O voo de galinha: o PIB de 2012

Alguma coisa está fora da ordem. A raquítica taxa de crescimento do PIB de apenas 0,9% é só a ponta do iceberg. A taxa média dos dois anos do governo Dilma ficou em 1,8%, muito menos que os primeiros anos de Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula. A primeira tentação é atribuir o fraco desempenho à crise mundial, mas está claro que a crise se abateu mais sobre as economias da Europa e dos Estados Unidos. Em 2012, diversos países emergentes tiveram desempenho infinitamente superior ao Brasil, descartando o argumento: China (7,8%), Indonésia (6,2%), Tailândia (5,8%), Índia (5,0%), México (3,9%), Rússia (3,4%) e África do Sul (2,5%).

Não há nenhuma característica genética do Brasil que o faça ter um crescimento inferior a 1%. Fato é que o nosso país está perdendo preciosas oportunidades e está se posicionando mal para o futuro. É preciso desvendar os mistérios dessa armadilha do baixo crescimento e mudar o rumo. Não creio que o governo Dilma, por suas convicções e estilo, seja capaz de patrocinar uma guinada na dimensão necessária.

Entrando mais a fundo nos diversos números publicados pelo IBGE, dias atrás, consegue-se perceber claramente o raio-X do problema. O PIB por habitante cresceu próximo de zero (0,1%), ou seja, 2012 foi um ano perdido. Ainda assim, o consumo das famílias cresceu (3,4%) e o mercado de trabalho permaneceu aquecido. Isso revela, por um lado, que a expansão do crédito e da renda encontra resposta no consumo. Mas sabemos que, sem o correspondente incremento dos investimentos e da oferta, o modelo é insustentável, pressionando a inflação e a balança comercial.

O consumo do governo foi, pelo lado da demanda, o que mais cresceu (3,2%). Embora o governo tenha concedido diversas desonerações fiscais, tudo indica que a carga tributária continuou crescendo e não houve, do ponto de vista macroeconômico, o desejado incremento da poupança e do investimento privado. A economia brasileira consolida cada vez mais um perfil de produtora de commodities e de maior peso do setor serviços. Vale dizer, menor produtividade e empregos de baixa qualidade.

A desindustrialização reafirmou sua trajetória (-0,8%) e a âncora verde do agronegócio (-2,3) não contrabalançou. A indústria de transformação recuou 2,5%. As importações cresceram mais que as exportações.

O ponto central para a retomada do desenvolvimento que leve o Brasil a crescer de 4% a 6% ao ano é uma mudança radical no ambiente para investimentos. Isso implica uma série de alterações conjugadas: queda da carga tributária, ampliação da participação de capitais privados na infraestrutura, profissionalização da gestão das estatais e agências regulatórias, respeito a contratos e transparência nas contas públicas, medidas mais universais e menos pontuais, menos intervencionismo e expansão das despesas correntes, maior integração internacional.

A população ainda não sentiu, mas há uma enorme interrogação no horizonte brasileiro.


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