Minha mãe foi roubada na agência bancária

Ricardo Ballarine*

O Bradesco está perpetuando um crime, agindo de forma covarde, cruel e omissa. Enquanto isso, a minha mãe sofre a cada dia com o que aconteceu.

Minha mãe foi sequestrada em outubro passado. Foi ameaçada de morte e coagida a ir ao banco para sacar dinheiro. Um bandido a pegou na rua lateral de onde ela mora, com uma arma. Ameaçou ainda matar o meu irmão.

Em pânico, ela não teve outra opção. O bandido a levou num carro até a agência Bradesco Prime onde ela tem conta, na praça Silvio Romero, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Importante: o criminoso sabia quanto ela tinha em conta, sabia quanto podia roubar.

Voltemos ao crime. Ao chegar à agência o bandido se apresentou ao gerente como sendo filho dela. O gerente Prime, que conhece o meu irmão, nem perguntou o nome dele.

Detalhe: meu irmão também é titular da conta da minha mãe.

O bandido conduziu a conversa com o gerente, que em nenhum momento perguntou nada para ele. Ou para minha mãe. O bandido pediu para fazer uma transferência de R$ 50 mil para uma conta em Macaé, alegando que tinha um negócio para abrir.

O gerente nem questionou, nem perguntou do que se tratava. Simplesmente, conduziu a transferência. Minha mãe teve que assinar a autorização. Lembre-se, ela estava coagida e sob ameaça de morte. De máscara, era impossível perceber fisionomias. Ela conseguiu tirar forças sabe-se lá de onde para obedecer ao bandido.

A cada saída do gerente de sua mesa, o bandido reforçava as ameaças. “Se fizer alguma coisa, matamos sua família e depois você”, era o recado.

Depois de feita a transferência, o bandido quis sacar dólares. O gerente prontamente pegou US$ 10 mil em nota e entregou para ele - mais R$ 50 mil e pouco. Novamente, sem cerimônia, sem perguntar porque a necessidade de dólar.

Esse era um comportamento totalmente atípico da minha mãe. Em 20 minutos, a conta dela, de economias de décadas, foi esvaziada por um sujeito que disse ser seu filho e que em nenhum momento foi tratado por seu nome pelo gerente, pois o funcionário do banco nunca perguntou o nome da pessoa que comandava as ações e pedia as transferências.

Os absurdos não param. O bandido quis sacar dinheiro no caixa eletrônico. O gerente o orientou a descer e conversar com um funcionário. Ao se despedir, o gerente entregou o cartão de visita ao bandido e o convidou a fazer mais negócios no banco.

O bandido desceu e o funcionário do banco o orientou como sacar. Foram feitos dois saques de R$ 2,5 mil. O bandido queria um terceiro saque, aí o funcionário disse para ele ir a outra agência porque o limite tinha estourado. Assim ele conseguiria sacar. No total, foram retirados R$ 7,5 mil em saques. Detalhe: quem vai aparecer nas imagens gravadas pelas câmeras dos caixas é o bandido. É ele quem digita, quem saca o dinheiro. Tudo isso orientado por um funcionário do banco, que deu dicas para ele sacar acima do limite.

O bandido, graças a Deus, devolveu minha mãe em casa sem machucá-la fisicamente. Emocionalmente ela ficou destruída condição que o Bradesco vem fazendo questão de manter e piorar.

Fizemos Boletim de Ocorrência para registrar o caso. A polícia está investigando e considera como crime de sequestro e extorsão. Disse que vai investigar os funcionários do banco, segundo reportagem do SP2, da TV Globo.

Então começam os atos de covardia e crueldade do banco.

Imediatamente, pedi para que o gerente da agência afastasse o gerente da conta de todo e qualquer atendimento feito a minha mãe. Solicitamos o cancelamento da conta da Prime, porque sem saldo não dá para ser Prime, era o mínimo. Isso nunca foi feito. O banco continuou a cobrar tarifa Prime, tivemos que reclamar para que eles reembolsassem o valor.

Em seguida, pedimos ressarcimento ao banco do dinheiro que foi roubado dentro da agência. O gerente respondeu depois do prazo definido por ele mesmo. Não aceitou o pedido.

Fomos para a ouvidoria do Bradesco. Responderam depois do prazo determinado pelo banco. Rejeitaram. Pior. Só responderam sobre os saques no caixa. Nem citaram a transferência feita na mesa do gerente e o saque em dólar. Ignoraram deliberadamente essa parte.

Fomos ao Banco Central. O Bradesco respondeu fora do prazo. Mesma resposta, sem se manifestar sobre a transferência e o saque em dólar. Negou reembolso do saque.

Por último, minha mãe quis fechar a conta. Restavam R$ 50. O gerente não deixou ela sacar. Bloqueou a conta e o app antes. Tivemos que reclamar para que o saldo restante fosse reembolsado.

Ou seja, o banco dedica a ela uma crueldade sem fim. Se coloca acima do bem e do mal. Sem responsabilidade, sem respeito. Simplesmente, é cruel e perpetua um crime e abala a saúde da minha mãe com doses de sadismo.

Estamos com campanha no Twitter, muita gente se solidarizou, muita gente mesmo. Subiram a hashtag #DevolveBradesco. Perfis variados, de diferentes locais do país se chocam e cobram o banco.

Dessa hashtag, alguém criou uma página no Facebook com o nome Devolve Bradesco. Agradeço imensamente esse apoio voluntário e humano. Humano como o banco não vem se mostrando.

Minha mãe está sofrendo, tem 75 anos e nenhuma esperança de que possa ver um dinheiro economizado por décadas, para que pudesse ter uma aposentadoria tranquila. Ela viu o dinheiro sumir num ataque violentíssimo e depois vem sofrendo com outra violência, a forma como o Bradesco a trata. Como se ela fosse cúmplice. Como se ela fosse culpada.

Uma mulher de 75 anos, viúva, sem recursos, vira um alvo fácil para o Bradesco. O tratamento dado a ela é desumano. Machista. Ageísta.

Queremos o ressarcimento e um pedido de desculpas. É o mínimo que uma instituição como o Bradesco poderia fazer. O mínimo.

*Ricardo Ballarine é jornalista.

Procurado pelo Congresso em Foco, o Bradesco disse que não vai comentar o assunto.

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