Um ministro chamado Sérgio Moita

O Brasil acostumou-se a ver na figura do juiz Sérgio Moro o exemplo de coragem, de determinação e de ousadia de alguém que finalmente surgia no deserto de homens públicos fiéis a esse título com disposição para fazer o que precisava ser feito, contrariando interesses, corporações e práticas corruptas consagradas como “naturais”,  “parte do processo”, do “é assim mesmo, sempre foi assim”. Moro rompeu uma cultura solidamente construída pelos coronéis do poder ao longo de séculos.

Pela sua postura, adquiriu amplo e irrestrito reconhecimento. Até fora do Brasil. No auge do mensalão recebi pelo whatsapp uma mensagem que comprova isso. Trazia a foto de uma pichação em uma rua de Lisboa: “Quando surgirá um Sérgio Moro em Portugal?”. Apesar dos erros e exageros - como aquela condução coercitiva desastrada e claramente equivocada do ex-presidente Lula, entre outras bobagens - Moro mantinha uma imagem de íntegro, decidido, objetivo e eficaz, enfrentando os poderosos na missão que parecia impossível de punir quem devia ser punido independente de cargo, fama, poder ou fortuna.

De repente, a ambição fala mais alto

De repente, num acesso de franca submissão aos poderosos da hora, de olho num cargo de ministro da mais alta corte do país, Moro adere aberta e surpreendentemente ao mais pernicioso, perigoso e autoritário projeto de poder desde o fim da ditadura militar nos anos 1980, sintetizado na eleição de Jair Bolsonaro. Muita gente, ao saber da notícia de que Moro havia aceito o convite para ser ministro da Justiça de Bolsonaro não acreditou, correu aos sites de notícias, checou, re-checou, até perceber que o mito tinha  pés de areia. A aura havia se desfigurado, a imagem desbotou-se, a pintura escorreu e sujou o chão. Nos botequins, a palavra que resumia tudo era decepção.

Ainda assim houve quem se animasse com a possibilidade de Moro ser uma espécie de contrapeso a Bolsonaro, um freio aos exageros, um anteparo às atrocidades comuns aos governos autoritários. Mesmo ninguém acreditando que aceitava o posto para ter oportunidade maior de lutar contra a corrupção, desculpa rota que usou para justificar sua ambição de poder. Ali, Moro tatuou na própria testa, e para sempre, a palavra “vaidade”. Desceu do pedestal, lambuzou-se no lodaçal.

Fidelidade canina

Demonstrando uma fidelidade canina e irretorquível ao capitão-presidente, nunca se ouviu dele qualquer reparo às imbecilidades ditas e praticadas pelos bolsonaros, damares, ernestos e olavos, sem falar nas babaquices e canalhices de 01, 02 e 03.

Só muro. E moita.

Mesmo quando o cheiro de corrupção exalou de um certo Queiroz...

Muro. E moita.

E o aceno de Bolsonaro ao nazismo e à tortura, com a relativização do holocausto judeu e as louvações ao torturador Brilhante Ustra?

Muro. E moita.

A última demonstração de fidelidade incondicional ao chefe ele deu na semana passada, quando questionado sobre o famigerado decreto das armas. Esquivou-se vergonhosamente, dizendo apenas que o ato nada tem a ver com o projeto de segurança pública, sob sua responsabilidade, por se tratar exclusivamente do cumprimento de uma promessa de campanha. Uma Imbecilidade assim, com I maiúsculo. Pois qualquer ato que implique em risco à segurança pública, como o aumento ao armamentismo civil, tem - e tem muito - a ver com a segurança pública, sim. Nenhuma promessa de campanha justifica por em risco a segurança dos cidadãos. Colocar armas na mão de um monte de gente despreparada até para segurar um revólver de brinquedo não é apenas perigoso, chega a ser criminoso. Até mesmo uma figura folclórica como Sílvio Santos foi capaz de chamar a atenção de Bolsonaro. E, na cara dele, afirmou: “Mas o Brasil vai virar um faroeste!”

E Moro? Muro. E moita.

Com o futuro de nossas crianças, aí não!

A gota d’água na indignação nacional diante do decreto foi dada por Bolsonaro ao incluir no texto a possibilidade de crianças terem direito a aulas de tiro desde que tenham o consentimento dos pais. Um nítido, visível e escancarado incentivo à criação de uma cultura armamentista baseada na violência como solução individual. Um desses absurdos que escancaram a irresponsabilidade de quem assumiu o governo sem projeto nem propósito.

E Moro? Muro. E moita.

A foto de Bolsonaro cercado de áulicos fazendo o gesto de quem aponta uma arma no instante em que o capitão assinava o decreto provocou um sentimento geral de repulsa. Causou estupefação até fora do Brasil. Pelas redes sociais circularam muito as palavras nojo e asco.

E Moro? Muro. E moita.

De Moro a Mourão tem é chão

O general Mourão, vice-presidente de Pindorama, é um direitaço que relativiza os crimes da ditadura colocando-os (inclusive a tortura) na conta do argumento de que  “guerra tem dessas coisas”. Mas Moro está longe de ganhar o aumentativo e um dia tornar-se um Mourão, um sujeito que, pelo menos, tem a hombridade de dizer o que pensa, mesmo diante da saraivada de idiotices de que se tornou alvo. Já Moro, enquanto não sair da moita e ter a coragem de manifestar sua opinião, vai continuar apenas a ser “um tal de Sérgio, que não tira os olhos da estátua da Justiça, ali na frente do STF”.  Jamais voltará a ser aquele juiz que dava inveja aos portugueses.

Um certo... Sérgio Moro, do qual o Brasil anda com saudades.

Obs: esta coluna foi escrita domingo no início da tarde. Pouco antes das 18h eu soube que Bolsonaro anunciou numa entrevista que indicará Sérgio Moro para uma vaga no STF, explicando: “A primeira vaga que tiver eu tenho esse compromisso e se Deus quiser nós cumpriremos esse compromisso”. Ou seja: o homem que assumiu a presidência dizendo que não trocaria apoio por cargos acabou de se desmoralizar publicamente. E o juiz, que disse ter aceito o cargo de ministro para poder combater melhor a corrupção, queria mesmo era uma vaga no STF. Foi tudo uma troca. Uma troca vergonhosa.

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