O gol que não podemos perder

Luiz Augusto Pereira de Almeida *

No fogo cruzado do debate político entre os que defendem o sucesso da Copa do Mundo e os que apostam no seu fracasso, perde-se a oportunidade de analisar algumas questões fundamentais para o desenvolvimento brasileiro, referentes a antigos vícios de nossa cultura: a carência de planejamento e incapacidade de se cumprir prazo; discursos dos governos, independentemente dos partidos, com soluções utópicas; ausência de qualificação técnica em quadros de comando; e burocracia intransponível no trâmite dos processos de empreendimentos, em todos os segmentos.

O efeito direto desses empecilhos no cronograma da Copa pode ser demonstrado com precisão matemática, bastando, para isso, recorrer aos números oficiais constantes do Portal da Transparência do Governo Federal. Pois bem, a 10 dias da abertura oficial do maior evento futebolístico do mundo, os dados dos investimentos relativos à organização do evento eram os seguintes: R$ 25,79 bilhões previstos; R$ 24,30 bilhões contratados; mas apenas R$ 16,68 bilhões executados. Ou seja, desde outubro de 2007, quando a FIFA confirmou oficialmente a realização da Copa de 2014 em nosso país, não se conseguiu, em quase sete anos, planejar e executar um plano eficaz de investimentos e obras.

Tanto assim, que, após o término do torneio, ainda restarão ser executados empreendimentos no valor de R$ 9,11 bilhões (a diferença entre o montante planejado, de R$ 25,79 bilhões, e o executado, de R$ 16,68 bilhões). Há que se considerar, ainda, que, do total executado até agora, R$ 5,85 bilhões são referentes aos 12 estádios das cidades-sedes. Ou seja, por enquanto apenas R$ 10,83 bilhões de projetos executados referem-se a obras do legado de infraestrutura e transportes, que realmente são de elevado interesse da sociedade.

Para termos melhor ideia do significado da ausência de planejamento, verifiquemos algumas distorções entre os orçamentos previstos e o realizados. No caso dos aeroportos, o orçamento inicial era de R$ 6,2 bilhões. Até agora, já foram contratados R$ 8,75 bilhões, ou seja, um estouro para mais de 31%. No tocante às obras de mobilidade urbana, matéria que ocupa diariamente as primeiras páginas de nossos jornais, foram previstos investimentos de R$ 8,14 bilhões, mas até agora, contratados somente R$ 6,8 bilhões. E, pior, executados apenas R$ 3,2 bilhões. Vale dizer, somente 39% das obras de mobilidade previstas foram realizadas.

Há, ainda, os investimentos em telecomunicações, previstos em R$ 404,56 milhões, mas com somente R$ 88,3 milhões executados (21,8%). O próprio estádio Itaquerão corre o risco de não ter pleno desempenho nessa questão. E a segurança pública com R$ 1,87 bilhão, mas obras e serviços efetivamente executados de R$ 268,0 milhões (14,2 %).

Não se trata de condenar sumariamente pelos erros e atrasos as empresas privadas, a União, os estados, os municípios e clubes envolvidos com a realização do mais importante torneio esportivo internacional, pois há investimentos de todas as partes e compromissos compartilhados. Porém, é premente corrigirmos os gargalos que nos mantêm distantes do desenvolvimento sustentável e responsável. Caso a Copa do Mundo estimule essa análise franca e desperte uma nova consciência nacional sobre nossos problemas, sua realização estará plenamente justificada. Fazer essa autocrítica será nossa maior vitória! É o gol que não podemos perder!

* Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Federação Internacional das Profissões Imobiliárias (Fiabci-Brasil) e diretor de marketing da Sobloco Construtora

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