A literatura como sentença de morte

Sempre que preciso escrever um grande texto (e este será um deles, vocês podem apostar), começo examinando minhas razões. Mas é bom avisar previamente do que se trata: será uma espécie de crítica ficcional (ou vice- versa) do novo livro, o 12º. de Marcelo Mirisola, Charque (S.Paulo, Barcarolla, 2011) a ser lançado  na Mercearia São Pedro dia 31 de outubro próximo.

Voltando às razões: 1) Escrevo porque gosto de Mirisola, ele é meu amigo e porque há trinta anos eu esperava aparecer no Brasil um cara que tivesse a minha envergadura literária, como é o caso – raríssimo – de MM, e a gente sempre gosta do semelhante, right? (repito, a modéstia definitivamente não é uma das minhas qualidades).
Bom, essa não serve, ninguém escreve porque gosta do sujeito e eu sou famosa precisamente por ser INSUBORNÁVEL – e tomo toda a comunidade literária como testemunha; mas no caso de MM isso não seria problema; 2) Escrevo por vaidade, pra me mostrar – provar que sou melhor que o autor! – e esta eu coloco totalmente fora de cogitação, porque: 3) Escrevo pela Literatura, que anda uma merda, equivocada, esquecida da sua condição de Grande Arte, sua função primordial – a única que ganha Prêmio Nobel.
Naturalmente, ficamos com a terceira hipótese.

Nessa altura do campeonato literário de MM, o leitor terá algumas surpresas: em primeiro lugar esta É A Biografia Pra Valer do autor mais autobiográfico do país (aliás, considerado por quase todos - crítica, público & despachantes afins - como totalmente autobiográfico ao longo dos onze livros anteriores!). Só que antes era MESMO ficção. Quer dizer, poesia, esculacho e um talento inusitado.

Mas agora é pra valer.

Charque é um romance de aventuras, fatos e ficções – o que, atualmente, significa oscilar entre a poesia e o desacontecimento – mentiras & verdades (mais mentiras que verdades embora só estas doam, posto que verdades. Ainda).

Sem contar o estilo e suas avaliações hilariantes dessa sub-realidade de merchandising (a que nós chamamos vida), dessa sub-vida, deste sub-horizonte pop de postes e parabólicas onde atrapalhamos o trânsito do passado recente (dos 80 aos 2000); algo que ele realiza com a precisão do acaso ao percorrer aleatoriamente a geografia nacional – de Manaus a Maceió, de Serra Pelada às praias de Florianópolis, com quebradas, descidas e subidas (por sinal, mais descidas que subidas, aliás todas equivocadas); um trancetê de ponte aérea Rio-Sampa  onde  autor/ narrador no fundo, na verdade, o tempo todo e A DESPEITO DE SI MESMO (à sua revelia) persegue um objetivo central: sua função de escritor.

Sem que o leitor tenha a menor idéia do que está REALMENTE se passando. Nem ele.

Boto a mão no fogo como MM não sabia o que estava fazendo ao imaginar que simplesmente estivesse “reincidindo” na escritura do Azul do Filho Morto. Sim, claro. Ali ele puxou o fio da infância: lambidas nos azulejos, masturbações pro cão pastor capa-preta, as empregadinhas, a cueca pelo lado do avesso, o nono, o Palestra Itália, o cazzo e por aí vai.

Certo, o menino de Pinheiros, bochechudo, rico e bem careta – protótipo do paulichão de chinelo, o da poltrona, inclusive pelo sotaque, aquele que só escrevia pra parar de escrever no dia em que se casasse na igreja da Acharopita com uma Andressa ou Juliana ou Tatiana ou Adriana que o chamasse de “benhê”, tivesse cinco filhos, assistisse ao Domingão do Faustão, etc., até que a morte e o esquecimento o apagassem, a ele & respectiva famiglia, como de praxe ocorre a 99% duma população marasmática para a quem a “apatia” virou categoria olímpica.

Mas O Azul MM publicou faz dez anos, contudo – que fique bem claro – autores de primeiro time evoluem, se transformam, senão não seriam de primeiro time.

Degradando in-extremis a coisa (porque agora me emputeci), a função, o objetivo do escritor, não é fazer gracinhas ao longo de onze livros (embora, se já ficasse por aí, MM permaneceria tranquilamente uns trinta anos luz à frente do segundo colocado). A função do escritor é dizer ao que veio, realizar pra posteridade sua absoluta originalidade; explicar porque sua obra é como uma pedra angular do edifício literário que, se deslocada, todo o edifício cai. Se for de primeiro time.

