A Alpha Ville das Comunidades – a Alpha Vella

Bajonas Teixeira de Brito Junior*


A idéia é boa. A execução, à moda das obras públicas do Rio, certamente será primorosa. E o apelo de marketing é inegável. Em breve, se nossas previsões estiverem corretas, o governo do estado deverá batizar o projeto como o Alpha Ville das Comunidades. E as comunidades, com a criatividade característica da alma carioca, o apelidarão de Alpha Vella. Condomínio fechado de segurança máxima.


Será que precisamos lembrar os diferenciais que tornarão Alpha Vella referência internacional de urbanização – a segurança reforçada com a ocupação da PM, a beleza luxuriante da cidade do Rio de Janeiro vista dos morros, o clima de floresta e a vista do mar? A secretária estadual de Ambiente, Marilene de Oliveira, formulou com lógica lapidar (tudo a ver com lápide), a idéia central:


"Qualquer terreno é cercado por muro de três metros de altura. Você mora num condomínio com muro de três metros. Uma comunidade como aquela é um condomínio. É natural que ele seja cercado por um muro de três metros."


O estado que convivia com o crescimento desordenado das favelas agora irá conviver com os crescimento ordenado dos condomínios de luxo. Ou, para ser mais exato, de micro luxo. Um complemento ao sistema de microcrédito que, junto com Alpha Vella, vai mudar a cara da cidade. Assim, como a mudança na face da mãe do PAC, Dilma Rousseff, essa cirurgia plástica verbal deve solucionar os problemas mais urgentes da Cidade Maravilhosa. É verdade que as premissas da secretária do Rio, a mãe de Alpha Vella, talvez não sejam verdadeiras: muros não costumam ter 3 metros de altura, salvo, claro, os dos condomínio de alto luxo e os de presídios, casas de detenção e similares. Também é provável que o "você" a quem a secretária se refere, e que imaginamos ser o repórter que a entrevistava no momento, não more em um condomínio de luxo.


É sensato especular, porém, que, juntando a extinção da exigência dos diplomas para jornalistas com a nova paisagem urbana do Rio, não demore para que nosso bravo repórter venha, logo logo, a tornar-se um felizardo ocupante de Alpha Vella. 


Evidentemente um auxílio luxuoso gratuitamente ofertado pelo Estado não pode ficar restrito a uma minoria de privilegiados. Vai ser preciso expandir para as áreas em que a questão ambiental é menos relevante. Ficaria um pouco estranho se o trem bala, que vai custar aos cofres públicos os olhos da cara, atravessasse indômito a obscura zona que margeia a Linha Vermelha, até o momento uma cinzenta paisagem ladeada de comunidades, isto é, as antigas e ultrapassadas favelas.


E é preciso considerar também que se não se fizer aí condomínios com muros de três metros, no mínimo de três metros, os custos do trem bala serão evidentemente proibitivos, porque a bala não poderá ser qualquer, terá que ser bala de prata, blindada (alguém ainda duvida depois dos três feridos com o tiro que atingiu o metrô da Linha 2 na noite desta terça-feira, 14 de abril?). Mas, sobretudo, para usar um pouco da nomenclatura em voga, as subjetividades marginalizadas no cotidiano merecem ser reterritorializadas numa nova ambiência urbana: daí a necessidade dos condomínios de beira de trilho.


Às vezes penso que se o Rio de Janeiro existe e, principalmente, subsiste, tudo é possível. Se a idéia iluminada de João Havelange, homem que enxerga longe, de demolir o Maracanã para construir um estádio muito mais moderno pôde ser levada a sério (e ela certamente vai voltar e será executada mais cedo ou mais tarde); se o bom Lula investiu tanto dinheiro nas obras tão suspeitas para o Pan, o que tornou mais que merecida a salva de vaias que recebeu no mesmo local; se o trem bala, que só vai servir para  treinamento de tiro ao alvo, está virando objeto de culto (A idéia do século!, como exclamou eufórico um interessado); se foi proposto que a caveira do Bope se tornasse patrimônio cultural da cidade; se é possível mesmo que exista o Bope e a caveira símbolo do Bope; se as favelas estão sendo muradas e vão virar condomínios de segurança máxima, então qualquer delírio é possível.


