Reflexões sobre educação em tempos de pandemia

A preocupação com as consequências das ações humanas sempre esteve presente na história do pensamento social, bem como com a relação entre as capacidades das pessoas e seu lugar na comunidade, com as questões relativas aos direitos e deveres de cada um, com a dignidade pessoal e o respeito ao próximo, com a justiça e injustiça, com a felicidade e a infelicidade. Tais questões combinam crenças e fantasias.

Seja na comunidade-terreiro, em seu espaço de moradia ou no trabalho, o povo preto engendra um conhecimento de si e do mundo através de representações reais e imaginárias, instituindo suas diferenças e construindo sua identidade.

Mulheres que pintam o país com a cor da esperança

Nestes meses de pandemia, com a suspensão das aulas em todos os níveis de escolaridade, observamos, com clareza, as escolas públicas brasileiras, vendo as dificuldades da comunidade pobre e basicamente preta, que não tem acesso à internet nem ao celular. A queda do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi imensa, com exceção do município de Natividade, cidadezinha do nordeste fluminense ,que deu um salto de 2,5 pontos, gastando apenas 5% a mais do orçamento previsto, por conta da implementação  de uma rotina de avaliações e do alinhamento pedagógico da rede, que passou a acompanhar os alunos mais de perto, fazendo as correções necessárias em aulas de reforço, distribuindo material impresso num modelo de ensino remoto, além de premiar os bons alunos e professores.

A escola tem que se preparar para lidar com a diversidade, bem como a mídia, que é hoje o intelectual orgânico das classes sociais. O racismo estrutural das instituições mostra na atual conjuntura um racismo molecular, que passa pela contratação do mercado de trabalho, na seletividade para as boas condições sociais, afetando diretamente os descendentes de africanos no recrutamento de emprego, na escola e nas oportunidades sociais.

A questão racial quando é tocada no país conta com a reação violenta das elites. As políticas de afirmação social feitas, como as cotas, o Bolsa Família, o atendimento a descendentes de escravos, mexeu com as elites que não resistiram ver suas regalias perdidas.

A questão racial não se esgota pela questão social. As elites e os brancos pobres não foram preparados para aceitar a mudança racial. Permanece intocada a questão da raça, da relação entre patrões e empregadas/os.

A educação brasileira não dará um passo adiante sem a transformação da mídia, que precisará encarar seriamente a questão racial. A educação é visceralmente política. O modelo de educação tem que se estruturar em uma educação descolonizada, sem se pensar em Europa. Um país como o Brasil tem como desafio reinventar uma forma própria de educação.

A escola fundamental com Anísio Teixeira e toda Escola Nova, se pautou na escola pública, no pensamento crítico, na igualdade de oportunidade para todos. Depois disto a educação virou uma questão técnica, passou a ser universal e não nacional. Passamos a ter cinquenta por cento do ensino superior em mãos particulares, que vê a educação como empresa, se prendendo a não estar no vermelho no final do mês, sem compromisso com a educação global e a integração social.

O vetor educação tem que se articular com um projeto político pedagógico que não temos no MEC.  O discurso da educação, no momento, vem de economistas, sem um discurso transformador que a educação implica. A questão da educação é o professor e não o instrumento técnico, nem o volume da informação. A professora e o professor são fundamentais. São eles que lidam com a solidariedade de classe e a consciência da vida social.

A sociedade tem tido espetáculo demais, sem aprofundamento da transformação social.  É preciso investir no ensino público, em pesquisa, no professorado em sua integridade.  Precisamos acabar com o modelo prisional e clerical que é o que temos até aqui com origem no século 19. Temos que encontrar um modelo próprio que inclua nossa diversidade: comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, brancas, pardas e pretas, fazendo um saber popular brasileiro, com ênfase no estudo das matemáticas, da ciência e da democracia.

A experiência educacional do Axé Opô Afonjá feita na minicomunidade Oba Biyi, se torna poderosa referência para uma nova postura de respeito diante  da tradição cultural negro-brasileira e para uma nova e verdadeira proposta  educacional, comprovando a viabilidade de uma sociedade pluricultural promovida pela energia capaz de vencer o grande desafio contemporâneo: DEMOCRACIA E DIVERSIDADE HUMANA.

Mulheres que pintam o país com a cor da esperança

Olhares Negros - Uma experiência possível e necessária, por Wania Sant'Anna

 

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!