Quando não há saída

Aletheia Vieira*

O senador Demóstenes Torres tenta, mas não consegue que se produza a seu favor qualquer tipo de misericórdia. Nos próximos dias, ele irá discursar e defender suas versões do caso Carlinhos Cachoeira na tribuna do Senado até a sessão em que poderá se tornar o segundo senador cassado no Brasil. O primeiro foi o Luís Estevão, do Distrito Federal. Lembram?

Nessa época, praticamente ignorei o fato. Quem era esse Luís Estevão? Que diferença ele poderia fazer? Depois de alguns anos, percebi a tal diferença. Outros senadores não gostariam de passar por isso. Entre eles, Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e José Roberto Arruda. Eles renunciaram ao mandato nos início dos anos 2000, após muita confusão – incluindo brigas históricas em plenário.

Cada um se enrolou até o ponto em que jogaram a toalha para tentar seguir em frente, levando em conta que, nessa época, não tinha a Lei da Ficha Limpa e nem redes sociais. Vocês devem lembrar também dos escândalos – violação do painel eletrônico (ACM e Arruda) e desvios da Sudam (Jader). Mas os três eram lideranças políticas importantes em seus estados, conseguiriam apoio político depois que a poeira baixasse. Sem eles, alguns partidos não sobreviveriam nos contextos locais.

ACM morreu em 2007 durante mandato no Senado. Já José Roberto Arruda dispensa maiores apresentações.

Mas depois de exercer dois mandatos de deputado federal e atuando politicamente nos bastidores, Jader ganhou a eleição para o Senado em 2010. Chegou a ser barrado pela Lei da Ficha Limpa por causa da tal renúncia. Conseguiu assumir o posto, que estava sendo exercido por Marinor Brito (Psol), após o Supremo Tribunal Federal – STF – decidir que a lei não deveria ser aplicada nas eleições de 2010.

Conto essa história toda para lembrar uma coisa: a Lei da Ficha Limpa está valendo agora e não há saída para o próximo possível senador a ser cassado. Se ele renunciar, fica inelegível. Se ele for cassado, fica inelegível. Ou seja, no passado, ACM, Arruda e Jader não tiveram muitos empecilhos para retornarem à vida pública após escândalos e renúncias. Mas Demóstenes Torres terá.

É muito complicada a situação de Demóstenes. Primeiro, ele não tem mais apoio do partido, nem dos colegas senadores. Quem vai querer se queimar ficando ao lado de um “amigo de bicheiro”?

Antes da confusão toda, Demóstenes era um verdadeiro patrimônio do Partido Democratas - DEM. Havia sido promotor público, conhecedor das leis, apresentava pareceres técnicos dos projetos que relatava nas Comissões do Senado. Tem uma excelente retórica, era respeitado por parlamentares considerados de esquerda. Até porque a esquerda precisa de alguém de qualidade na direita para debater certas questões.

Acima estão todas as qualidades de Demóstenes. Mas isso não irá salvá-lo. Ninguém vai lembrar de seus belos pronunciamentos, ninguém vai lembrar de seus pareceres incríveis, ninguém vai lembrar que ele é inteligente. Só vão lembrar que o bicheiro falou que "um milhão era pra ele".

Em seu primeiro discurso esta semana, ele usou a retórica para tentar sensibilizar os colegas de que está sendo injustiçado. Disse não ter mais lágrimas, que chegou ao fundo do poço e a família está abalada.

Após fazer uma análise simples do discurso que Demóstenes proferiu na última segunda-feira, 2, cheguei a algumas conclusões. Me acompanhem.

1 – Montagens e edições das escutas telefônicas estão sendo feitas para incriminá-lo
Tudo bem, nada como uma boa edição para fazer com que um candidato a presidente pareça a pior pessoa do mundo após um debate. Mas no caso de Demóstenes, por mais que seja necessária a análise das conversas na íntegra, não há como negar que o senador tinha uma relação muito próxima com Carlinhos Cachoeira.  Os dois se chamavam de “doutor”, de “chefe”.

2 – Ele alega que era apenas amigo de Cachoeira e não fazia negócios com o bicheiro
Normal nós termos amigos no mundo do crime, né, gente? Não, não é normal. Demóstenes tinha sido promotor público, devia saber dos atos ilícitos que Cachoeira praticava em seu Estado. Como político defendia ferozmente a ética. Não há desculpas, pessoas merecem a nossa amizade principalmente quando estão de acordo com os princípios que defendemos.

3 – Afirmou que o que fez era apenas para ajudar no desenvolvimento de Goiás
Coitado do estado de Goiás. Precisa depender dos jogos de azar para se desenvolver? Em uma das conversas, Demóstenes fala com Cachoeira a respeito da tramitação de um projeto sobre contravenção. Se isso é tráfico de influência ou não, cabe a Justiça decidir. Mas convenhamos. Se alguém pede apoio de um senador em relação à tramitação de um projeto, isso pode ser feito por meio da assessoria do parlamentar. Cachoeira conversou diretamente com Demóstenes sobre o assunto. Dessa vez, não precisamos nem ouvir a conversa toda para saber disso.

4 – Falou que não tem mais lágrimas, pediu desculpas aos colegas, disse que não aguenta mais ler notícias sobre o tema, que a família não aguenta mais passar por isso, etc.
Eu imagino que o senador Demóstenes está sofrendo com tudo isso, sim. E a família e os filhos também, que não têm culpa dessa confusão toda. Mas que sirva de lição para ele e outros políticos. Quando você defende determinados valores e isso faz parte da sua vida pública, ISSO REALMENTE DEVE FAZER PARTE DE SUA VIDA PÚBLICA. Não há mal, por menor que seja, impossível de ser descoberto. Nenhuma máscara nasce pregada no rosto, um dia ela cai.

*Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Pará - UFPA com especialização em Jornalismo Político pela Universidade Gama Filho. Mora e trabalha em Brasília

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