A fotografia como valorização e preservação da memória no candomblé

Desde sua invenção a fotografia surge como uma extensão da visão humana devido à possibilidade da materialização, de um determinado momento, através da objetiva. Se para uns a fotografia é uma técnica/arte de produzir imagens pela ação da luz; para outros a força de uma fotografia está em conservar os instantes do fluxo normal do tempo.

O ato de produzir memórias, para além da escrita, esteve também relacionado à concepção de fotografar devido ao valor atribuído a esta prática. A memória, por sua vez, está relacionada não só a um momento do passado, mas acima de tudo do presente quando nós acionamos as lembranças.

Portanto, a memória também é um processo de identificação social, cultural e histórico, na medida em que o passado e a memória não só se conservam, mas também se constroem. É sob esta perspectiva que pretendo abordar a fotografia de terreiro, pois a fotografia foi, e ainda é, um importante instrumento de documentação que possibilitou a construção e materialização da memória do povo-de-santo em forma de imagem.

Apesar de a tradição do culto aos orixás estar fundamentada nos princípios da oralidade, seus adeptos mantêm uma antiga relação com a fotografia. Essa relação está representada nos retratos das paredes dos terreiros onde está exposta a árvore genealógica espiritual criada a partir da Diáspora Africana.

As pesquisas sobre a Diáspora constataram a existência da Árvore do Esquecimento onde os africanos que viriam a ser escravizados nas Américas eram obrigados a dar voltas em torno dela para que perdessem a sua memória e com ela todo o seu passado, origem e identidade cultural.

Contudo, não se poderia imaginar tamanha fé e resistência, pois os africanos aqui escravizados não só resistiram e recriaram suas divindades, como também estabeleceram novas formas de cultuá-las repassando adiante o conhecimento sobre línguas, ritos, mitos, diferentes culturas e religiões, aos seus descendentes no Brasil.

Com isso, podemos dizer que as voltas na árvore do esquecimento tiveram uma espécie de efeito contrário e possibilitou não só a criação de uma nova memória, mas também de uma nova árvore visando reconstruir o vínculo familiar perdido, a árvore genealógica dos terreiros.

Foto do Ilè Àjagúnà Asé Ògún Mejéjé do Babalorixá Beto D’Osogyán (in memorian)
Mariana Maiara/Arquivo pessoal
Como vemos, a parede com retratos da origem familiar, localizada na sala do Ilè Àjagúnà Asé Ògún Mejéjé, é uma demonstração de reverência, respeito e valorização da ancestralidade para a comunidade da casa de candomblé.

Sendo assim, é interessante notarmos que a fotografia também possibilita dinâmicas de interação social e autoidentificação na medida em que membros e visitantes visualizam as fotos e vivenciam em tempo presente as festividades.

No terreiro, a interação social se revela na intensa produção de narrativas como forma de valorizar a trajetória dos antepassados e autoidentificação se apresenta na (res)significação da imagem negativa a qual os negros e adeptos foram submetidos ao longo dos séculos. O fato de as pessoas do terreiro se verem nas fotografias dotadas de indumentárias e insígnias de seus orixás permite a representação visual de uma história religiosa.

Como fotógrafa, acredito que essa identificação só é possível devido a uma construção de uma linguagem fotográfica e de uma percepção de que a fotografia é um veículo de transformação social. Por fim, ao produzir uma documentação fotográfica de celebrações religiosas, culturais e históricas, demostramos a relevância da população negra na construção da história e da cultura brasileira.

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