Quinta, 30 de Março de 2017

Diálogos Congresso em Foco: atores sociais se reúnem em Brasília por soluções contra a crise

Plataformas e entidades da sociedade civil se envolvem em uma discussão preliminar multitemática às vésperas do fórum de debates, a ser realizado em março

Fábio Góis/Congresso em Foco

A que ponto chegamos: na época do impeachment, frase pichada no “muro da vergonha” traduzia a crise que persiste e está na mira do Diálogos Congresso em Foco

 

Na noite da última terça-feira (7), enquanto Câmara e Senado se encaminhavam para o encerramento do dia, reunia-se em Brasília um núcleo de discussão que, formado pelos principais protagonistas da sociedade civil organizada na capital federal, tem muito a contribuir com um dos propósitos do Diálogos Congresso em Foco – fórum de debates que, em sua segunda edição, busca caminhos contra a crise múltipla que se instalou no país. O anfitrião do encontro, realizado em uma casa a poucos quilômetros do Congresso, foi Everardo de Aguiar Lopes, líder do grupo DF em Movimento – “rede que agrega a diversidade da expressão política, cultural e social do DF; uma praça pública de diálogo”, como define a página da entidade do Facebook. A conclusão geral foi a seguinte: é hora de mudar o país para melhor, sem esperar que autoridades o façam.

Ao falar ao Congresso em Foco sobre alternativas contra o atual mal-estar nacional, Everardo acabou por resumir, na condição de motivador social, como pode contribuir para o debate – a começar pela simples ação de juntar pessoas com o mesmo propósito, o bem-estar social. “Posso me colocar à disposição. Posso, além de participar ativamente, convidar o máximo possível de pessoas”, diz, traduzindo o espírito do Diálogos.

Everardo faz menção à rede de discussões que ganha força em Brasília em ano pré-eleitoral, no contexto em que o avanço das investigações da Operação Lava Jato se contrapõem às expectativas de partidos com potenciais presidenciáveis para 2018. Uma das convidadas para a noite de debates foi Jovita José Rosa, servidora pública federal que está à frente do projeto Adote um Distrital, canal interativo que promove o controle das atividades parlamentares na capital federal. Ela falou à reportagem como vê as iniciativas populares de combate à crise.

“A participação da sociedade é fundamental. Mas ela tem que perceber que a participação dela não é somente na hora do voto, mas apenas começa na hora do voto. Ela tem que acompanhar”, disse Jovita, uma das principais protagonistas da elaboração da Lei da Ficha Limpa. Ela acrescenta que o foco das reivindicações deve ser sempre o bem comum.

“Nos países onde as políticas públicas acontecem a contento, para satisfazer a população, é onde a população mais participa. Se a população não participa ou participa apenas na hora do voto, para pegar um emprego, por exemplo, pensando no próprio umbigo, a situação ainda vai demorar muito para ser resolvida. Da mesma forma que a gente cobra do político, para que ele pensar uma política pública coletiva, a sociedade também tem que pensar coletivamente”, arrematou.

Na mesma linha segue Guilherme Brandão, diretor de Projetos do Observatório Social de Brasília – associação civil sem fins lucrativos que promove a transparência e o controle social dos gastos públicos no Distrito Federal. Para Guilherme, os atores sociais não podem esperar que políticos ou partidos resolvam os problemas da sociedade, muito embora tenham sido eleitos para desempenhar funções nesse sentido. O momento favorece o protagonismo da sociedade, diz.

“Não é que ela pode; ela deve. Como nunca antes a sociedade foi convocada a tomar as rédeas da organização política nacional. Essa aparente polarização obriga a sociedade a repensar qual seu papel em relação ao poder”, observou Guilherme, ressaltando a importância de fóruns como o Diálogos Congresso em Foco.

“Isso que a gente está fazendo é reunir pessoas que tenham interesse, tenham potencial, a clareza de identificar que os sistemas eleitoral e partidário, como um estão montados, não vão funcionar para o Brasil que a gente quer”, pontuou o ativista, para quem a ação também é essencial.

“Qual a solução que estamos propondo? Conversa, diálogos e propostas efetivas – não propostas baseadas em ideologias criadas a 20, 30, 50 anos atrás, mas propostas baseadas no que a gente conhece do DF [Distrito Federal], no que a gente vê, e no que as pessoas já estão fazendo, e obtendo resultado. O Observatório é um exemplo disso”, completou, destacando as ações de transparência e controle social desenvolvidas pela entidade.

Proação

Uma das idealizadoras do Íthaka – espaço de “soluções para o bem estar das pessoas” localizado no Plano Piloto –, Bia Barros concorda com Guilherme. Para ela, o ideal é que as pessoas não esperem pela ação das autoridades e passem elas mesmas a realizar.

“Tudo começa em nós mesmos. A partir da auto-responsabilidade – parar com a transferência das responsabilidades individuais para o Estado, para quem for. Claro que o Estado tem suas responsabilidades, mas nós temos, antes de mais nada, que nos posicionarmos como agentes ativos na sociedade, dentro do que a gente pode fazer agora, já, aqui”, resumiu Bia, que divide com a sócia e cofundadora do Ithaka Suzana Dalet a condução do empreendimento.

Idealizador do Projeto Brasil 2030, plataforma que busca colaboradores para enfrentar a multifacetada crise do país, André Rafael demonstra otimismo. Para ele, há diversos exemplos a demonstrar que o país tem jeito – falta “um itenzinho”, avalia.

“O povo brasileiro já está se movimentando. Temos que parar um pouquinho para perceber a quantidade de coisa boa que já ocorreu neste Brasil nos últimos anos, e que está sendo feita neste momento. Este encontro aqui, por exemplo, que reúne diversas plataformas, já mostra o número significativo de iniciativas inspiradoras”, declarou André. “Se a gente parar e olhar para o lado, vamos chegar à conclusão de que não tem por que estar dando errado. Nós só precisamos descobrir qual é o ‘itenzinho’ que está faltando.”

André aproveitou para dirigir ao Congresso em Foco a seguinte provocação: “Vocês que têm esse apelo tão grande no Congresso Nacional, na sociedade brasileira, que está discutindo e pensando política, vamos verificar um pouco: por que desde 1988 a gente deixou lá [na Constituição] registrado, como síntese da [Assembleia Nacional] Constituinte, os quatro objetivos fundamentais da República? E por que até hoje a gente os trata como se fossem um mero registro na Constituição? O que falta para abraçarmos aqueles objetivos, que sintetizaram toda a compreensão daquele mosaico que foi a Constituinte?”, indagou.

Para facilitar o trabalho do leitor que ainda não sabe do que se trata, o site pontua nesta reportagem a que preceitos constitucionais André faz referência. São eles: a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a promoção do desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e da marginalização, além da redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem estar dos brasileiros sem qualquer tipo de preconceito ou discriminação.

 

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