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O tiro pela culatra do comandante do Exército

"O que precisamos é de mais democracia e justiça, com muita força e participação popular. Quem está na função militar da ativa deve se preservar de manifestações politicas com intuitos, inclusive, partidários"

Na noite da última terça feira (03), às vésperas do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que decidiu pela não concessão de habeas corpus preventivo para o ex-presidente Lula, o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, publicizou comentários em “repúdio à impunidade”. O militar sugeriu veladamente que o Exército poderia agir a depender do resultado do julgamento, agindo como indutor de violência entre os brasileiros, incentivando os mais desequilibrados a se insurgir contra a Constituição.

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Anteriormente, o general da reserva Luís Gonzaga Schroeder Lessa já havia incentivado a violência. O ex-oficial afirmou que “vai ter derramamento de sangue, infelizmente, é isso que a gente receia.” Disse ainda que essa crise “vai ser resolvida a bala”.

Até os mais corruptos, no discurso, são contra a impunidade. Um general da ativa se manifestar num momento como esse para falar o óbvio e, de maneira indireta, dar um “toque” no Supremo Tribunal Federal para avisar – inclusive aos seus de farda – que não está alheio a essas demandas é absolutamente negativo e reprovável. E, como bem lembrou a economista Laura Carvalho em seu twitter, contrário ao próprio Regime Disciplinar do Exército.

Reprodução Wikipédia

"O militar sugeriu veladamente que o Exército poderia agir a depender do resultado do julgamento"

Ninguém é contra a paz, que não existe sem justiça social e nós todos defendemos a democracia. Bandos de extrema-direita – incentivados por figuras do mundo político e agora das forças armadas – ameaçam a democracia brasileira. Não abriremos mão dos direitos democráticos e da necessidade premente da união de todos os setores progressistas e democráticos em uma frente contra a violência, o fascismo e a escalada autoritária.

O Brasil está sobressaltado com o assassinato da nossa vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, o que desmonta a ideia de que a intervenção militar no Rio de Janeiro teria vindo para coibir a violência. Soma-se a isso o atentado a bala contra a comitiva de Lula, no Sul do país. O quadro é de uma escalada de violência política inédita desde a redemocratização. As declarações do general Villas Boas só aprofundam esse contexto.

Felizmente, também temos militares pregando o óbvio numa democracia, o respeito à Constituição. Um dia após a manifestação do comandante do Exército, Nivaldo Rossato, chefe da Aeronáutica, disse em boletim interno que “militares não devem colocar convicções próprias acima das instituições”. Lembrou ainda que militares da ativa e da reserva “devem seguir fielmente a Constituição”.

O que precisamos é de mais democracia e justiça, com muita força e participação popular. Quem está na função militar da ativa deve se preservar de manifestações politicas com intuitos, inclusive, partidários.

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Sobre o autor

Chico Alencar

Chico Alencar

* Formado na Juventude Estudantil Católica, participou ativamente do movimento comunitário do Rio de Janeiro nos anos 80. Professor de Prática do Ensino de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é autor de 25 livros. Foi vereador e deputado estadual pelo PT. Está em seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados (Psol-RJ). No pleito de 2010, foi o segundo deputado federal mais votado do estado, com 240.724 votos.

Outros textos de Chico Alencar.

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