Tudo o que ele diz ou faz cheira a golpe

O anúncio de que vai pedir ao Senado a abertura de processo de impeachment contra dois ministros do Supremo revela os objetivos golpistas do presidente do Bananão. O projeto autocrático, em curso desde o primeiro dia de governo, a cada dia que passa mais se consolida e se clarifica. Bolsonaro quer o golpe. Ele se nutre do golpe. Ele tem saudade da ditadura. Ele quer uma ditadura para ele. Ele trabalha pelo golpe. Ele arregimenta forças para o golpe. Ele coopta as forças armadas para lhe darem sustentação no golpe. Ele articula o golpe.

E faz tudo isso à luz do dia, a céu aberto, da forma deslavada, sem pudores nem dissimulações. Basta relembrar os últimos atos e declarações dele em relação ao Supremo e ao Congresso. Quanto a este último, deu um abraço apertado e comovido ao Centrão, que antes de ser eleito apontava como antro de corruptos, trazendo-o para a intimidade do Palácio do Planalto ao convidar o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, para a Secretaria de Governo.

Ciro que, numa entrevista já chamou Bolsonaro de fascista e declarou apoio a Lula. Bolsonaro nem ligou. Diariamente, Bolsonaro dispara petardos contra a CPI da Vacina e seus integrantes, e ataca parlamentares das duas casas, indiferente aos 120 pedidos de impeachment que dormitam sob as nádegas do Presidente das Câmara, Arthur Lira, seu fiel escudeiro, que vai manter os pedidos quentinhos e protegidos porque não tem a menor intenção de se levantar de cima deles.

Para ele, o conflito é necessário 

Bolsonaro esmera-se em manter tensionado o arco do conflito entre os poderes. Como ele e seus asseclas sabem que, quanto maior a satanização dos poderes legislativo e Judiciário melhor para o projeto golpista, não tira o dedo no gatilho e dispara sem medo de gastar munição. Sentiu, pelas manifestações de seus apoiadores defendendo o fechamento do Congresso e do Supremo o caminho para o acirramento da tensão, a ampliação da crise e, consequentemente, a criação do clima perfeito para desferir o golpe contra as instituições da democracia e colocar a coroa na própria cabeça. Por isso, haja pólvora.

Por diversas vezes, o presidente do Supremo, Luiz Fux, levantou a bandeira branca e chegou a ir a um encontro de Bolsonaro, no qual explicou ao capitão os limites constitucionais da independência dos poderes, e da necessidade da manutenção da harmonia entre eles. Fux chegou a marcar uma reunião entre ele, Bolsonaro e os presidentes das duas casas do Congresso. Depois da derrota da emenda do voto impresso, o próprio Lira conseguiu a concordância de Bolsonaro de que o assunto estaria encerrado ali. Mas Bolsonaro...nem tchuns. Voltou à carga porque agora tem o álibi de que avisou que sua reeleição seria fraudada com o voto eletrônico. Agora ele tem o argumento pronto para dar o bote. Porque tudo o que ele menos quer ouvir falar é nessa tal de harmonia entre os poderes, porque com ela sabe que ficam distantes seus objetivos golpistas.

Ele precisa, repita-se, manter em alta a tensão política para agradar seus seguidores e as forças armadas, essas que têm os aviões de combate, os tanques fumacentos, os fuzis e os canhões – que nem o Congresso nem o Supremo têm -, para se juntarem a ele na aventura golpista. Fux não teve sucesso na tentativa de reaproximação. Mal saiu da reunião e Bolsonaro já estava disparando contra ministros do STF, principalmente Alexandre de Moraes, que o incluiu no inquérito das fake news, completando quatro processos que o capitão responde perante o Supremo.

Foi suficiente para Bolsonaro voltar à carga com ataques diretos a Moraes e a Luiz Roberto Barroso, que além de ministro do STF, também preside o Tribunal Superior Eleitoral, onde ninguém quer ouvir falar da volta do voto impresso. Resultado: Fux reagiu à altura, com um discurso duro mas elegante – característica que Bolsonaro desconhece. E cancelou a reunião entre os integrantes dos três poderes na qual iriam fumar o cachimbo da paz. Bolsonaro, ao contrário, agora anuncia o pedido de abertura de processo de impeachment contra Luiz Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

Cachimbo da paz? Mas vou fumar é nada! 

Bolsonaro não deseja nem pensa na possibilidade de dar uma baforada naquele cachimbo. Porque não lhe interessa a pacificação, mas sim a radicalização. O capitão não se conformou com a prisão do patético presidente do PTB, Roberto Jefferson, essa coisa ridícula que posa de machão segurando um monte de armas. Jefferson que, tal como Ciro Nogueira, também já apoiou Lula. A cenográfica e ridícula exibição de armas nos vídeos em que atacou o Supremo e o Congresso soaram como música aos ouvidos de Bolsonaro. Por isso, mesmo sem citar nominalmente Roberto Jefferson, resolveu ir pra cima do Supremo na figura de dois de seus integrantes. Fux, no discurso em que respondeu as críticas de Bolsonaro, afirmou com todas as letras que quem ataca um ministro do STF ataca o Supremo como um todo.

Bolsonaro sabe disso. Por isso ameaça agir “fora da Constituição”. Vai continuar no ataque. E se depender de figuras igualmente golpistas como o subalterno procurador geral Augusto Aras e o beligerante ministro da defesa Braga Neto, o cheiro de pólvora vai continuar empesteando o ar. E, se novamente as Forças Armadas embarcarem no canto de sereia dissimulado em expressões como “forças armadas são poder moderador”, ou “protagonistas dos principais momentos da história do país”, dá pra ouvir as patas da vaca em disparada indo para o brejo de um golpe que, como todo mundo já viu, sabe como começa, mas nunca sabe como termina. Por aqui, o de 64 terminou com quilômetros de páginas de jornais e matérias de telejornais censuradas, horas e horas de telejornais cortados, milhares de prisões arbitrárias, várias centenas de exilados, centenas de torturados, outras centenas de assassinados. O final desse filme não é bom, e todo mundo sabe. Será que o país vai querer uma reprise?

Nota do autor: A coluna acima foi fechada no início da noite de domingo (15). Pouco mais tarde fomos surpreendidos com a informação de que o presidente Jair Bolsonaro havia publicado numa rede social uma mensagem que que fala da necessidade de um "contragolpe", chama a atual constituição de "comunista" e convoca a população para se manifestar no dia 7 de setembro com o objetivo de mostrar que ele e a forças armadas têm apoio para uma ruptura institucional. Ou seja: tudo o que está contido no texto apenas corrobora o que Bolsonaro postou na noite  do domingo no Whatsapp

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