Pra fazer história, além de contá-la

Eu não acho que o Estado deve resolver meus problemas. Mas creio piamente que devo ajudar o Estado a resolver os problemas dos brasileiros, entre os quais me incluo naturalmente.

O que pode parecer um libelo do liberalismo é tão somente sentimento de cidadania, de pertencimento, de coletivismo, de mão na massa para construir um país. A observação conceitual inicial deste artigo, além de revelar como pensa este autor e ser transparente com o leitor, também se abre para falar de algo extremamente inovador e conectado com o momento atual do país e que assisti recentemente em São Paulo. Meca dos grandes musicais do Brasil, um grupo da cidade pode estar fazendo muito mais que outro grande musical, que verterá talento de gente brasileira ao encenar histórias e enredos nacionais ou internacionais.

Pode estar a fazer história no Brasil tendo como pretexto contar uma história brasileira. É, é gigantesco e aparentemente redundante assim. Para isso, some uma produção brasileira, de uma história brasileira, com talento nacional querendo ocupar os palcos daqui e da Broadway e com mais transparência da aplicação de recursos da Lei Rouanet.

É isso.

E a narrativa desse dia começou na segunda-feira, 20 de junho (guarde esta data), no espaço de ensaio do teatro Cetip, no conjunto Tomie Ohtake, quando vi algo novo, ousado e inovador, com o pensar grande no país. Um começo de indústria cultural made in Brazil pra valer, com tática, técnica, profissionalismo e suor.

Falo do grupo Marcenaria de Cultura, sediado na capital paulista, dos produtores culturais Marllos Silva e Cristina Morales. Para vender e atrair anunciantes via lei Rouanet, eles inovaram na forma. Antes de saírem com a pastinha debaixo do braço ou disparar emails com informações do projeto, organizaram um pocket show do seu mais novo projeto: “Isaura, o Musical”, inspirado no belo romance da clássica obra de Bernardo Guimarães, uma preciosidade da literatura brasileira. “A Escrava Isaura”, nome do livro, também é a novela brasileira mais vista no mundo, um fenômeno que não reconheceu limites culturais para ser exibida em tantas as línguas quanto o repertório de maldade de Leôncio, o maior carrasco novelesco que este país já viu.

No pocket de apresentação do projeto, uma inovação em si, ousaram, fizeram mais e melhor ao dar uma mostra real do musical com um elenco convidado, talentoso e dedicado, ainda com os papeis por serem decorados nos diálogos, mas com a apresentação de alguns números musicais de tirar o fôlego. Fosse eu um crítico de arte, dedicar-me-ia a escrever uma resenha inteira à querela cantante, vibrante e profunda de Isaura (Ingrid Gaigher) e Rosa (Corina Sabas), a escrava negra, num duelo das dores da escravidão. De arrepiar! Ou do número dos escravos de vozes poderosas, igualmente doloridas e descrentes na liberdade, “esperando o Brasil mudar”, que faziam ressoar as senzalas de ontem na realidade ainda desigual de hoje. Os musicais do Brasil, diferentemente das novelas da TV, conseguem exibir exponencialmente o talento que não falta a esta gente brasileira branca, negra, mestiça...

Sem ir adiante nas cenas, volto a minha condição de observador da vida brasileira. Ali, vi arte e negócio, cultura e indústria sendo feitas de forma profissional. Produtores, realizadores, músicos, artistas e técnicos, todos sem cachê, se reuniram para uma demonstração concreta da forma e do conteúdo do musical que pretendem montar no palco. Juntaram-se para apostar na ideia, ensaiaram, atuaram, trabalharam, exibiram, arriscaram-se, expuseram-se para encenar trechos que do que virá a ser o musical, numa sala de ensaio para uma plateia de representantes de empresas, possíveis patrocinadores, jornalistas e outros que, ocupados com o fazer da cultura e em buscar alternativas reais e sustentáveis não têm tempo para ocupar Funartes e afins.

Junte-se a inovação da venda do projeto, dessa mobilização organizada, técnica, pensada, o fato de que o musical, depois de sua montagem e exibição pelo Brasil, está sendo preparado desde já para os palcos internacionais, exportando a cultura brasileira mundo afora, incluindo o palco dos palcos: a Broadway – onde o mundo é visto pelo mundo. Para isso, a Marcenaria de Cultura, de Marllos e Morales, se associou ao experiente produtor venezuelano e radicado no EUA, Daniel Bort. Ele que, ao explicar as aspirações internacionais de “Isaura”, revelou-se um entusiasta da história da escrava branca.

