Delator diz ter feito repasses para ter “bom relacionamento” com Paulinho da Força

Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Paulo Pereira é réu no STF

Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, afirmou ter repassado verbas para o deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP) – mais conhecido como Paulinho da Força – em forma de doações oficiais nas campanhas eleitorais de 2010 e 2012. Ouvido como testemunha de acusação na ação penal relacionada à 26ª fase da Operação Lava Jato, o empresário enfatizou, respondendo ao questionamento de uma das advogadas, que o pagamento direcionado à legenda do parlamentar foi uma maneira de manter um bom relacionamento com o líder da Força Sindical.

Em nota (leia a íntegra abaixo) divulgada na tarde desta sexta-feira (17), Paulinho da Força refutou as acusações e declarou que “o Solidariedade nunca recebeu qualquer recurso ilícito, muito menos da UTC ou de Ricardo Pessoa durante o período de criação do partido”.

“Nunca compactuei com condutas inadequadas ou falta de ética, em mais de 30 anos de atividades como sindicalista e na minha vida pública. A Operação Lava Jato tem tido um papel histórico na descoberta de novos casos de corrupção no Brasil. Ao lado de outros agentes públicos, tenho defendido incansavelmente as mudanças necessárias para o país avançar”, disse o sindicalista em nota.

Também prestaram depoimento ontem (quinta, 16) o ex-diretor financeiro da UTC, Walmir Pinheiro e o lobista e ex-executivo da empreiteira Engevix, Milton Pascowitch. Ambos tem acordo de delação premiada. As demais testemunhas serão ouvidas pelo Ministério Público (MP) na próxima semana.

Um dos mais aguerridos defensores do impeachment de Dilma, Paulo Pereira é réu na Ação Penal 965, que apura desvio de recursos do BNDES, desvendado pela PF na Operação Santa Tereza. Ele também é investigado nos inquéritos 2905 e 3901 por peculato e corrupção passiva.

Operação Xepa

Pessoa foi ouvido em audiência feita para investigar os atos de 12 réus da 26ª fase da operação, batizada de Xepa, que indiciou, por exemplo, o empresário Marcelo Odebrecht; o marqueteiro João Santana e sua esposa, Mônica Moura; e o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Nesta etapa da investigação, a força-tarefa da Lava Jato apura detalhes sobre o setor interno da Odebrecht criado para organizar como seriam feitos os pagamentos de propina em obras de diversos setores, inclusive os projetos ligados à Petrobras. Ainda de acordo com Pessoa, parte do montante desviado de contratos da estatal era depositado, a pedido de Vaccari, diretamente na conta do Partido dos Trabalhadores.

“No caso do João Vaccari, a grande absoluta maioria, quase absoluta, era depositada nas contas do Partido dos Trabalhadores. A maioria no Diretório Nacional. Como eu mencionei, na minha colaboração, se não me recordo em torno de 2 milhões e 900 em espécie para Vaccari, ao longo desse período que nós trabalhamos nesse sentido”, explicou.

O ex-UTC também confirmou pagamentos ao ex-deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP). No caso de Costa Neto, as vantagens ilícitas foram entregues para manter relacionamento com o Ministério dos Transportes.

“O interesse na contribuição ao Valdemar Costa Neto era manter o interesse na relaçao com o Ministério dos Transportes abertos e iniciando. Porque nessa época, em 2010, o grupo UTC adquiriu o Constran e nós queríamos reestabelecer o relacionamento com o Ministério dos Transportes. Por isso que me aproximei do Valdemar Costa Neto que era o comandante do partido PR que tinha o domínio sobre o Ministério dos Transportes, essa é a verdade”, afirma.

A seguir, leia trechos do depoimento de Ricardo Pessoa:

Sérgio Moro: o senhor sabe se outras empresas da Petrobras, na época o senhor sabia se elas também pagavam comissões ou propina?

Ricardo Pessoa: era lógica de mercado que quase todos os fornecedores pagavam comissões e propinas. Não acho que abrangeu todos os fornecedores. Mas se você tinha já um canal aberto e que envolvia essa contribuição de pagamento de propina acho difícil dizer que paga nesse, não paga no outro. No caso do grupo Engevix ele. Era um modus operandi, um status quo que existia.

Em um trecho, em que Ricardo Pessoa responde a questionamentos de advogados, ele menciona valores a Paulinho da Força:

Adv: O senhor afirma que nos anos de 2010 e 2012 fez algumas doações para o Paulinho da Força. O senhor confirma essa informação?
Ricardo Pessoa: Confirmo.
Adv: Esses pagamentos, segundo declarado pelo senhor no mesmo termo (de delação premiada), teria um objetivo de manter um bom relacionamento com o líder da Força Sindical. O senhor confirma essa informação?
Ricardo Pessoa:Confirmo.
Adv: Esse pagamento foi feito por fora ou por fora?
Ricardo Pessoa: Foi oficialmente na campanha do partido, não sei se é Solidariedade eu acho.
Adv: Nos anos de 2010 e 2012?
Ricardo Pessoa: Sim, senhora.

Abaixo, segue a íntegra da nota enviada pelo presidente do Solidariedade:

NOTA OFICIAL – PARTIDO SOLIDARIEDADE.

“Tomei conhecimento através da imprensa, nesta sexta-feira, 17, sobre o que o que alguns veículos chamam de “propinas” em forma de doação oficial da UTC para o Solidariedade.

Esclareço mais uma vez que o Solidariedade nunca recebeu qualquer recurso ilícito, muito menos da UTC ou de Ricardo Pessoa durante o período de criação do partido. Nunca compactuei com condutas inadequadas ou falta de ética, em mais de 30 anos de atividades como sindicalista e na minha vida pública.

A Operação Lava Jato tem tido um papel histórico na descoberta de novos casos de corrupção no Brasil. Ao lado de outros agentes públicos, tenho defendido incansavelmente as mudanças necessárias para o país avançar.

Todas as contribuições recebidas pelo meu partido foram declaradas à Justiça Eleitoral e estão nas minhas prestações de campanha.

Paulo Pereira da Silva (Paulinho da Força)
Presidente do Solidariedade e deputado federal”

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