Pandemias e civilidade

Rafael Thomaz Favetti*

O episódio Pandemia, da série Explicando, da Netflix, revela que as epidemias são uma constante na história moderna. A principal causa do aparecimento de novas doenças com alta capacidade de transmissão seria o cruzamento de espécies virais de hospedeiros diferentes. Por exemplo, um vírus que somente se propaga em frangos e porcos entra em contato, em um porco, com um vírus que se propaga em humanos e porcos. A mutação acontece no porco (hospedeiro comum aos dois vírus) e, a partir daí, uma nova espécie viral pode ser transmitida aos humanos (mas com DNA modificado). O novo vírus, gerado no porco, é uma espécie mutante que carrega uma carga viral que os humanos ainda são suscetíveis e frágeis.

>Corona: Brasil nega ajuda a países sul-americanos, mas transporta poloneses

O contato com novos vírus fatais e de fácil propagação é fato verificável em várias partes do mundo. O documentário não aborda, mas é de se relembrar a matança de nativos brasileiros nos primeiros contatos com brancos por cargas virais absolutamente já superadas nos europeus, mas fatais aos índios. Recentemente, o excelente filme Xingu, sobre os irmãos Villas Boas, também conta essa capacidade arrasadora de transmissão de vírus da gripe comum em índios brasileiros na década de 1940.

A história das epidemias em humanos possui alguns elementos padrão: o vírus, um receptor inocente e um transmissor inconsciente. A licença poética consente em espelhar ao padrão das pandemias as ideologias desumanas, que moem a saúde civilizatória de uma comunidade. Em um planeta conectado, as ideologias sectárias avançam ante o fluxo incalculável de desinformações que se repassam a cada segundo. Da mesma maneira que acontece na biologia, temos um vírus (uma ideologia do ódio), um hospedeiro inocente e um transmissor inocente, que normalmente usa a mídia social (Twitter, Facebook e Whatsapp) para replicar uma desinformação que pode conter uma alta carga viral ou, ainda, ter no receptor alguém completamente suscetível a tomar a desinformação como verdade e, a partir daí, reforçar um pensamento fantasioso que gera uma ação sectária.

Tal qual na biologia, onde a capacidade humana de sobreviver aos vírus depende de tempo e de imunidade, nas ideologias do mal é necessário tempo de aprendizagem e especialmente capacidade de consciência, reflexão e conhecimento histórico. Sociedades culturalmente debilitadas ou economicamente abaladas são como um receptor com imunidade baixa e são mais suscetíveis a propagação de ideologias nefastas.

Um ponto importante: as ideologias daninhas não possuem coloração. Isso é, não são exclusividade das direitas, nem das esquerdas. São doenças do pensar e como tal não respeitam divisões teóricas nem afiliações partidárias. Cada um de nós é um aedes egipti dessa doença do inconsciente coletivo, independentemente de sua preferência política. Basta ter um celular nas mãos e um grupo de Whatsapp para retransmitir. 

Pequenos atos são capazes de impedir o avanço das epidemias virais (lavar as mãos, usar máscaras etc). O mesmo se dá quanto as doenças ideológicas. Não retransmitir desinformação, não espalhar fofoca fantasiosa e desconfiar de explicações simplistas para problemas complexos é a primeira etapa da conscientização. A compreensão da noticia que se tem em mãos é capaz de separar a fake News da verdadeira informação. Ter consciência não é tarefa comezinha e exige maturidade intelectual, emotiva e cognitiva. Mas não retransmitir a primeira coisa que lhe chega no celular é absolutamente simples, fácil e cada vez mais um ato de humanidade.

Advogado, Cientista Político. Foi Secretário-Executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública.*

>Mais textos do autor Rafael Favetti
https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2020/01/1570632284_BannerNoticias02-1-1.png

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!