Colunistas

Dói muito

"O Brasil está na UTI e muitos dos causadores da doença que o colocou nesta situação são justamente os que não têm sensibilidade humana e solidariedade à dor alheia", diz autor em relação às mensagens de ódio enviadas para a cantora Tati Quebra Barraco, após o assassinato de seu filho
Como sou médico, vou usar um paralelo: a conjuntura brasileira muda de seis em seis horas, como, às vezes, ocorre com um paciente internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O paciente toma medicamentos e, dependendo da gravidade, a evolução clínica pode ter variações horárias ou diárias. Assim está a nossa conjuntura, tanto que o país está na UTI, e necessita de atenção de hora em hora.
O Brasil está na UTI com um comprometimento geral e necessitando de muita atenção. Seu corpo político, econômico, institucional, legal, moral, humanitário e cultural está doente. Deixando de lado alguns dos sintomas e sinais dessa doença, como a política e a economia, dedico-me  à
questão humanitária e cultural.
O UOL, no último dia 11, publicou uma matéria com o título ”Após morte de filho, Tati Quebra Barraco diz que tiroteio ’nunca ocorreu’”. Não entro no mérito se houve ou não tiroteio, se foi ou não assassinato, mas sim na questão cultural e humanitária.

Tati Quebra Barraco é uma cantora de funk que vive na Cidade de Deus, que ficou conhecida no mundo todo após o filme de mesmo nome. Cidade de Deus surgiu nos anos de 1960, momento em que o Brasil vivia uma grave crise que evoluiu para um Estado de exceção, uma ditadura.

Divulgação

Filho de cantora foi morto a tiros em confronto com a polícia na Cidade de Deus, no Rio

Na madrugada de domingo, dia 11, seu filho Yuri Lourenço da Silva, de 19 anos, foi morto a tiros. Sobre esta morte muitas matérias foram feitas em diversos órgãos de imprensa. Li poucas, e não vou entrar no mérito de nenhuma. Registro, sim, a desumanidade dos comentários, por isso cito o artigo.

Antes de fazer qualquer comentário, deixo claro que até este momento (assassinato do Yuri), nunca tinha ouvido falar da Tati Quebra Barraco. Também não conheço nenhuma música de funk ou qualquer funkeiro ou funkeira. Tampouco conheço a história da origem do funk e sua cultura. Portanto, sobre este tema, sou um alienado, porém não preconceituoso.

Muitas pessoas, sem conhecer a história e a cultura, as negam de maneira preconceituosa. E atacam não só a música, mas também seus autores e autoras. É bom que se saiba, o preconceito nega o humanismo e a solidariedade.

O texto da matéria que mencionei acima registra a indignação da artista e aborda uma nota publicada no Facebook de Tati: “Nas últimas horas, as redes sociais da artista têm recebido centenas de comentários de ódio e completamente desumanos. Repudiamos o desrespeito à tragédia que é qualquer mãe ter que enterrar um filho”.

Parece que a matéria não tocou o coração ou a sensibilidade humana de muita gente, pois há comentários preconceituosos ao final do texto. Não vou identificar quem postou, até porque em muitas vezes, por medo de processos, o ‘comentarista’ não usa seu nome verdadeiro. Registro somente dois, que, por preconceitos, não respeitam a dor de Tati:

1) “Artista?? …Esta aí, imagino a índole. Só pela sua alcunha dá pra avaliar o caráter da pessoa”;
2) ”Olha só o nome artístico: “Tati Quebra Barraco”. Precisa comentar algo????”Diz Tati que a morte do filho ”está doendo muito”. Só quem perde um filho ou uma filha sabe o tamanho da dor e a incapacidade de descrevê-la, e sabe também que há momentos em que se imagina que não será capaz de superar esta dor. A dor aumenta quando os desumanos, que são muitos, passam a agredir as pessoas que sofrem.

A cada morte aumenta a dor dos que querem um mundo justo, igualitário e de liberdade. O Brasil está na UTI e muitos dos causadores da doença que o colocou nesta situação são justamente os que não têm sensibilidade humana e solidariedade à dor alheia.

E pior, a doença do preconceito, desumanidade e intolerância é difícil de curar e ela se agravou no momento, pois novamente estamos vivendo num Estado de Exceção.

Tati, minha solidariedade

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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