A mentira como método de governar

Erika Kokay*

O governo Bolsonaro foi eleito a partir do disparo em massa das chamadas fake news. Após eleito, a mentira e o ódio tornaram-se métodos políticos para manter sua base social radical organizada.

Essa nova forma de governar fundada na “mitomania”, ou seja, numa compulsão por mentir, ganhou novos episódios grotescos envolvendo a Caixa. Em evento recente em Manaus, Jair Bolsonaro, acompanhado do presidente do banco, Pedro Guimarães, teve a desfaçatez de dizer que a instituição lucrou mais em seus dois anos e meio de governo do que na soma dos governos Lula e Fernando Henrique Cardoso (FHC).

Mas não parou por aí. Disse, ainda, que nos seus quatro anos de governo (ninguém sabe se vai conseguir concluir o mandato), a Caixa terá lucro maior que em seus 158 anos anteriores.

Em outro evento, desta vez em Alagoas, o presidente afirmou que no governo Lula, a Caixa só deu prejuízo. São afirmações absolutamente mentirosas que não se sustentam nem resistem a uma singular apuração. Mentiras que partem do medo e do desespero de Bolsonaro com o fato de Lula estar liderando em todos os cenários para a corrida eleitoral de 2022.

Antes de entrarmos nos balanços da Caixa nos últimos anos, vale mencionar que a instituição, em 2001 (governo FHC), deu prejuízo de mais de R$ 4,6 bilhões. Nem mesmo a ajuda do governo federal de R$ 9,3 bilhões foi capaz de melhorar o resultado do banco. Em 2002, o lucro da Caixa foi de pouco mais de R$ 1 bilhão.

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) concluiu um levantamento que atesta que a Caixa registrou lucros em todos os anos, desde 2003. O estudo foi realizado a pedido da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) e detalha os resultados do banco público ao longo de quase duas décadas.

Nos governos do PT, começando pelo primeiro ano do mandato do presidente Lula, em 2003, o lucro foi de R$ 1,6 bilhão. Atualizado (corrigido pelo IPCA) o valor chega a mais de R$ 4 bilhões. Nos oito anos de Lula (2003 a 2010), o lucro da Caixa foi de mais de R$ 20,3 bilhões. Corrigindo-se pelo IPCA, o valor ultrapassa os R$ 41,3 bilhões.

Já no governo da presidenta Dilma, o lucro da Caixa foi de R$ 50,3 bilhões (corrigido pelo IPCA). Se somarmos os quatro mandatos do PT, mesmo com a ruptura democrática de 2016, a soma dos lucros da Caixa foi de mais de R$ 91,6 bilhões.

Agora vamos aos números da instituição no governo Bolsonaro, com a Caixa sob o comando de Pedro Guimarães. No primeiro ano, em 2019, o lucro foi de R$ 22 bilhões, sendo que aproximadamente R$ 15,5 bilhões foram resultado de vendas de ativos da Petrobras, IRB, Banco Pan, etc.

Em 2020, o lucro de R$ 13,2 bilhões foi fortemente impactado por ganhos não recorrentes. A Caixa obteve com a Caixa Seguridade, pelo Método de Equivalência Patrimonial, R$ 5,9 bilhões. Acontece que essa galinha dos ovos de ouro não existe mais, pois Pedro Guimarães acabou de vender parte da participação da Caixa.

Ou seja, os números dos lucros da Caixa no governo Bolsonaro não são oriundos da atividade bancária, mas da venda de ativos estratégicos do banco e da redução criminosa do papel de desenvolvimento econômico e social que a Caixa desempenha. Além de ser um lucro circunstancial, é menor que o verificado nos governos do presidente Lula, quando corrigidos pela inflação.

Um exemplo inequívoco desse esvaziamento da Caixa por dentro está justamente na questão habitacional.

De 2003 a 2010, anualmente, foram construídas e financiadas, em média, cerca de 500 mil unidades habitacionais. De 2011 a 2015, a média passou para 1,1 milhão de unidades habitacionais. Isso com recursos da União, FGTS e da própria Caixa. Essa política de governo teve foco nas pessoas de baixa renda,  o que foi fundamental para a redução do déficit habitacional e contribuição efetiva na geração de mais de 20 milhões de empregos diretos.

No governo Bolsonaro/Pedro Guimarães, o programa Minha Casa Minha Vida foi desmontado. O que eles têm para apresentar além do fatiamento da Caixa? Nada!

*Erika Kokay é deputada federal pelo PT do Distrito Federal e bancária aposentada da Caixa.

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