E Marcelo é o único escritor brasileiro publicado pós-90 de primeiro time. É bom esclarecer essa história de “escritores” e escritores, cuja maioria absoluta, atualmente, não passam de “despachantes” – o termo é do Miri (“micro-empresário” era a definição dos anos 90 do Contardo Calegaris – ou assemelhado, sei lá, gênero colaboradores do Caderno Mais. Esses caras que escrevem “ensaios” em quantidades industriais e  durante anos e não fazem a mínima diferença).

Já notaram como TUDO fica vertiginosamente velho ANTES de brotar e amadurecer?

E vocês não acham que aí tem algo muito ERRADO? Quer dizer, aqueles que ainda acham alguma coisa.

Mas malandro é gato que nasce de bigode, certo?

Vou começar novamente: Charque, décimo segundo livro de Mirisola, é um romance a respeito da absoluta falta de imaginação nacional; Charque é um épico da poesia cruel, ressentida e extremamente eficiente, que resulta do fato do sujeito só pensar em si próprio – inconscientemente. É a Lei de Gerson posta em prática, segundo MM.

Pra escrevê-lo, como autor da série rigorosamente literária, foi preciso muita paixão, muito encanto e muitíssimo culhão. Certo. MM não é mesmo um suicida de primeira viagem, até porque lê horóscopo antes de ir para a câmara de gás.

Charque é como se o autor fizesse, paralelamente, a liquidação da sua alma e a do Brasil,

donde se tratar dum guia infalível para a própria morte social. Além de histórico-geográfica: dessa vez te confiscam a cidadania!(cruzes, com a espinafração do Machado, só para “Acadimia” vais virar um mix de louco com leproso. Isso se eles forem minimamente criativos, o que eu duvido).

É a autobiografia recorrente do inconfessável, simultaneamente do autor e do Brasil.

Sem desmentir o falso priaprismo metanarcísico de MM antecipadamente rendido.

É a fuga submersa pra dentro e para baixo – ao centro involuntário da covardia e da dor.

Não esquecendo o roteiro de viagens tipo “conheça o Brasil!”: seu guia de compras na faixa de Gaza, sua carona garantida para a desmemória. Perdeu, perdeu, meu amigo brasileiro – desde sempre, atualmente e doravante ­– você sempre perde. De caso pensado. É teu segredo de polichinelo, ou seja, inconfessável só para você mesmo. E não é para menos, não é mesmo?

Você é o PIB da cacofonia com a macaqueação, Machado de Assis incluído, “o máximo do mínimo”, segundo Marcelo.

Do livro, uma única e monumental cagada: o título – que merda é essa?

Outra: Você enche o saco com a Marisete!Quem dá cartaz pra trouxa é lavadeira!

Dá serviço e um banho de loja nessa tua ânima desocupada! E protéica: mulher, animal, putíssima, gato, cachorra (e todas feias, sujas, burras e rampeiras!) – dá vontade de te mandar cultivar açafrões no jardim gay do Caio. Sei lá, sobe o nível, meu chapa (mas, oooooooops, perdão, não é de VOCÊ que se trata exatamente, mas do Brecão, o nosso brasileirinho médio e des-agregado).

A dúvida relativa e a grande frase: “Ainda que a delicadeza me escape, num arroubo de afeto e outro de repulsa merecida, será que apesar de tudo:
- Depois da queda (ainda que morto o menino),
Servirão as mesmas asas para voltar?”

Pra onde, Mirisola?

Quanto às asas, o caminho se descobre caminhando: se não te aleijarem até lá, normal.

Asas?A propósito, aqui cabe uma advertência ao autor que meus mais de cinquenta me sancionam: só não continuo escrevendo assim por preguiça, covardia, moral baixa, comodismo, falta de tesão e vergonha na cara. Elementos que nada têm a ver com asas. Se liga, Marini!

Naturalmente, não vou contar o fim do livro, mas Mirisola descobre e realiza sua função de escritor. No último capítulo. Mas dou uma dica, algo que também descobri aos 38 anos escrevendo a primeira versão do meu romance Caim. Tá lá, na primeira página:

Nem remetente, nem destinatário,
Nem sacrificante nem sacrificado, nem algoz nem vítima,
Mas se tornar ela própria o sacrifício,
A palavra redentora que já não perguntava nem respondia,
Que se consumava,
Mas isto não é meu corpo,
Isto não é meu sangue,
Posto que sombra, não tenho posteridade,
O que se multiplica é minha iniqüidade.
O meu nome, a minha assinatura,
É uma sentença de morte.
A minha sepultura
A minha lápide,
A minha cruz.

Pois é, a tua também, Mirisola.

Foda-se!

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