Por fim, no pacote de inovações, os produtores prometem tornar a gestão dos recursos que virão por lei de incentivo, especialmente a Rouanet, ainda mais transparente. Aos patrocinadores, a contabilidade poderá ser acompanhada via internet em intervalos de 48 horas, além, claro, das exigências legais já existentes na relação entre proponente e os órgãos governamentais de cultura. Para atrair empresas, o grupo se apoia em um musical ambicioso da história do Brasil e em prestação de contas mais rápida e transparente.

Para resumir a história dos bastidores de Isaura: realizar um musical que expõe talentos brasileiros nos palcos daqui, que vai contar e exportar uma história genuinamente brasileira nos palcos do mundo e um projeto cultural por renúncia fiscal que quer intensificar a prestação de contas dos gastos ainda durante todo o processo de montagem e exibição.

Quando falei de inovação no início deste artigo, o parágrafo acima sintetiza bem o que chamou minha atenção e que, a se tomar as intenções como uma prática de compliance, deveria ter os olhos dos órgãos oficiais de cultura, vendo na parceria transparente e orgulhosa de Brasil da iniciativa privada uma aliada para não mais permitir o sequestro do Minc ou das secretarias de cultura, seja por que gente for.

O projeto em gestação, que se bancou para montar um trecho de pouco mais de meia hora de um musical que ainda precisa de recursos para ser produzido, não me parece outra coisa que não a busca por formatos e modelos que se relacionem melhor com o benefício espetacular da Lei Rouanet e a lógica de incentivos fiscais para arte ou esportes, presentes na legislação do país todo, seja de impostos federais, estaduais ou municipais. Há muitos no mundo que invejam os brasileiros por termos esses instrumentos de financiamento.

Não terminaria este artigo sem lembrar que, nos últimos meses, dado o debate pretensamente ideológico, a Lei Rouanet foi alvejada, xingada, maltratada e demonizada. Não foi gratuito. Denúncias sérias de abuso no seu uso e em concessões de toda sorte, que seriam baseadas na simpatia partidária do artista com o governo anterior, fizeram recrudescer as críticas dos brasileiros, cansados da corrupção e dos desmandos, a uma lei que, quando bem aplicada, foi capaz de criar toda uma indústria cultural. As críticas seriam totalmente justas, ante os fatos, não fosse o exagero e a imperícia da generalização.

As leis de incentivo foram responsáveis por criar essa indústria cultural que, apenas no caso dos musicais em São Paulo – e falo aqui da Lei Rouanet –, gerou 3.250 empregos diretos neste ano ainda em curso de 2016. A geração de empregos indiretos costuma ser muito maior e o incentivo à criação de escolas de profissões ligadas direta ou indiretamente aos palcos, imenso. Se você souber que desde 2013 o número da montagem de musicais cresceu 150% no país inteiro, o resultado positivo aumenta. Os números econômicos de inegável apelo social são do Prêmio Bibi Ferreira, voltado à premiação de musicais.

No momento de justo e necessário pente fino da sociedade brasileira na utilização de leis de incentivo, recursos públicos ou relacionamento de empresas com o Estado, iniciativas que sejam movidas à transparência e que impulsionem a indústria que gera empregos, sem pedir mais ao governo, que façam a economia girar e, no caso da cultura em específico, que queiram contar histórias do Brasil aos brasileiros e serem estes os protagonistas a contá-las ao mundo, farão mais que contar a nossa história. Vão escrevê-la.

Governos e sociedade precisam olhar para iniciativas que conseguem sair do debate inócuo de quem deve e quem paga, quem são os culpados ou os inocentes, altamente contaminado por partidarismos. A Justiça e o tempo farão isso com o nosso diligente acompanhamento e demanda. Já vimos que são capazes e temos avançado.

Os brasileiros das iniciativas de gente séria deste país, no governo ou no mundo privado, devem se debruçar nas soluções. São elas que resolvem os problemas.

Ao apoiarem-se mutuamente em alternativas responsáveis, sustentáveis e eficientes, o país cresce e aparece no palco e na vida.

 

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