Uma questão embaraçosa é: onde estão os intelectuais? Essa gente tão buliçosa está esperando o que para assinar o Manifesto? De certo, devem estar esperando a iniciativa de Cocco e Negri. Ou, quem sabe, Chomsky. Ou sei lá quem. A minha caneta está aqui na mão, positiva e operante, escorrendo tinta, pronta para o autógrafo, mas o Manifesto não aparece. Os intelectuais estão mudos e o manifesto tarda. Por isso, é claro, o nosso Emir Sader, venerável homem de esquerda, ainda não abriu o bico.


No caso de Cocco e da Universidade Nômade, pode ser que tenham saído de férias. Ou que estejam ocupados com algum seminário financiado pelo governo federal. Aqui em Vitória, volta e meia, vêm o Cocco e o Negri. São dias de festa. Infelizmente sou um homem muito ocupado e nunca pude ir a um desses espetáculos. Os auditórios ficam cheios. Tudo com ajuda de custo da prefeitura. No último, se não me engano, houve um certo buchicho à boca pequena, em tom de mágoa, porque o Negri, cujo nome veio estampado em um dos folders que recebi, não deu as caras. Andaram dizendo que não tinha vindo porque exigiu passagem de primeira classe e tapete vermelho no aeroporto. Enfim, sempre a mesma boçalidade ingrata da periferia.


De todo modo, a hora é boa. A idéia que eu dou para o Manifesto é que juntem nele três coisas: a feira de armas militares no Rio, que ensejou segundo os jornais a compra de um novo modelo de caveirão israelense; a construção do trem bala (esse "bala", para quem não sabe, vem de tiro mesmo), e o Alpha Vella.


Para o carro militar Israelense, se entramos definitivamente em situação declarada de guerra, ou seja, se a Palestina é aqui, então o Manifesto deveria exigir a presença da Cruz Vermelha Internacional nos novos condomínios fechados. Em relação ao trem bala, poderia propor a mudança para Trem Míssil, e em relação a Alpha Vella, exigir guaritas a cada 100 metros (o que é supérfluo, porque esse acessório indispensável já deve estar previsto no projeto). Seja como for, o modelo poderia ser adaptado do Gueto de Varsóvia. Ou mesmo do muro que Israel está construindo no grande condomínio da Palestina.


Nisso tudo, o que vejo de positivo, de bastante positivo, aliás, é a reação da Federação das Favelas do estado, que parece ter sentido na pele o flagelo da novidade urbana, estranhamente implementada antes mesmo de ser proposta, pelo governo do estado. A dica que eu dou para a Federação é a seguinte: aproveitem o momento e não parem na questão do muro. Exijam que a munição do BNDES para o trem bala seja desviada (atenção, no português brasileiro o verbo desviar é muito ambíguo) para investimentos urbanos fundamentais (saneamento, educação, saúde) nos condomínios. Segurança não precisa, porque nunca houve tanta verba para a matança generalizada como nos dias do atual governo democrático. Aliás, o nosso ministro da Justiça (ia dizer, justiçaria), acha o nosso simpático Sérgio Cabral um bom nome para vice-presidente na chapa da Dilma. Essa opinião, se não me engano, foi a segunda de sua lavra depois que retornou das trevas, nas quais adentrou depois da maré negativa gerada pelo caso Cesare Battisti. O primeiro eu não lembro. O terceiro, de acordo com a imprensa em 23 de abril, foi ressaltar que o presidente do STF, Gilmar Mendes, tem um enorme "sentido de responsabilidade pública".


*Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, autor do ensaio, traduzido pelo filósofo francês Michael Soubbotnik, Aspects historiques et logiques de la classification raciale au Brésil (Cf. na Internet), e do livro Lógica do disparate.

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