Saudade do Brasil

Elegante, discreto, segundo ele mesmo: “um temperamento conservador com atitudes liberais e idéias socialistas”, 93 anos, fazendo a linha que me lembrou o verso de Drummond, “cansei de ser moderno, eu agora sou eterno”, Mestre Antonio Cândido – crítico literário, professor, sociólogo, militante, socialista, um dos principais intelectuais brasileiros, personalidade que marcou nosso século XX (afinal, foi ele quem descobriu o gênio de Guimarães Rosa, quem primeiro cantou a bola, numa época em que o regionalismo literário já estava enchendo o saco, a ponto de Wilson Martins, num primeiro momento, dizer de Rosa algo como “que merda, mais um falando de sertão, boi e boiada”) – rompe o silêncio de vários anos e dá uma grande entrevista à revista Brasil de Fato, cujos melhores momentos reeditei – modéstia à parte, muito bem, deu um trabalho do capeta! – e reproduzo adiante.

De academia, linguagem & clareza: “Acho que a clareza é um respeito pelo leitor. Sempre achei que quando se trata de ciências humanas não deve haver jargão científico. O que tenho a dizer nas humanidades posso dizê-lo com a linguagem comum. Acho que a clareza é necessária para a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.” (isto é, para a mensagem ter valor – grifo meu)

De crítica literária & literatura: “É fundamentaI reconhecer que a obra é autônoma, contudo também foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Meu livro “Literatura e sociedade” analisa isso. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, outras, estudo do vocabulário, a classe social do autor. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam de eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Mas isso me permite tratar de um número muito variado de obras.”

De biscoito fino & croquete: “Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando era um jovem crítico, queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso.

Então, minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete.”

Das traduções: “Quando um livro é traduzido e a crítica diz que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua bom. É a prova de um grande escritor.”

De leituras, releituras & (des) atualizações: “Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco aqui. Mas eu não tenho computador, nem e-mail. Olha, eu parei no telefone e na máquina de escrever. Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso pela literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. Meus antigos alunos que me visitam e dizem que a literatura está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas, como não me interesso por novidades, não sei. Aliás, já não leio, eu releio. História,um pouco de política, alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele dizia que o marxismo tem o defeito de achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre, partindo da idéia de  Kant “da finalidade sem fim”. O socialismo é uma finalidade sem fim. É preciso agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas lá não se chegará nunca. No entanto, se não fizer essa luta, você cai no inferno.”

De socialismo, capitalismo & igualdade: “Sou inteiramente socialista. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade pois é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais.”

“Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, empresário, ele disse: ‘O senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana’. Ora, capitalismo não tem face humana nenhuma (grifo meu) O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. A face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue.” (grifo meu)

“O socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, haverá socialismo. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima.”

De temperamentos, idéias & gerações: “Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário! (risos). Mas me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio (Salles Gomes), que dizia ‘é melhor ser fascista do que não ter ideologia’. Ele que me levou para a militância, dizia, com razão, que cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.”

E o dever da atual geração? “É ter saudade”.

É verdade. Saudade do Brasil (nome daquela sinfonia, uma das últimas de Tom Jobim, gravada em Nova York no final de 70 com a orquestra de Klaus Oggerman: uma catedral de anjos, acordes e villa-lobos redivivos – uma explosão de saudades por um Brasil que ficou tão longe, tão distante, tão passado e tão perdido e para o qual esta escritora não tem palavras).

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