Quem acende o fósforo dos incêndios no Brasil?

Nosso país está em chamas de norte a sul. No ano de 2020, segundo o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, o bioma da Amazônia registrou 53.023 focos de queimadas, o cerrado 34.839 e o Pantanal um total de 18.259. Em todos os casos os biomas tiveram crescimento expressivos quando comparados aos anos anteriores.

É certo que as queimadas nos mais diversos biomas brasileiros não possuem a mesma fonte, mas se enganam aqueles que acreditam que eles não possuem conexão. Sejam os incêndios criminosos promovidos por latifundiários que querem abrir pasto irregularmente, destruir florestas para depois se apropriarem da terra ou aqueles promovidos por uma população inconsciente do risco da queimada de lixo e folhas, são as mãos do Governo Federal que riscam o fósforo dos incêndios no Brasil.

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Ao assumir uma postura reativa e negacionista com os problemas ambientais do Brasil, Bolsonaro desde o início do seu governo tem dado sinal verde para os desmatadores. Mesmo no atual cenário de devastação intensa e sem antecedentes dos nossos biomas o Presidente não está disposto a falar a verdade ou se responsabilizar e abriu a 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas - ONU falando que índios e caboclos eram responsáveis pelos incêndios no Pantanal e Amazônia.

Esse discurso notoriamente falso tem ressonância por todos os órgãos do governo como na Secretaria de Comunicação (Secom) e no Ministério do Meio Ambiente (MMA). A Secom, ou como gosto de chamar a Secretaria de Fakenews do Governo Federal, publicou nas suas redes sociais que o desmatamento de 2020 era o menor dos últimos 18 anos e para chegar nesse dado distorcido comparou as queimadas parciais de 8 meses em 2020 com as queimadas de 12 meses dos anos anteriores.

Essas falas mentirosas não são simples erros de comunicação ou problemas isolados, mas fazem parte de uma estratégia bem desenhada do Governo Federal que se soma ao enfraquecimento o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), proposta de fusão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e a defesa de mineração nas terras indígenas que juntos promovem o desmontar da política ambiental do país.

Bem, nada disso é uma surpresa já que a nomeação de Ricardo Salles como Ministro de Meio Ambiente indicou claramente qual seria a política ambiental desse governo. Um advogado formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao qual por quase sete anos fez-se acreditar possuir mestrado em Yale. Em sua nomeação alegou ter como prioridades a agenda ambiental e urbana, o combate ao lixo do mar e agilidade de processos de licenciamentos. Logo no início da sua gestão descobrimos que suas ditas prioridades eram tão mentirosas quanto seu diploma. Sua principal tarefa foi ajudar a “passar a boiada”, criou regras para dificultar aplicação de multas, transferiu poderes do MMA para outras pastas governamentais e a removeu diversas regulamentações ambientais.

Nesse cenário não só não avançamos na preservação do meio ambiente e no equilíbrio do uso dos nossos recursos como também damos a oportunidade para o desmoronamento do que ainda nos sobra. Vemos os efeitos surgindo como dificuldade de acesso a água, diminuição da qualidade do nosso ar, da biodiversidade dos nossos biomas, ampliação do aquecimento global, inviabilização do desenvolvimento econômico baseado no turismo de base comunitária, paralisação de diversas cidades, além de sinais que o descuido com o meio ambiente refletirá nos relacionamentos internacionais do Brasil como sua inclusão na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e ruptura de acordos econômicos.

No caos organizado que está sendo promovido pelo Governo Federal suas funções básicas de conscientizar, fiscalizar, controlar não estão sendo cumpridas ou promovidas em parceria com a sociedade civil e setor privado. A ausência do estado na mudança cultural da relação da população com o meio ambiente basicamente a inviabiliza, pois deveria ser o próprio motor de transformações sociais através de aplicação de legislações e consolidação de políticas públicas que nos guiasse para um futuro mais equilibrado e sustentável.

Hoje nossas melhores e únicas armas contra o desmatamento são servidores públicos comprometidos em nível estadual e distrital que lutam para controlar os incêndios mesmo sem uma política clara e estruturada do Governo Federal. Exemplo é o Distrito Federal que está tendo seu cerrado salvo a duras penas pelo Corpo de Bombeiros do DF, servidores do ICMbio, brigada do IBRAM e voluntários. Somados a eles, devemos ter um pacto social de apoiá-los com todo voluntariado possível e pressionando o Governo Federal para demonstrar que a sociedade civil organizada não se curvará ao desrespeito e destruição do nosso meio ambiente.

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