Zurros e uivos

Contou-nos o imortal Esopo, através de sua fábula “O burro que vestiu a pele de um leão”, uma lição ainda não aprendida no avançar dos tempos. Narrou ele que, certo dia, não se sabe quando, “um burro encontrou uma pele de leão que um caçador tinha deixado largada na floresta. Na mesma hora, o burro vestiu a pele e inventou a brincadeira de se esconder numa moita e pular fora sempre que passasse algum animal. Todos fugiam correndo assim que o burro aparecia. O burro estava gostando tanto de ver a bicharada fugir dele correndo que começou a se sentir o rei leão em pessoa e não conseguiu segurar um belo zurro de satisfação. Ouvindo aquilo, uma raposa que ia fugindo com os outros parou, virou-se e se aproximou do burro rindo: - Se você tivesse ficado quieto, talvez eu também tivesse levado um susto. Mas aquele zurro bobo estragou sua brincadeira!”. Como moral da história, Esopo concluiu que “um tolo pode enganar os outros com o traje e a aparência, mas suas palavras logo irão mostrar quem ele é de fato”.

Realmente, a conclusão de Esopo permanece atual, especialmente em um mundo que tem na beleza externa o seu maior sustentáculo, que atribui mais valor aos trajes e às aparências do que à beleza interior. Permanece mais atual ainda quando essa beleza é ressaltada por um marketing especializado em esconder a verdadeira faceta ou intenção do agente. No hoje, além da proteção do embrulho impenetrável do traje bem arrumado, o embusteiro treina o zurro para que não pareça bobo. E ainda continuando no mundo animal, nos tempos ditos modernos não faltam escolas especializadas em treinar lobos a vestirem peles de carneiros, assim como a berrar como se fossem carneirinhos desde o nascimento.

Osana bin Laden, escondido na capa da pureza religiosa, praticou intolerância, assassinou a paz, aterrorizou comunidades e se arvorou na concepção de que é ato santo matar a humanidade. O general Bush, o seu maior combatente, usou da pele de defensor da democracia, arrotou arrogância, invadiu países, torturou presos, criou prisões criminosas e se achou no direito de violentar o direito dos não-estadunidenses. Assim foi com Hitler e sua idéia da supremacia da raça ariana e com Mussolini e o seu sonho de restabelecer a grandeza italiana. E é assim com tantos outros que se utilizam dos disfarces de leão ou de cordeiros para camuflarem suas verdadeiras imagens e as crueldades de seus corações.

No Brasil, país conhecido por se gabar dos jeitinhos, os lobos e os burros também têm férteis campos para fazerem desfilar suas artimanhas. As Comissões Parlamentares de Inquérito, somente para ilustrar, são relvas apropriadas para que vários parlamentares, lobos ou burros, vistam os trajes de cordeiros e leões segundo a conveniência exigida para cada ocasião. O traje de cordeiro, apropriado para os momentos em que se pretende assumir uma imagem humilde, mesmo sendo o parlamentar conhecido por sua arrogância e voracidade no devorar os parcos recursos públicos. O de leão, quando se quer mostrar valentia diante das antenas de TV, ainda que seja o valentão conhecido nos bastidores por ser cordato aos corruptores e lobistas que abundam na selva que habitam.

Talvez esteja nesse desfile de roupas trocadas a razão do descrédito de cada uma das CPIs instaladas no Congresso Nacional, não mais causando interesse ou impacto os escândalos revelados. Parece que o eleitor, convertido na pele da raposa ediponiana, está a enxergar o burro que se esconde na pele do leão, principalmente quando não consegue ele segurar o alegre zurro diante do arquivamento de cada pedido de abertura de uma CPI. Parece, também, que começa descobrir o rabo do lobo sob a capa da ovelha moralista, especialmente diante do fato de que apenas se pretende discursar e nada apurar.

Realmente, é muito burro vestido em pele de leão e lobo travestido em cordeiro espalhados pelo mundo. É muita gente, como canta Zélia Ducan, sendo “gentil com a beleza”, pondo-lhe a mesa, arrumando sua sala e exalando compreensão. É, nesta linha poética, muitos especialistas fazendo-nos esquecer que “a beleza pode esconder o mau, o feio e o desprezível”. É também, como conseqüência, o momento de ficarmos alertas aos zurros bobos e uivos gananciosos que pretendem nos enganar com palavras e aparências.

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