Voltamos aos 50 e aos 60?

Karl Marx já dizia que a história só se repete como farsa. Apesar da máxima do alemão barbudo, nós continuamos a buscar no passado nossas explicações para entender o presente e, como não somos videntes, prever o futuro. No fundo, parece mesmo uma questão de insegurança: sem a capacidade premonitória, só podemos mesmo contar com as experiências passadas para escolher o que fazer para não repetir erros futuros.

Quando 25 mil pessoas resolveram sair às ruas na semana passada num protesto contra a corrupção, não foram poucos os que enxergaram propósitos udenistas no movimento. Imaginavam uma repetição das estratégias que a velha UDN colocava em marcha no período entre 1950 e 1964 para desestabilizar governos.

Na semana passada, comentei aqui que havia uma certa miopia nessa avaliação. Mas é preciso que se reconheça também que o cenário político de hoje guarda algumas semelhanças com o daquela época. Vamos, então, avaliar abaixo o que existe de parecido e o que existe de diferente no atual cenário em comparação com aquele que o país viveu nos 50 e nos 60.

O que há de parecido

Quando Getúlio Vargas retornou à Presidência pelo voto – ou “nos braços do povo”, como gostam de dizer os getulistas –, ele forjou uma engenhosa fórmula política para lhe dar sustentação. Durante seu período de ditador, Getúlio deu uma forte virada no país, que deixou de ser agrário e centralizado em São Paulo, Rio e Minas para se tornar urbano, industrializado, com o início de novos focos de concentração. Getúlio organizou e consolidou as leis trabalhistas. Com esse cacife, ele criou um forte partido de trabalhadores, o antigo PTB, para se abrigar. Um partido com nuances de esquerda, com base popular, e ancorado no fortíssimo carisma de Getúlio.

Para lhe dar sustentação política, Getúlio buscou uma aliança com o PSD, um partido sem consistência ideológica mas com imensa capilaridade regional, formado por diversos caciques com forte comando em estados e municípios. Nas eleições de 1950, o PSD tinha um candidato próprio, o mineiro Cristiano Machado. Mas Getúlio fez uma costura pela qual o PSD, ao final, acabou abandonando Cristiano Machado pelo caminho para apoiá-lo. A manobra criou o verbo “cristianizar”, usado até hoje quando um partido deixa seu candidato a ver navios para apoiar outro na prática.

Qualquer semelhança entre o PT e o PMDB não será mera coincidência. De um lado, um partido de trabalhadores com nuances de esquerda ancorado especialmente na personalidade de um ícone de fortíssimo carisma. De outro, um partido sem consistência ideológica, forte pela capilaridade e pela união dos seus caciques regionais. Numa aliança forjada a partir de uma traição: em 2002, o PMDB oficialmente apoiava José Serra,do PSDB, e até lhe emprestava a candidata a vice – Rita Camata.

Nos 50, no lado oposto, formou-se um partido que foi fruto também das mudanças impostas na sociedade brasileira durante a ditadura de Getúlio Vargas. A urbanização do país criou uma forte classe média, formada por profissionais liberais: médicos, advogados, jornalistas, funcionários públicos. Esse grupo, fortemente urbano, construiu a percepção de que era sobre eles que caía mais pesadamente a carga tributária, e que o dinheiro dos impostos que pagavam se desviava na corrupção. A UDN construiu um discurso que tinha como base o combate à corrupção pública. Alimentou diversas denúncias contra Getúlio e os presidentes seguintes. Tal estratégia, porém, tinha um claro viés desestabilizador e golpista.

Aqui, há uma semelhança no discurso, mas não parece haver uma semelhança tão grande nem na origem nem na estratégia da atual oposição. E muito menos na associação dessa oposição com quem está organizando os protestos contra a corrupção via internet. Mas, aí, já vamos entrando no segundo ponto da coluna:

O que há de diferente

O PT é também um partido de trabalhadores que gira em torno de um ícone com fortíssimo carisma, o ex-presidente Lula. Mas não há qualquer semelhança nem na origem do ícone nem na origem do partido. Getúlio não era um trabalhador, era um integrante da elite agrária gaúcha, com uma atitude paternalista com relação à classe. Com a força que a ditadura lhe conferia, criou a legislação brasileira para o trabalho, e lucrou politicamente com isso. Lula nasceu politicamente da própria classe trabalhadora, da própria luta sindical. O PT, o partido que criou, foi consequência natural dessa luta.

O PMDB é um herdeiro natural do PSD, mas há PSD também no DNA do PSDB, do DEM e do PP. Assim como também UDN. Além disso, durante o tempo em que esteve na oposição, o PT também construiu grandemente seu discurso no combate à corrupção.

E, especialmente, não há o propósito golpista ou desestabilizador nas denúncias da oposição. Claro que há um propósito político-eleitoral, mas esse propósito o PT também tinha, e ele não deixa de ser legítimo. De qualquer modo, na prática, o que hoje se observa é uma incapacidade quase total da oposição conseguir tirar proveito político do que é denunciado.

Em primeiro lugar, há um componente do passado que não existe hoje: as Forças Armadas. Durante muito tempo, os brasileiros atribuíram aos militares um peso forte como elemento definidor das suas crises políticas. Desde a proclamação da República, eles estiveram presentes na solução dessas crises. Eles eram o fator desestabilizador que se podia empunhar. Até tomarem o poder de fato em 1964. Como meteram os pés pelas mãos, impuseram uma ditadura marcada pela ignorância e que também não resolveu os problemas de moralidade pública, os militares hoje são carta fora do baralho. Assim como qualquer discussão séria de solução não democrática.

Em segundo lugar, os movimentos de combate à corrupção que surgem pelas redes sociais estão desvinculados de partidos políticos. Para o bem ou para o mal, porque eles podem acabar se perdendo por falta de um foco mais específico. Mas o que pode vir a acontecer é algo que nenhum partido contabiliza ou prevê. Um exemplo notório disso é a Lei da Ficha Limpa, que já é parte dessa movimentação apartidária a partir das redes sociais. A classe política não brigou pela Lei da Ficha Limpa, não acreditava nela, e só terminou por aprová-la porque se viu pressionada a fazer isso.

Finalmente, é mais do que claro que muito do impulso dado ao movimento partiu da própria presidenta Dilma, na reação aos casos de corrupção, com a demissão de ministros e demais envolvidos. Já ontem, Pedro Novais, do Turismo, somava-se à lista. Se antes Dilma dava sinais de recuo, agora reforça, com a saída de Novais, o discurso de que essa preocupação com a moralidade pública é constante no seu governo.

Enfim, entre semelhanças e diferenças, parece ficar claro que a possibilidade de as coisas se repetirem como aconteceram no passado é um bocado remota. Não estamos em 1950, o Brasil hoje é bem diferente, assim como seus atores políticos. No fundo, é meio como acontece com a moda: a calça boca-de-sino pode até voltar, mas sempre com alguma bossazinha diferente.

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