdadeira, há de ser defenestrado, inapelavelmente…
    No campo da Cultura, principalmente!
    Aqui: Biblioteca Nacional!!!!
    Ou, não?
    Abraço,
    Garoeiro

    Responder
  4. Afonso disse:

    A seguinte nota foi publicada no dia 24 de março, na coluna de Ivan Santos, no Correio de Uberlândia:

    Ministra na marca do pênalti

    Ana de Hollanda, ministra da Cultura do Brasil, está na marca do pênalti para ser chutada. Parece até um corpo estranho no centro do poder político em Brasília. Para certa mídia interessada, é ela incompetente. Por que carga tão pesada contra a ministra? Primeiro, ela não é filiada ao PT nem a nenhum partido da Base. Será por isto que há tantas forças ocultas interessadas na demissão dela? Quem tiver conhecimento para ler hieróglifos e souber interpretar parábolas, pode entender por que tantas cabeças coroadas estão preocupadas com a ministra da Cultura. Recentemente, um terço da influente Comissão de Cultura do Senado, composta por 27 senadores, aprovou um convite à ministra para ouvi-la sobre temas de “máximo interesse social”. Antes, é bom saber que há no Congresso mais de 200 parlamentares donos de emissoras de rádio ou de televisão. Donos diretamente, donos por meio de parentes ou de laranjas. As emissoras dos políticos devem ao ECAD – entidade que arrecada direitos autorais – mais de R$ 1 bilhão. Devem, não pagam e não dão explicação. O ECAD nunca teve coragem de cobrar as dívidas dos “senhores da República”. Agora, com apoio da ministra da Cultura, o ECAD passou a cobrar os direitos autorais e ameaça levar as emissoras dos poderosos à Justiça. Então a ministra é incompetente! Deu pra entender por que alguns intelectuais a serviço de donos de emissoras pedem a cabeça de Ana de Hollanda?
    Posted by Antonio Cicero

    Responder
  5. Olavo Léver disse:

    Acho que a Ana de Hollanda não tem estatura para o MINC. Outra coisa é o motivo pelo qual agora está sendo crucificada: interesses das redes de tv que não foram satisfeitos. Foi a Associação Brasileira de TVs por Assinatura (ABTA), que querendo reduzir custos e aumentar lucros, criou o facto. A matéria EXCLUSIVO: Ana de Hollanda no país do Ecad, de Jotabê Ribeiro (que engraçado), matéria muito suspeita, deu início à avacalhação Ela apareceu no site norturno http://www.farofafa.com.br/2012/03/12/ministerio-do-ecad/3496 e no Yahoo. Por mais que eu ache a ministra medíocre, não pude deixar de achar a matéria ainda mais medíocre. O eixo está em fingir perplexidade (mesma linha do advogado da ABTA) em relação ao fato das semelhanças entre pareceres do MINC e do ECAD. Escandalizar-se com isso é o mesmo que ficar abestalhado por descobrir que em engenharia e em matemática pura 2+2 formam 4. Se o parecer legal do MINC coincide com o do ECAD é porque a base legal é a mesma. Márcia, se liga.

    Responder

Deixe um comentário

Publicidade Publicidade