Somos todos macacas

Fábio Flora *

Daquelas de auditório. Daquelas que não podem ver um Silvio Santos fazendo aviãozinho que já decolam os pompons e abrem o baú. Daquelas que não podem ouvir um Faustão berrando “ô, louco meu!” que já vestem a camisa de força. Daquelas que não podem imaginar um Gugu na sua casa que já naufragam na primeira banheira despidas até os neurônios.

Me lembro do Chacrinha perguntando se queríamos bacalhau. Hoje, numa blackblóquica manifestação de involucionismo, a gente se contenta com a banana do Neymar.

Já se sabe que a hashtag mais compartilhada de todos os tempos da última semana (não vou repeti-la aqui por motivos óbvios: não ganhei cachê) foi peça muito bem pregada por uma agência de publicidade contratada para agregar valor ao camarote do craque. Típica pegadinha de malandro. Rá. Campanhaça de marketing que fez Darwin deixar o túmulo e subir em árvores – seguido por um planeta inteiro de miquinhos amestrados e macacos de imitação.

Mas capitalismo pouco é bobagem; capitalismo que se preze é selvagem. Tanto é que, horas depois de a campanha – revolucionária feito t-shirt do Che – se espalhar pelas redes sociais, já tinha homem-primata-com-nariz-de-tucano enchendo os bolsos de potássio graças a uma camisa que estampava não só a hashtag, como a banana (descascadamente plagiada) do Andy Warhol. Pior: vendida a suspeitíssimos 69 reais. É ou não é mensagem subliminar de sacanagem das brabas?

Que as colegas de auditório não me escutem: o mundo anda tão pornograficamente maquiavélico e globalizado que não me surpreenderia se descobrissem que a ameba que atirou a banana durante o jogo do Barça fora contratada para tal (ainda que haja zilhares delas por aí fazendo o mesmo serviço sem cobrar um centavo). E mais: também não me espantaria se o próprio Daniel Alves, a vítima da vez, já tivesse ciência do roteiro a ser devorado. Nada mais me soa – desculpem o trocadilho – “inverossímio”, ou melhor, inverossímil.

Num tempo em que até o combate ao racismo vira mercadoria em questão de cliques, só resta uma certeza: a de que estamos todos pagando – e bem caro – aquele mico.

* Cronista, residente no Rio de Janeiro, Fábio Flora mantém o blog Pasmatório e perfil no Twitter.

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