Um país em queda livre

Por Jean Paul Prates*

Desde 1º de janeiro de 2019, é raro o dia em que o Brasil não vai dormir espantado com algum despautério, desaforo, abuso ou infração cometida pelo homem a quem 57 milhões de eleitores decidiram confiar o posto de presidente da República.

Ameaças à ordem constitucional? Temos. Desfile de tanques, xingamentos à mãe de um ministro da Suprema Corte? Idem. Descrédito ao processo eleitoral que o elegeu? Vazamento de inquérito sigilosos da Polícia Federal? Tem, sim senhor.

E o bufão, o que é? É o sujeito que deveria estar governando o País, mas acha que tomar posse foi um movimento que se completou naquele desfile em carro aberto com um filho adulto na cadeirinha, protegido por snipers postados nos telhados da Esplanada e repórteres confinados em cercadinhos, sem direito a água ou toalete.

E lá se vão 956 dias sem que o Brasil tenha um governante de fato — um fastio pelo trabalho que fica ainda mais incompreensível diante da compulsão em tramar enredos para se perpetuar no cargo.
O País está em queda livre. Nunca é demais lembrar: são 567 mil os mortos na pandemia. A inflação nos últimos 12 meses é de 9%. O contingente de desempregados é de 15 milhões de trabalhadores. Os famintos são 19 milhões e nada menos do que metade da população — 110 milhões de pessoas — vivem a angústia da insegurança alimentar, ou seja, não têm certeza da próxima refeição.

O homem eleito para governar o País dá de ombros diante de toda essa tragédia. “Quer que faça o quê?”. Afinal, ele não é coveiro, não é economista, nem é governante de fato.

Como sempre esperei o pior de Bolsonaro, não me espanto. Ainda que ele se finja de inimputável, não vai conseguir evitar o momento de prestar contas à nação pelos atos e omissões que que foram decisivos para escavar esse abismo.

Tão grave quanto os descalabros do presidente é a condescendência que ele encontra em setores não-bolsonaristas da imprensa, dos Poderes e da elite.

Neste coliseu de horrores, há três tipos de plateia. Há os francamente indignados, lutando pelo fim da encenação, há a turba extasiada que pede bis e há os constrangidos com a estética, mas não exatamente ofendidos com o enredo.

Afinal, para cada tanque na Esplanada sobra um hectare de floresta queimada para soltar a boiada. Para cada xingamento sobeja uma tungada nos direitos de quem vive do trabalho, para cada ameaça à democracia salta um naco de patrimônio público entregue a preço de banana.

Para esse terceiro grupo, a turma dos camarotes, a pantomima é feia, mas é lucrativa.

E são eles, os encabulados com a aparência e contemplados pelos resultados, os grandes responsáveis pela sobrevivência do mandato do homem que não governa.

A esses condescendentes, um alerta: a conta vai chegar.

*Jean Paul Prates é senador da República pelo Rio Grande do Norte e líder da Minoria na Casa

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