Oposição: entre o esquecimento e a memória

A oposição bebeu no rio errado. Em vez das águas do Mnemósine, preferiu saciar a sede pelo caminho mais fácil e foi beber no Lete. Deu no que está dando. E vai continuar a dar, se não mudar de rio e de atitude.

O leitor sabe quando será o ano de 2022, no qual os brasileiros vão votar para presidente da república? Pois é daqui a duas semanas, talvez menos. Não, não fiquei doido. Para quem trabalha com estratégia política, anos devem ser avaliados como se durassem dias. Tudo é para ontem. Ou até mesmo para anteontem.

Só para esclarecer: na mitologia grega, Lete é um dos rios do Hades. Os que bebessem de suas águas ou apenas tocassem nelas experimentariam total esquecimento. Mas há um outro rio, o Mnemósine, cujas águas têm efeito inverso: quem bebesse delas recordaria tudo o que havia esquecido.

Te acuerdas de Fernando Haddad, chica?

Ainda outro dia, um certo capitão-deputado, pelo qual não se apostava um vintém furado, elegia-se presidente da República. E galgava o mais alto posto da magistratura brasileira muito mais por incompetência estratégica da oposição do que por méritos próprios, até porque não tem nenhum. Divididos, os partidos que formam a oposição foram para a eleição achando que Lula, a lenda viva, conseguiria transferir votos para seu novo poste, Fernando Haddad, totalmente isolado e sem a participação dos demais partidos. A decepção com a corrupção petista empurrou o eleitorado que vinha desde a primeira eleição de Lula pendendo para a esquerda para o polo oposto, e descarregou os votos no ultradireitistsa Jair Bolsonaro.

Neste momento, não se identifica qualquer ação coordenada e articulada das oposições para fazer frente a Bolsonaro em 2022 que, como escrevi de forma metafórica lá em cima, está aí batendo na porta. Às vezes a postura dos principais partidos de oposição cheira a pura irresponsabilidade. O país entregue à pior corja que já ocupou o governo desde o Império e a oposição se divertindo com memes engraçadinhos sobre Bolsonaro, sem saber que nenhuma charge, se não vier acompanhada de ações consistentes, termina consagrando o chargeado.

Bozo saiu das cordas. E agora, José?

Bolsonaro foi às cordas com a prisão do Queiroz, de quem é refém pelo arsenal de informações que o ex-assessor dispõe sobre as falcatruas em seu gabinete de deputado federal, além dos descalabros praticados pelos filhos. Mas agiu rápido e já surfa na onda enquanto as esquerdas - até hoje! - não saíram da divisão com que ingenuamente enfrentaram uma direita articulada, fanatizada e apoiada por sólidos conglomerados financeiros, e que levou o capitão ao Planalto.

Depois da prisão de Queiroz, surgiu um novo Bolsonaro, mais recolhido, menos atabalhoado. Aconselhado por algum assessor (porque não tem competência intelectual para formular nenhuma estratégia política por conta própria), ele parou de dar entrevistas e de conversar com apoiadores na entrada do Palácio do Alvorada, nas quais os despautérios verbais faziam bem à sua claque mas acirravam os conflitos com os demais poderes. Na mesma linha, Bolsonaro esqueceu a promessa de campanha e está fazendo simplesmente o pior da velha política, como vender o governo ao Centrão, em troca de apoio para um eventual pedido de impeachment. E vem dando certo.

Na mesma batida, Bolsonaro iniciou uma bateria de viagens ao interior, com ênfase nas áreas onde é menos popular. Ali faz inaugurações e captura os dividendos de ações sociais do governo, invadindo searas antes dominadas pela esquerda. Prorrogou o auxílio emergencial. Está lançando o Renda Brasil em substituição ao “petista” Bolsa Família. E faz questão de ser fotografado ao lado de gente humilde, para solidificar a imagem de político preocupado com os pobres. Ações muito parecidas com as de Lula em 2005, quando o PT foi atordoado pelo escândalo do mensalão. Naquela época deu certo para o PT, é bom não esquecer.

Ultimamente, as más notícias da pandemia rivalizam com as boas novas da economia. Volta gradual ao trabalho. Recuperação, ainda pequena mas visível, do setor de comércio. Aumento da confiança da indústria. Movimentação crescente no setor de cargas. Reequilíbrio da Bolsa de Valores.

Se o contágio pela covid- 19 chegou a ser irresponsavelmente comemorada por amplos setores da oposição, é bom saber que Bolsonaro não terá qualquer constrangimento em utilizar-se da doença para elevar seu cacife político. Ou todo mundo se esqueceu do episódio da facada?

Quem chega cedo ao riacho bebe água limpa

Se a oposição quiser ter alguma chance no próximo pleito precisa, em primeiro lugar, reconhecer que Bolsonaro é um competidor forte, sim. E descer dos tamancos de sua arrogância, para se articular e começar a construir, se possível ontem, um nome de consenso para 2022. Além disso, tem de beber do rio da memória, o Mnemósine, para ver se aprende com os próprios erros. Até porque, desta vez, não poderá culpar o povo nem as redes sociais, que agora estão na mira dos órgãos da justiça e tudo indica que não terão o protagonismo nefando que tiveram na eleição passada. Há um ditado velho que resume tudo: quem chega cedo ao riacho bebe água limpa.

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